
CAPÍTULO – XII – NOVA YORK
Determinada a levar em frente o seu projecto, arranjou uma colega para a substituir no apoio às crianças institucionalizadas e foi à Agência de Viagens tratar do bilhete de avião e da reserva de hotel.
Sabia que o podia fazer via internet, mas preferia o contacto pessoal com gente que já conhecia e com quem simpatizava.
Decidiu seguir no voo Tap Lisboa/Newark com saída a 31 de Maio e regresso a 27 de Junho. Parecia-lhe que quatro semanas seriam suficientes para qualquer que fosse o resultado da sua procura, poder esclarecer a questão que a preocupava.Naturalmente, escolheu classe executiva para ter maior conforto, fundamental para quem, como ela, não gostava de se sentir fechada num espaço reduzido. A Agência ficou de tratar da obtenção do visto para os Estados Unidos e fazer a reserva para o hotel que ela escolheu, um hotel clássico, o New York Palace Hotel perto da E,50 street. Ficava, assim perto dos grandes estabelecimentos de moda, admitindo ser-lhe mais fácil a busca de Marjorie.
Marcou uma consulta para o médico assistente, pedindo um check up e os medicamentos que lhe permitissem combater a ansiedade do primeiro voo. O médico recomendou-lhe o medicamento aconselhável, mais um calmante para qualquer situação de emergência. Garantiu que ela gozava de excelente saúde. De resto, desejou-lhe boa viajem, dizendo ter a certeza que ela se não iria esquecer das férias naquela cidade.
Os preparativos para a viajem incluíram também uma revisão do guarda roupa, renovando quer nas cores quer no estilo. Ousou mudar e sentiu-se bem. Teve particular atenção com o calçado, prevendo longas caminhadas. Mas não esqueceu sapatos para utilizar com a roupa mais elegante.
E lá partiu, contando às amigas que ia passar um mês em casa de velhas amizades, evitando dizer o local.
O dia da viajem chegou. Glória sentiu a ansiedade do momento e o stress das formalidades de embarque, a inspecção à bagagem de mão, etc .Porém, logo que a hospedeira a acompanhou ao lugar, a ansiedade e o nervosismo diminuíram. Cómodamente instalada no seu lugar, que considerou óptimo, bebendo uma taça de champanhe, que a chefe de cabine lhe tinha oferecido, até esqueceu o medo de voar e nem tomou o medicamento para o enjoo. Estava calma e ao mesmo tempo entusiasmada, como se fosse partir numa aventura e isso era mesmo aquilo que ela precisava para dissipar as nuvens que ainda pairavam sobre a sua memória. E depois, tanta gente lhe dissera que Nova York era uma cidade especial, que quer se goste ou não, nunca se esquece.
Quando o avião descolou, sentiu afinal, algum receio e desconforto. Fechou os olhos, apertou com força os braços do cadeirão, recostou a cabeça e pouco a pouco foi relaxando até se sentir mais tranquila.
Depois de servida a refeição a bordo, que tinha uma qualidade bastante aceitável, e como não conseguisse dormir, distraiu-se um pouco com um dos filmes projectados, e foi observando os companheiros de viajem. O do lado oposto, principalmente, mereceu-lhe mais atenção. Era um homem, de meia idade, algo calvo, óculos bifocais que lhe davam um ar de professor. Olhava para o vazio, semicerrava os olhos e de repente escrevia furiosamente, martelando as teclas de um computador portátil. Depois fazia uma pausa, e parecia apagar o que antes tinha escrito. Quando o observava, ele levantou o olhar das teclas, encarou-a, com um sorriso, dizendo:
- Já escrevi e reescrevi o texto um sem número de vezes e ainda não me sinto satisfeito. Apanhada em flagrante Maria da Glória, sorriu envergonhada, dizendo:
- Desculpe, mas sei por experiência própria que por vezes, mais vale esquecer o que se escreveu, e só voltar a ler passado um tempo. Dizem que assim o texto fica mais claro e consistente.
- É capaz de ter razão, respondeu o companheiro de viajem. Na verdade, já fiz tantas correcções e alterações que a introdução está, cada vez mais, sem sentido. Mas, sabe isto é fruto do nervoso e da ansiedade. O trabalho é uma comunicação que fui convidado a fazer, e logo na Universidade de Harvard. Tenho medo de falhar, confesso.
- Olhe, respondeu Glória, eu cursei medicina e também tive a oportunidade de apresentar trabalhos sobre a minha área, Pediatria. Também tive medo de falhar e por isso fui recusando os convites. A certa altura, porém, convenci-me que só falha quem não tenta. Tentei e o trabalho foi reconhecido e publicado numa prestigiada revista médica. Esta é a minha primeira viajem de avião, porque tinha medo de me sentir enclausurada e ficar doente. Apesar das insistências, nunca o fiz antes, e a vida ensinou-me que não devia ter desistido. Faço-a agora, por motivos pessoais, e, afinal sinto-me tranquila, mas revoltada por o não ter tentado, em vida do meu marido. Venho em turismo, é certo, mas também à procura do tempo perdido e das ilusões desfeitas.
- Quer dizer que vai ficar na cidade por algum tempo. Sem querer ser mal interpretado e como depois da conferência ficarei algum tempo em Nova Iorque, sem programa e sem obrigações, gostaria de a voltar a ver e de lhe contar como correu a minha conferência. Poderemos conhecer-nos melhor, tomar uma bebida e passear pela cidade. O que me diz?
- Aceito com prazer, aqui tem o meu cartão com o número de telefone. Ligue-me se e quando puder e logo veremos, respondeu Glória.
O companheiro de viajem, feliz mas um pouco envergonhado com a sua ousadia, procurou nervosamente na carteira até encontrar o seu cartão pessoal que estendeu, de forma algo tímida a Maria da Glória. Respirou fundo quando esta o aceitou, lhe deu uma espreitadela e o guardou, com um sorriso.
Glória aproveitou para fechar os olhos e descansar e assim o tempo de voo pareceu mais curto.
A chefe de cabine, anunciou pelo sistema de comunicações que o avião ia iniciar a descida para o Aeroporto de Newark. Pedia por isso que se mantivessem no lugar e apertassem os cintos de segurança.
A descida, demorou tempo demais, pensava Maria da Glória, tensa até sentir o momento do encontro das rodas, com a pista. Quase não se apercebeu do impacto, pois logo ouviu a informação de que haviam aterrado, pedindo se conservassem no lugar até que a aeronave se imobilizasse. Deu também informações sobre a hora local, temperatura, etc.
As formalidades de desembarque levaram o seu tempo, esperou a chegada da bagagem e ficou preocupada a olhar para as duas malas que teria de transportar até ao controlo alfandegário. O companheiro de viajem, com quem conversara a bordo, aproximou-se empurrando um trolley que lhe entregou.
- Desculpe, mas acho que vai precisar deste carrinho para as suas malas. A mim não me faz falta, pois viajo com pouca bagagem. Digo-lhe que estou confiante que a comunicação vai ser bem aceite. O que escrevi, está escrito e não tenciono rever o texto, para que a minha insegurança, não me impeça de arriscar. Isto aprendi consigo Maria da Glória.
-Guilherme, fico obrigada pela sua gentileza e
não se esqueça, quando não arriscamos uma vez, pode não haver outra oportunidade. Agarre a sua e vai sair-se bem. Entretanto fico à espera de, como prometido, nos voltarmos a encontrar.
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