CAPÍTULO XIII - RECORDAÇÕES
O táxi demorou bastante tempo até parar à porto do hotel. Pagou e não se esqueceu de dar a gratificação, que lhe haviam recomendado na Agência.
Gostou do quarto. Era amplo e estava mobilado com gosto.
Desfez a bagagem e quando acabou estava cansada, mas um banho de imersão seria o tónico que precisava.
Na banheira sentia o calor da água revitalizar-lhe os músculos, mas começou a ter dúvidas sobre a oportunidade da busca a que se propusera. Porém, depressa as afastou. Afinal o primeiro passo estava dado e agora só precisava estabelecer um critério e um caminho para encontrar os fios da meada, tarefa que não se lhe afigurava muito fácil.
Enquanto esperava que lhe servissem no quarto a refeição ligeira que tinha encomendado, sentou-se à secretária, a rever com mais atenção os apontamentos que tinha tomado ainda em Lisboa, com os caminhos que pensava seguir na sua procura.
Tinha preparado uma ficha para cada hipótese, com os dados que conhecia, sem estabelecer tempo para o seu seguimento. Sabia que para algumas lhe bastaria um dia mas para outras não acreditava fosse tão rápido.
Ordenou as fichas de modo a começar pelas mais fáceis, porque isso lhe permitia ambientar-se à cidade.
Pegou na ficha número um, tinha apenas o endereço parcial, do fotógrafo onde Marjorie tinha tirado as fotos que dera a Francisco, fografias que também levava.
Para começar no dia seguinte, pareceu-lhe bem, pois a rua não deve ficar muito distante do hotel. Em boa verdade não depositava grandes esperanças nesta pista. Dez anos depois seria pouco provável que o estúdio fotográfico ainda existisse e mesmo em caso afirmativo, se teria algum registo actualizado da cliente. Estava convencida que seria perder tempo, mas não queria deixar de tentar.
Separou o dossier do banco. Nele levava fotocópias legalizadas pela Embaixada, onde o Banco emitente certificava ser ela a titular da conta de origem dos fundos, com todos os poderes. Contava passar no banco em qualquer momento e tentar obter informações sobre a movimentação do dinheiro transferido e, principalmente, a morada de envio dos extractos bancários.
Deitou-se cedo, mas não dormiu bem. Muitos sonhos agitados, insónias e muitas preocupações. Na manhã, reparou que tinha marcado no rosto os sinais de alguma preocupação , e de uma noite mal dormida.
Ficou fixada no espelho. Não se revia na imagem triste que o espelho lhe dava e decidiu que precisava de fazer algo para recuperar o ar sereno e a aparência da mulher realizada, determinada e feliz que fora até há bem pouco tempo. O que lhe ia na alma era uma dor, que se nada fizesse seria a sua companheira para o resto da vida.
Desceu para o pequeno almoço, e foi à recepção, para pedir o plano da cidade. Reparou que, bem em frente da recepção o hotel tinha um salão de SPA. Entrou e aproveitou a manhã, para se submeter a um tratamento de estética.
Saiu e sentiu-se outra, mais jovem e mais leve. Passou por um espelho, e de relance espreitou a silhueta. Era impressão sua ou estava de facto uma pessoa diferente.
A sua primeira reacção, quando saiu do hotel, foi de esmagamento. A imponência dos edifícios, o número de pessoas a circular, era uma segunda feira de sol, lembraram-lhe, quanto diferente, era Nova Iorque das outras cidades Europeias, que conhecia. Sentiu um calafrio quando, começou a percorrer a E 50 na direcção da quinta avenida, mas depressa se descontraiu, e reconheceu para si, que afinal, até era capaz de vir a gostar da cidade.
Enquanto caminhava, tranquilamente, foi apreciando o movimento, mas notou que, pela maneira de vestir e comportamento um pouco anárquico, os transeuntes seriam na maioria turistas. Não pode deixar de reparar em muitas lojas vazias, outras encerradas, alguma apatia dos naturais, que era a marca duma crise económica que se sabia ter começado mas nem ninguém se atrevia a prever o fim.
