CAPÍTULO - XI - RECOMEÇAR
Maria da Glória sentia-se numa encruzilhada. Parar e esquecer era o caminho que o bom senso ditava. Já conhecia a paixão de Francisco e as suas consequências
Mas, ela queria ir além. Não conseguiria recomeçar a sua vida sem encerrar este assunto, porque sentia culpa por não se ter apercebido do sofrimento do marido, desde que recebeu a notícia de que era Pai e até à sua morte. E agora até admitia, como teria sido fácil para ela, levá-lo a confessar o segredo e a pedir ajuda. Acreditava que fora isso que Francisco tentara fazer antes de morrer.
Tirou o sobrescrito seguinte, não tinha qualquer indicação. Abriu com cuidado e encontrou duas fotografias de uma mulher jovem e bela uma de perfil outra de frente. Notava-se que estariam emolduradas, pelas marcas nas margens. Eram as que ele tinha trazido de casa. Tinham ambas uma dedicatória “Para o amor da minha vida” – e “ Deus como te amo” e a data de 20/12/1996.
As fotos tinham sido o presente pois o dia era o aniversário de Francisco.
Eram fotos de estúdio mas, já não se percebia bem o nome. Só que ficaria na E, 45.
Abriu mais um envelope. Protegida com papel à sua volta, outra fotografia. A mesma mulher desta vez com o marido, olhando-se com um sorriso de felicidade. No verso estava escrita a data,”Cape Cod – Fall 1997.”
O último envelope continha ainda mais fotografias, mas de recortes de revista, mostrando Marjorie, desfilando durante a semana da moda em Nova York, apresentando criações de um costureiro muito conhecido. A revista era a Vogue.
Guardou os envelopes com as fotos, e o sobrescrito com as cartas que fora lendo, numa gaveta da secretária que fechou à chave.
Ouviu o telefone tocar na sala. A empregada atendeu, e passado um momento, bateu à porta do escritório perguntando se podia entrar. Minha Senhora é o Dr. Leandro que lhe quer falar. O que lhe digo?
- Diga-lhe por favor que eu já vou atender. Peça só dois minutos.
Limpou o rosto, ajeitou o cabelo respirou fundo e foi atender na sala.
- Leandro, as minhas desculpas por tê-lo feito esperar, mas estava entretida a ler e devo ter adormecido, por breves momentos.
- Por quem é Maria da Glória, não é preciso desculpar-se.
Olhe minha amiga, telefono para lhe perguntar se ainda está interessada naquele assunto, que falamos na última vez ou se decidiu, espero sinceramente que sim, esquecê-lo de vez?
-Não esqueci, Leandro, continuo a minha busca da verdade.
- Então se estiver disponível, podíamos combinar um encontro para amanhã, por volta das quinze horas. Veja, se o dia e a hora são do seu agrado ou se prefere que eu passe pela sua casa.
- Leandro para mim está óptimo, às quinze horas de amanhã no seu escritório. Sabe, também me faz bem sair.
– Fica então combinado, respondeu o Advogado:
- Até amanhã, os meus cumprimentos.
Passou mais uma noite difícil, assaltada por pesadelos. Neles aparecia Francisco sangrando e ouvia o choro de uma criança, pedindo ajuda. Levantou-se cedo, disposta a dar um rumo novo à sua vida. A continuar assim, reconhecia, caminharia para a depressão e a loucura.
A transformação começou logo no vestir. Abandonou as cores escuras, voltou a preocupar-se com o aspecto exterior e marcou uma sessão com a esteticista do costume.
Quando reentrou em casa, olhou-se no espelho e sentiu que o primeiro passo estava dado. Estava diferente, reconhecia, e uma forte determinação era já visível no seu olhar. Tratar do corpo e depois da mente, foi o caminho que escolheu.
Voltou a sair de casa para tomar o táxi, e seguir para o escritório do Advogado, de certo modo intrigada com o que este lhe iria dizer. Provávelmente, vai-me contar algo que eu já sei mas, pensou, não fará mal ouvir até para constatar a sua sinceridade quando me disse pouco conhecer sobre a vida do Francisco em Nova Iorque.
Depois dos cumprimentos Maria da Glória, sentou-se na cadeira, respirou fundo e olhando de frente para o Advogado disse:
- Pronto aqui estou para ouvir o que tem para me dizer!
O Advogado hesitou um momento, mas percebeu pela tranquilidade que Maria da Glória aparentava, que ela já devia conhecer o segredo. Evitou perder tempo e foi directo ao assunto.
