domingo, 12 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO XIV - CENTRAL PARK

Ela, que não tinha por hábito jantar, foi ver a ementa do restaurante do hotel, pareceu-lhe interessante e decidiu que, para o primeiro dia, já tinha andado o suficiente e o melhor seria comer qualquer coisa ligeira.
Subiu ao quarto, trocou de roupa e vestida de forma elegante mas sóbria desceu pouco depois para a sala de jantar.
Quando regressou ao quarto, fugindo do bulício do lobby, abriu a televisão mas sem dar particular atenção ao programa que era apresentado, pegou no apontamento que tinha preparado sobre a segunda pista.
Anotada tinha a morada do marido, 240, E 71 th street, apartamento 8 e o nome dos amigos que Marjorie tinha indicado numa das cartas, June e Bill W.... Não seria grande pista, reconhecia, mas não a queria descartar. Podia ser que o porteiro ainda seja o mesmo e se lembre dele e da companheira, ou o casal June e Bill W qualquer coisa ainda lá viva, o que seria sorte demais.
Como a morada no Banco não ficava longe, colocou na mala o dossier respectivo já que tencionava seguir o caminho que, lhe parecia mais óbvio. Até se surpreendera porque tinha programado outras opções, quando a única pista com alguma probalidade de sucesso seria o Banco. Afina, ela enviava o dinheiro, podia cancelar tudo e até mudar de banco. Eles teriam de lhe dar respostas.
O telemóvel tocou, não reconheceu o número mas decidiu atender. Do outro lado uma voz de homem perguntava-lhe como estava e se ainda se lembrava do companheiro de viajem.
- Claro que me lembro Guilherme, respondeu Glória. A conferência correu bem?
- Sim, bastante bem e sinto-me recompensado. Não pude deixar de lhe dar a notícia porque a sua força e determinação me ajudaram. Amanhã vou regressar a Nova Iorque, se ainda não se esqueceu do que combinamos, gostaria de a ver e de sair a passear um pouco. Sei, por experiência própria, que para uma pessoa só, a cidade não é muito agradável. Pode ser Drª Maria da Glória?
- Claro que sim, mas tem de esquecer o Doutora. Só que tenho a manhã ocupada pelo que só nos poderemos encontrar à tarde. Que lhe parece?
- Para mim está óptimo, se não estiver muito longe podíamos encontrar-nos no Central Park, junto do memorial John Lennon.
- Eu penso que andarei ali por perto, pelo que estou de acordo com o local do encontro. Fica combinado, caro Guilherme, lá estarei. Boa noite e até amanhã.
Central Park, entendera bem o local do encontro. Que ironia, pensou com um sorriso algo amargo. Vou estar ali, onde tudo começara entre Francisco e Marjorie.
Levantou-se bem disposta e cheia de energia para o segundo dia da sua peregrinação. Mais uma vez decidiu ir subindo a 5ª avenida até encontrar o Central Park. Era ali que de tarde se iria encontrar com o Guilherme. Vai fazer-me bem pois terei alguém com quem conversar. Dali seguiu o mapa até encontrar a rua que procurava, que desceu até chegar ao edifício onde o marido tivera o apartamento. Hesitou em chamar a portaria, na realidade estar tão perto do local onde Francisco vivera o seu amor, trazia-lhe uma sensação estranha.Todavia, embora com pouca esperança, tocou a campainha e passado pouco tempo apareceu um porteiro fardado. Glória contou resumidamente, o que procurava mas o porteiro depressa a desenganou. Estava ali há pouco tempo e não conhecera Francisco. Quanto ao casal June e Bill Wright sim, ainda os conhecera, mas eles tinham optado por viver a reforma na Florida e tinham vendido o apartamento.
Agradeceu e afastou-se depressa do local. Não devia sequer ter vindo, pensava, porque há sempre uma ferida que reabre. Sentiu, que ao ter escolhido este pista, frágil como se provou ser, o teria feito por ciúme e alguma amargura.