Parou por minutos, espreitando as galerias exteriores da loja SACK’S. Gostou e registou que, era um local a visitar com mais tempo, ficava perto do hotel, e gostou particularmente, dos modelos de roupa feminina que estavam expostos. Registou que seria uma boa ideia, numa oportunidade, perder a cabeça e comprar um ou dois modelos, porque os preços eram agradavelmente atraentes.
Foi descendo a quinta avenida, até encontrar a E 45, que procurava. Dobrou a esquina e começou a percorrer a rua, olhando com atenção, na esperança de encontrar o fotógrafo, onde a Marjorie tirara as fotos que oferecera ao Francisco. Percorreu alguns quarteirões, mas da loja nem sinal. Era querer muito, pensava com os seus botões, que passados dez anos, tivesse a sorte de encontrar, e logo no primeiro dia, a loja em causa.
Como entretanto estava muito perto da Grande Central, entrou, admirou o tamanho, e a enorme confusão, de passageiros a entrar e sair pelas diferentes portas, o que lhe fez sentir, uma sensação de claustrofobia. Saiu na primeira saída que encontrou, mesmo em frente do edifício da Crysler. Já ouvira falar, que valia a pena subir ao alto para desfrutar da paisagem, mas não o fez, até porque lhe pareceu, que o mesmo estava encerrado.
Voltou para trás, desta vez subindo a Park Avenue, pois queria ver de perto o famoso hotel Waldorf Astoria. De frente para o mítico hotel, relembrou, quantos filmes vira, em que o hotel era também um protagonista. Já lá vão muitos anos, pensou consigo mesma.
O andar devagar, espreitando lojas, cansa mais do que parece.
Encontrou um elegante salão de chá, entrou e escolheu um lugar que lhe permitia saborear o chá que havia pedido ao mesmo tempo que espreitava o movimento na rua.
Já estava a gostar da cidade e ainda quase nada vira. Enquanto caminhava, pareceu-lhe encontrar lugares que lhe não eram desconhecidos, pois os lembrava de tantos filmes que gostara.De repente, pareceu-lhe ouvir a música de Henry Mancini, Moon River e logo a associou ao filme Breakfast at Tiffany’s. Continuou a subir a quinta avenida, até à W 57, pois, recordava, de ter visto no mapa, que era na esquina, que se encontra a famosa joalharia.
Durante o percurso, apercebeu-se que passava mesmo ao lado do MOMA. Fez um pequeno desvio e foi espreitar os cartazes, com o programa das exposições previstas no museu. Havia várias, mas anotou apenas, uma apresentação de obras de pintura da escola expressionista. Gostava muito da pintura desse período, e marcou na agenda de bolso, um dia para fazer a visita.
Chegou, finalmente, junto da famosa joalharia, andou a ver as vitrines mas, embora apreciasse uma bonita jóia, não se mostrou disposta a entrar e ver mais de perto. Ter estado ali, já lhe lembrara tempos idos.
Começava a ficar cansada. Pensava que não devia esquecer-se do objectivo da visita e por isso teria de se resguardar um pouco. Almoçou num restaurante sem nada que a fizesse voltar e regressou ao hotel para descansar um pouco.
Sentada numa poltrona do seu quarto de hotel, assinalou como sem resultado a primeira pista. Nem valia a pena continuar a procurar o estúdio de fotografia.
Dormitou um pouco, refrescou-se e voltou a sair com o objectivo de subir ao Empire State Building a dali assistir ao entardecer. Do alto, olhou para a grande cidade e deu-se conta que encontrar alguém naquele mundo, com as informações de que dispunha, iria ser uma tarefa quase impossível. Tirou algumas fotografias tentando apanhar o pôr do sol e a luz reflectida no topo de alguns edifícios, desceu e subiu a pé para o hotel.
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