- Maria da Glória, eu já consegui informações, sobre o destinatário da transferência de fundos, que o seu marido vinha fazendo, de há dez anos a esta parte. Tenho um amigo nos Estados Unidos que conseguiu saber que o dinheiro é creditada numa conta em nome de Anthony Berthier. Disse-me ainda que a referida conta, tem condições especiais de levantamento. Assim, os fundos só poderão ser mobilizados pelo beneficiário, quando este atingir os dezoito anos de idade, para o pagamento da Universidade que ele vier a frequentar. Tem regras muito rígidas sobre essa mobilização. O levantamento parcial e antecipado é permitido, mas só com o acordo escrito do ordenador ou de quem o substitua, com poderes para o acto.
Era isto que eu lhe queria comunicar, mas pelo seu semblante, a informação que lhe dei não constituiu uma grande surpresa, ou estarei enganado?
- Não meu caro, não está enganado. Eu só não sabia as instruções sobre a mobilização dos fundos. Quanto ao beneficiário, já imaginava, pois é o nome do filho do meu marido, fruto de uma ligação, que ele teve com uma mulher, quando esteve aqueles dois anos em Nova York. Veja bem, eu encontrei correspondência escondida, onde a história é evidente. Toda ela. Chorei de dor, à medida que ia desvendando o mistério. Sofri muito, de tal modo que, muitas vezes, me arrependi de não ter seguido o seu conselho, e deixar o segredo, ficar como tal, para sempre. Mas hoje, já recuperei desta fase horrível porque passei, fico feliz por não ter desistido. O maior desejo do meu marido era ser Pai e eu nunca pude, por razões biológicas, dar-lhe essa felicidade. Acabou por o ser, mas de um filho que nunca lhe foi permitido conhecer.
O Francisco apaixonou-se, mas não foi capaz de assumir esse facto, perante mim. Fugiu e escondeu-se. Fez sofrer a mulher que abandonou em Nova York e fez-me sofrer a mim, quando, após a sua morte, venho a conhecer toda a verdade. Mas a dor dele também não foi pequena. O filho nasceu e cresceu sem conhecer o Pai e sem que ele, ao menos uma vez, o tivesse visto. E Francisco não resistiu. Ele não era psicologicamente muito forte, foi-se fechando e morrendo pouco a pouco. E eu não me apercebi a tempo, como agora lamento.
Eu já não sinto a raiva de uma mulher traída. Isso é passado.
Agora sei que existe um inocente envolvido neste drama, o jovem Anthony que deverá ter aproximadamente dez anos e nunca conheceu o Pai. Não sei como e onde vive, vou continuar a cumprir a ordem de pagamento, mas preciso, é imperioso mesmo, fechar este dossier para retomar a minha vida na sua plenitude. Para isso preciso de tentar encontrar a mulher por quem Francisco se apaixonou e o filho. Depois entregarei a parte da herança que lhes cabe e seguirei o meu caminho. Recomeçarei a minha vida.
- Maria da Glória, eu sempre soube que a você é dona de um coração de oiro, e juro-lhe que o Francisco, nunca me contou nada. Mesmo, quando me pediu conselho sobre o modo de enviar dinheiro, nunca me disse para quem e porquê, embora eu tivesse achado peculiar o seu pedido. Entre os homens, existe um qualquer sentido, que nos leva a perceber, quando um amigo escorregou e se deixou enredar nas teias da sedução, de uma outra mulher. Eu receava, que ao Francisco tivesse acontecido, alguma coisa no género e imaginei até, que o dinheiro fosse para pagar, uma chantagem.
Era esse o meu receio maior.
-Glória pense bem antes de se aventurar a ir a uma cidade tão grande como Nova York à procura de uma mulher que só conhece por fotografias com mais de dez anos. Admito que, com sorte, até possa encontrar a antiga companheira do seu marido, e passados estes anos, quem lhe garante que ela não refez a sua vida com outro homem?
Pode acontecer que a Glória, com a sua generosidade, possa vir a criar uma situação embaraçosa. Pense melhor, fique por aqui, não se esqueça que o tempo tudo cura. Viva a sua vida minha cara amiga, deixe os outros seguirem o caminho que, bem ou mal, escolheram.
- Leandro tudo o que disse pode ser verdade. A minha viajem até pode ser um rotundo fracasso, mas eu não ficaria bem comigo mesma se, pelo menos, não tentasse.
Sem comentários:
Enviar um comentário