quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – X – MORRER DE AMOR

No dia seguinte, com a ferida ainda em aberto, mas preparada para tudo continuou a leitura.
Carta nº. 6, datada de 20 de Novembro de 1998
Traduzido o texto, dizia:


“Francisco
Não vou sequer comentar a tua última carta. Acredita, já não vale a pena.
O meu sonho de amor, foi destruído pelas razões que sabes.
Morreu, ficou a dor que me consome. Mas em breve o meu coração estará, outra vez, cheio de ternura e amor. Porque eu trago no ventre o fruto da nossa paixão.
O teu sonho, o meu sonho, vai realizar-se em breve.
Só soube que estava grávida, quando estava em Los Angeles. Fiquei tão feliz que só queria voltar para te dar a notícia e partilhar a alegria de trazer no ventre o fruto do nosso amor, viver e sentir a tua felicidade.
Mas tu já tinhas fugido e escolhido o teu caminho.
É verdade, acredita que trago dentro de mim uma nova vida. Quantas vezes tu me disseste que era o teu sonho ser Pai. Pois bem, vais sê-lo, mas no nascimento indicarei como sendo filho de Mãe solteira. Prometo que lhe darei o amor e o carinho que for capaz. Quando ele, mais tarde, vier a perguntar pelo Pai eu direi, simplesmente, morreu.
É um rapaz, sei agora, e quando nascer receberá o nome de Anthony, como o avô.
Não te dou esta notícia com a alegria que esperava. Sei que te vou fazer sofrer mas guardar este segredo era exigir mais de mim. Não fui capaz, e perdoa-me por isso.
Finalmente, quero dizer-te, que razões muito fortes, me levam a abandonar o nosso antigo apartamento. Ele continua vazio e frio, cada dia menos acolhedor. Ainda vejo sombras e fantasmas e não aguento mais.
Vou mudar-me, compartilhar um apartamento com uma colega de trabalho e assim, sempre me sinto menos só. A morada, bem a morada não ta vou dar.
Esquece que um dia me conheceste. Esquece as juras e promessas que fizeste. Esquece que eu existo, não me procures nunca mais. Eu vou tentar reconstituir a minha vida. Nos momentos de saudade, procurarei no rosto do meu filho os sinais de alguém que tanto amei e tanto me fez sofrer.
O destino prega-nos partidas. Vê bem, no final da nossa história fui eu, a abandonada, que ficou mais rica.
Adeus para sempre. Sê feliz.
Marjorie Berthier
New York, Novembro, 16, 1998.”

Maria da Glória já não reagiu a esta notícia. No fundo não tinha sido uma surpresa. O marido fora Pai, a maior alegria que lhe podia ser dada e ela, Glória, não conseguira. Mas pagou por isso um preço muito alto. Ver desabar uma vida, nunca é fácil.
Apesar de muito abalada com toda a história de mentiras e traição que tinha desvendado, não obstante o profundo desgosto e desilusão que sofrera, lamentava, do fundo do coração, a dor silenciosa que Francisco carregara até à morte.
Agora, teria de acabar a leitura, pois compreendeu que o dinheiro que Francisco enviava mensalmente para os Estados Unidos, era para o filho. Que situação mais absurda a vida lhe reservara. Sentia pena, muita pena pela criança que não tinha culpa de ser filha de um Pai cobarde e sem coragem de o assumir.
Carta nº. 7 datada de 30 de Novembro de 1998.
Abriu e como de certa maneira já calculava, era uma carta do marido, que tinha sido devolvida ao remetente, com a observação de que o apartamento não estava habitado. Mas leu.


“Meu amor,
Como eu gostaria de saber escrever cartas de amor. Mas não consigo, faltam as palavras.
Queria conseguir, passar ao papel, a emoção, a tristeza que me vão na alma. É, como se de repente, algo em mim se apagasse, e ficasse um enorme vazio, que nada nem ninguém poderá preencher.
Mas não , não consigo sequer pensar, o que te dizer.
Dizer que te amei como nunca pensei amar alguém, não chega.
Dizer que sinto a falta dos teus carinhos, da tua ternura, do teu corpo, provavelmente nem vais acreditar.
Dizer que me entreguei de corpo e alma, é pouco pois foi muito mais do que isso.
Dizer, que lembrar os momentos que passamos, duma paixão tão intensa, e que me levaram quase à loucura e que esse sentimento tão profundo, de desejo quase irracional, me assustou, é verdade.
Confessar, que fugi, por recear não ter coragem de partir, também é verdade.
Jurar, que não voltaria a fazê-lo, mentiria, pois não tenho a certeza.
Existem em mim, duas pessoas diferentes e em conflito. Uma, a que eu era antes de te conhecer e outra, a que me tornei depois. Este conflito acabará, por, mais tarde ou mais cedo, me destruir.
Errei, fui cobarde eu sei. Procederia de maneira diferente, não posso afirmar-te. Eu respeito a minha mulher, companheira de tantos anos. O receio de a fazer sofrer foi mais forte que o desejo de ficar contigo. Fiquei sempre dividido, entre duas mulheres maravilhosas, e reconheço que eu não as mereci.
Pode parecer estranho, mas eu compreendo que a tua decisão de me negares a paternidade do nosso filho, seja uma punição que o meu comportamento merece.
Eu sei que te feri, que te desiludi, mas nunca te enganei. Tu sabias da minha situação e quando me perguntaste, se deixaria tudo para trás para ficar contigo, eu disse-te, olhos nos olhos, que não sabia, se seria capaz.
Por tudo o que vivemos, pelos sonhos que sonhamos, pela dor que te causei, peço perdão.
Eu perdi-te a ti, e agora vou perder um filho.
Tens razão, afinal o grande perdedor, sou eu.
Mas lembra-te, é o que te peço, do futuro da criança que trazes no ventre. Eu posso não merecer ser o Pai, mas quero do coração, que ele partilhe, daquilo que eu posso dar e a que ele tem direito.
Eu quero constituir um fundo em nome dele, para garantir a sua educação. Deixa-me fazê-lo. Em nome do que fomos, não te peço mais nada.
Francisco
Lisboa, 23 de Novembro de 1998

Já não havia mais cartas, restavam as fotos para ver noutra altura. Agora não conseguiria. E pensou que, como médica sabia a razão clínica da morte do marido. Como mulher só agora compreendera que ele morrera de amor.

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