
CAPÍTULO – XV - SINAIS DE PAIXÃO
Enquanto regressavam, Guilherme perguntou quanto tencionava regressar.
Glória, estremeceu e foi com uma voz contida que respondeu. Não sei meu amigo. Eu não vim em turismo, vim à procura de encontrar a minha tranquilidade. Nesta grande cidade vivem, penso, duas pessoas que eu tenho de encontrar. Só assim poderei enterrar o passado e olhar o futuro. Assim o meu regresso está condicionado ao sucesso da minha procura. Depois, com mais tempo, contarei a minha história, se ainda a quiser ouvir.
- Então Glória, não falemos de coisas tristes. Esta noite vamos ao teatro, como combinado e depois se tiver gosto iremos a um clube de jazz, ouvir música e beber um copo. Depois combinaremos como vai ser a nossa vida durante os dias em que aqui vamos estar. Havemos de encontrar uma solução que lhe permita continuar a sua procura do passado e a mim continuar a viver consigo o momento presente, olhando com esperança para o futuro.
Glória ficou no hotel, teve a ousadia de se vestir mais informalmente, mas sempre com o bom gosto habitual. Quando saiu, levou na mão um botão de rosa e, com um gesto de ternura, prendeu-o na lapela do casaco do amigo.
A peça de teatro era interessante, mas muito do tempo, passaram-no a trocar olhares e sorrisos.
Depois, ao som da música e de uma bebida, as barreiras tinham-se esfumado e sentiam-se felizes por isso. Não eram necessárias palavras, os silêncios eram mais eloquentes.
Á despedida, na porta do hotel, Glória aflorou com um beijo simples os lábios de Guilherme e sem se voltar, subiu ao quarto.
Enquanto olhava pela janela, foi pensando no breve encontro que tivera e no prazer que sentira. Eram muito diferentes, mas talvez por isso uma relação pudesse dar certo.
Também assim fora com Francisco. Ela desinibida, alegre e comunicativa, ele sóbrio, carregado de complexos e muito fechado e acabara como acabara. Mas não penso que tal se vá repetir. Guilherme, deu para ver, é como um livro aberto e ela já não era a rapariga impulsiva e ingénua que fora.
Reconhecia que era uma mulher de impulsos e, talvez pelos desenganos recentes, qualquer futura relação não podia ter equívocas. Mas, reconhecia, via em Guilherme alguém com quem poderia refazer a vida. Que estranho, pensava para si, qual é o sortilégio desta cidade, que em horas me fez despertar claros sinais de paixão, e quase me me fez esquecer a razão da minha visita?
Afinal, tal não havia já acontecido com Francisco?
Guilherme passou pelo hotel por volta das dez horas da manhã, caminharam alegremente de mão dada, almoçaram juntos num restaurante simples mas agradável. Como o ambiente era acolhedor Guilherme conseguiu que Glória lhe contasse a sua história pessoal, a sua amargura e o seu desejo de encontrar a criança que o marido não tivera oportunidade de conhecer.
Guilherme atónito, não conseguia compreender as justificações de Maria da Glória e abanava a cabeça dizendo:
- Minha boa amiga, a sua intenção cuja nobreza não discuto, é uma aventura cujo desfecho, só por um golpe de sorte não deixará de fracassar. Esqueça tudo o que se passou. Viva o futuro, regresse comigo e eu prometo-lhe toda a atenção e amizade de que for capaz. Você merece e pode ser feliz. E eu, digo do fundo do coração, gostaria de fazer parte da sua vida.
- Terá toda a razão Guilherme, mas eu receio que deixar um assunto perdido na poeira do tempo, mais tarde ou mais cedo, me venha a causar desgosto e mal estar. Para o meu equilíbrio emocional e para poder enfrentar o futuro, preciso de colocar um final nesta história. Pode não lhe parecer razoável, eventualmente até terá razão, mas eu sou assim.
Não vou aceitar regressar como me propôs. Fico, mas quando regressar, espero ouvir da sua boca as mesmas palavras.
Foi em silêncio que caminharam, de mão dada, até ao Bryant Park, onde se sentaram. Guilherme indicou-lhe o edifício que estava no lado oposto dizendo ser a Biblioteca, onde ele passava muito tempo em pesquisas sobre o seu trabalho. E isso deu-lhe uma ideia. Voltou-se para Glória dizendo:
- Já tenho uma solução. Veja bem, a Glória faz as suas buscas da parte da manhã, enquanto eu aproveito para naquela Biblioteca que lhe apontei coligir alguns dados, que preciso para o meu próximo estudo. Podemos combinar o nosso encontro para as dezasseis horas, neste mesmo lugar. Depois passaremos o resto do tempo juntos. Que lhe parece, podemos começar amanhã?
Glória não tinha como responder. Ela também sentia que a companhia lhe ia agradar.
Guilherme, entusiasmado, propôs levá-la ao hotel para descansar um pouco. Volto mais tarde, com a promessa de um programa bem diferente.
Assim, foram ver um jogo de basquetebol ali bem perto.
O companheiro que ela conhecera hesitante e envergonhado, era agora uma companhia livre e até com ironia. Virando-se para Glória lança o desafio. Se se atrever a dançar com este péssimo e desengonçado dançarino, vamos a um clube que me foi recomendado, que passa música de qualidade e assim para o romântico. Valeu?
- Claro, até parecemos um casal de jovens namorados.
Foi de facto uma noite diferente a que Glória não estava habituada mas que a fez vibrar como há muito tempo não sentia. Gritara o nome dos jogadores, aplaudia os cestos mais espectaculares, bebia cerveja por um copo de plástico. E depois deixou-se embalar pelos sons da música e, dançou, dançou, como se quisesse afastar todo o passado.
Subiram ao quarto, juntos pela primeira vez. Algo constrangidos, cruzaram olhares e beijaram-se. Havia uma chama que os aproximava, mas havia também,uma barreira invisível que não conseguiam ultrapassar. Guilherme, apercebendo-se da luta interior da companheira, perguntou-lhe em que pensava.
Glória, com ar ausente, respondeu:
- Meu caro eu penso em algo em que não deveria sequer pensar.
Guilherme, afagou-lhe o rosto com ternura e saiu.
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