A agência bancária ficava dois quarteirões abaixo. Apresentou-se e exigiu falar com o director. Insistiu e,com alguma relutância, apareceu um funcionário muito pouco simpático. Glória mostrou os documentos que levava e explicou que pretendia saber o endereço do titular da conta, sem o que, seria forçada a cancelar todas as operações com aquele Banco. Peter Gordon, “branch assistant” como constava do cartão que entregara, ausentou-se alguns momentos e voltou com um impresso que Glória deveria preencher e assinar. Esse documento irá ser submetido aos serviços Jurídicos do Banco, para apreciação. Mas não espere uma decisão antes de um mês respondeu com um sorriso irónico.
Glória, mantendo a calma e olhando, frontalmente o interlocutor respondeu:
- Meu caro e pouco educado senhor Gordon. Garanto-lhe que o senhor e o Banco irão ouvir falar de mim. E bem antes do que pensa.
Rasgou o impresso, arrumou aos documentos e saiu do Banco.
Desapontada com mais aquele insucesso, garantiu para si mesmo, que fosse como fosse, haveria de cancelar os contactos com aquele Banco. Prometo.
Almoçou nas redondezas, mais uma vez sem grande prazer e seguiu para o local combinado com Guilherme. Quando lá chegou, ainda não eram quinze horas, mas no meio das pessoas que circulavam na periferia do parque, logo vislumbrou o amigo que sobraçava um ramos de rosas.
Guilherme, como ela já percebera, era tímido e foi com algum nervosismo que lhe pediu para aceitar as flores.
Glória, não se conteve, esboçou um sorriso e disse:
- Obrigada Guilherme, gosto muito de rosas vermelhas, a cor da paixão.
O amigo ficou algo envergonhado e até a voz lhe saiu em surdina.
Depois, enquanto se sentavam num banco admirando as flores e as tropelias de dois esquilos, Guilherme soltou-se, começou por falar da conferência, com entusiasmo e de repente a contar a sua vida. Glória ficou assim a saber que ele era professor de literatura na Universidade do Porto, que tinha quarenta e nove anos, divorciado e a viver em Vila Nova de Gaia num pequeno apartamento que lá comprara. A família, mãe e mais dois irmãos continuavam em Vila Real onde ele costumava passar as férias de verão.
Era apaixonado por música clássica, muito especialmente por Mozart, Bach e Schubert, dizendo ter uma razoável colecção de discos destes compositores. Se a Glória também gostar de música, qualquer dia convido-a para irmos a um concerto. Aceitaria?
- Claro que sim, irei com prazer. E se formos andando, propôs enquanto me fala mais de si, propôs Maria da Glória?
- A minha vida é simples, gostos simples como um transmontano com alguma educação. Para além de ler e ouvir música, gosto de passear livremente pelos campos da minha terra, falar com as pessoas que vou encontrando, normalmente pessoas idosas, porque a juventude já há muito que abandonou as aldeias e fugiu para as grandes cidades. Mas tenho muito respeito pelos que ficaram e sempre que falo com eles sinto que aprendi qualquer coisa. A Glória, pelo contrário, parece-me uma pessoa muito urbana, com outros gostos e preferências pelo que a conversa com este camponês de alma, não lhe deve ser particularmente interessante.
- Aí é que o Guilherme se engana. Sou de facto nascida e criada em Lisboa, mas reconheço que as grandes cidades nos fazem perder a capacidade de ouvir os outros e com isso, não poucas vezes, nos afastamos da realidade, criando à nossa volta, um mundo fechado que nos aprisiona. E olhe que eu sei bem do que falo!
Guilherme interrompeu o passeio, olhou para o relógio e para Glória, exclamando! Já me esquecia de lhe dizer que comprei bilhetes para uma peça de teatro e para hoje. Com certeza que a Glória vai querer descansar um pouco pelo que lhe sugiro regressemos. Eu acompanho-a ao seu hotel, depois passarei, por volta das 19,30 e seguimos para o teatro. Parece-lhe bem?
- Sim tudo bem, ficarei à sua espera.

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