
CAPITULO – XX - O REGRESSO
Maria da Glória embarcou no dia seguinte de regresso a Lisboa.
Foi com pena que disse adeus aos amigos Pedro e Carolyn, que se despediu duma cidade que, na realidade, não chegara a conhecer. Para trás, deixara os museus que queria visitar, os vestidos que planeara comprar, e principalmente, deixara uma parte de si mesma.
O voo era nocturno, pelo que no silêncio da cabine, relembrou o carinho com que Marjorie a havia recebida na sua casa, humilde, mas cheia de amor e cumplicidade entre a Mãe e o Filho. Sentia, oh como sentia, os braços do Anthony em volta do seu peito, chamando-lhe tia, enquanto ela lhe ia mostrando o album com as fotografias que o Pai lhe havia enviado, e contando histórias, umas verdade outras fruto da sua imaginação. A criança, que era o retrato do Francisco, na mesma idade, ouviu tudo em silêncio. Só disse que a Mãe lhe havia contado que o Pai, era estrangeiro e teria morrido pouco tempo depois do seu nascimento.
Entretanto, Marjorie saíra do quarto e entregou-lhe um envelope, dizendo:
- Aqui está tudo o que pediu. Para si, dou-lhe a minha gratidão. A senhora será sempre alguém que não esquecerei e cuja coragem e determinação muito respeito. Guardarei no meu coração o momento em que a conheci.
Já a bordo, Glória , levava no colo o envelope que Marjorie lhe havia dado. Segurava-o, com força, como uma coisa preciosa. Ainda não se sentia com coragem de o abrir. Vou abrir em casa, porque se chorar, não precisarei de esconder de ninguém, pensou. Será um momento só meu.
Fechou por momentos os olhos e limpou uma lágrima teimosa, que lhe escorria pela face. A assistente de bordo, passou naquele instante, tocou-lhe no ombro, perguntando se havia alguma coisa que pudesse fazer por ela, pois se tinha apercebido, que não estaria bem.
Maria da Glória, respondeu, que aquela lágrima furtiva, era de felicidade. Também se chora de alegria, como sabe. De qualquer modo, obrigada, está tudo bem.
Quando espreitou pela janela e viu a sua Lisboa, sentiu-se de volta a casa. Precisava da tranquilidade depois de alguns dias cheio de momentos tristes mas, outros que não mais esqueceria.
Abriu a porta de casa e pousou a bagagem. Respirou fundo, sentou-se na sala e viveu o regresso a casa onde, quase sem dar por isso, todas as sombras se tinham desvanecido. Estava, finalmente, em paz consigo mesma. Na véspera Eulália, tinha deixado um lindo ramo de flores e um bilhete, escrito com a ternura dos simples:
“Para a melhor senhora do mundo. Bem-vinda a casa”.
Sorriu e o rosto voltou a ganhar a luz perdida.
Recostou-se no cadeirão e abriu o envelope.
Lá estavam diversas fotografias do Anthony, desde bebé até ao adolescente de dez anos.
Também as coordenadas bancárias, da conta pessoal de Marjorie e um envelope pequeno, que abriu e de onde tirou um documento.
Correspondia ao registo do nascimento, no dia 8 de Março de 1999, pelas 10 horas da manhã, de uma criança do sexo masculino, filho de Marjorie Berthier e de Francisco Albuquerque de Freitas, e a quem foi dado o nome de Anthony Berthier Albuquerque de Freitas.
Hospital Universitário de Brooklynn, 10 de Março de 1999
Não sentiu surpresa pelo documento que acabara de ler. Já pressentira que Marjorie não fora capaz de registar o filho como Mãe solteira e o registara como filho do Francisco.
Não sem amargura, murmurou, olhando para a fotografia do marido:
- Francisco, afinal foste reconhecido, oficialmente, como Pai. Apesar do que fizeste sofrer, foste um homem com sorte. Amanhã, vou colocar no jazigo da tua família, onde repousas, uma fotografia da Marjorie, do teu filho e uma cópia da certidão de registo do seu nascimento.
Depois, escreverei o capítulo final. Darei seguimento as compromissos que assumi e desejo que, lá onde estiveres, descanses em paz.
Eu vou seguir o meu caminho, livre e de conciência tranquila. O passado foi uma nuvem passageira, que se esfumou e morreu no ar.
Pegou no telemóvel, escreveu uma mensagem: Guilherme, regressei gostava de o ver. Preciso do seu carinho.
Um beijo, Glória.
FIM
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