quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – XVII – ESPERANÇA

Sentada num sofá, desiludida e perdida, Glória, chorou.
A todas as desilusões e surpresas que a vida lhe reservara, juntava agora o ruir da esperança. Não conseguira encontrar o caminho que sonhava lhe traria a paz de espírito. Não conseguia libertar-se do olhar suplicante que vira em Francisco, na hora do adeus, mas não sabia que mais poderia fazer.
Talvez esquecer, como tantos amigos lhe disseram.
Ouviu Guilherme a perguntar da parte do quarto se podia entrar. Estremeceu alvoraçada. Afinal, toda a sua louca aventura tivera qualquer coisa de mágico. Despertou sentimentos que já havia esquecido. Abriu a porta e sem dizer uma palavra refugiou-se dos braços do amigo, como se tivesse encontrado um porto de abrigo, para um barco à deriva.
Guilherme acariciou com ternura a cabeça que repousava no seu ombro.
- Glória hoje vamos jantar num restaurante Francês, muito intimista e agradável. Também tem pista de dança e boa música, mas isso pouco lhe vai interessar porque ainda não deve ter recuperado das pisadelas que lhe causei.
Vamos viver mais este nosso momento e amanhã ... bem amanhã é outro dia e qualquer coisa nos havemos de lembrar.
Saíram para jantar e conversaram até bem tarde. Glória bem insistiu para dançarem mas Guilherme não se deixou convencer. Mais tarde vai ter tempo de me dar umas lições privadas.
No dia seguinte, sexta-feira, Maria da Glória não saiu do hotel tendo passado a manhã a cuidar do corpo e da mente.
Tinha acabado de abandonar a mesa de massagens quando o telemóvel tocou. Era um Guilherme eufórico:
-Glória, nem vai acreditar, mas por acaso encontrei uma pessoa amiga que trabalha na Biblioteca, uma nossa compatriota a viver aqui há muitos anos. No meio da conversa disse-me que se divorciara já há algum tempo e que agora partilhava um apartamento com uma secretária tradutora nas Nações Unidas. Eu contei-lhe a sua procura e ela está convencida que a amiga conheceu o seu marido. Diga-me o nome e a Carmo vai tentar localizar alguém que com ele tivesse trabalhado. Pode ser?
- Claro, o nome é Francisco Albuquerque de Freitas e esteve ao serviço entre 1996 e 1998. Oxalá a sua amiga consiga alguém que me possa guiar porque ando meio perdida na confusão. Ouviu Guilherme repetir a alguém o nome do marido e dizer:
- Glória eu já lhe ligo.
Aguardou algum tempo, pareceu-lhe muito, mas Guilherme voltou a ligar.
-Glória, tome nota deste número de telefone, que disse e repetiu número a número. Ligue e peça para falar com o Dr. Pedro Martins. A nossa amiga garante que ele foi o chefe de gabinete do seu marido. Disso tem a certeza porque quer um quer outro eram o ai Jesus das mulheres. Eu já vou ter consigo ao hotel, ok?
- Sim eu espero antes de ligar.
Glória sentiu um choque. No momento lembrou-se que Francisco, por mais de uma vez lhe falara no Pedro, um jovem licenciado que com ele trabalhava. Como é que eu pude esquecer?
Subiu ao quarto aguardou Guilherme e optou por ligar pelo telefone fixo. Foi atendida por uma voz feminina que se identificou como sendo Susana Dias e solicitou falar com o Dr. Pedro Martins.
- O senhor Doutor não está no momento, mas se quiser deixar uma mensagem, ela ser-lhe-à entregue.
- Muito bem, diga-lhe que o meu nome é Maria da Glória, sou viúva do Dr. Francisco Albuquerque de Freitas, estou na cidade, no New York Palace Hotel e gostava de falar com ele sobre um assunto de natureza particular. Não se esqueça por favor.
- Com certeza o Doutor será informado.
Glória exultava, parecia que estava finalmente no caminho certo e que se aproximava do objectivo. No fim do dia recebeu a chamada. Era a assistente do Dr. Pedro Martins, dizendo-lhe para aguardar um momento.
- Drª Maria da Glória, daqui fala o Pedro Martins. Recebi uma mensagem da minha assistente, dizendo que a senhora me tinha procurado,e por isso aqui estou à sua disposição. Antes do mais, e porque soube que o Dr. Francisco faleceu há pouco tempo, deixe-me que lhe apresente as minhas condolências. Ele não foi só o chefe foi um verdadeiro amigo, acredite.
- Muito obrigada. Dr. Pedro, eu gostaria de o ver, porque penso que me pode ajudar num assunto privado. Se me arranjar alguns minutos ficarei muito agradecida.
- Drª Maria da Glória, terei o maior prazer em a ver e se lhe puder ser útil, ficarei feliz. Deixe-me consultar a agenda para ver qual a data mais adequada, é só um momento. Ora hoje é sexta-feira um dia em que ficarei livre um pouco mais cedo. Pensando melhor eu poderia passar pelo hotel, digamos, cerca das dezanove horas e poderemos conversar à vontade. Está bem assim?
- Sim, fico esperando e obrigada.
Glória, com os olhos brilhantes, abraçou Guilherme dizendo que o fim estava próximo.
- Pode ser e eu só espero que tudo dê certo para que limpe a sua cabeça e volte a pensar na pessoa mais importante e que tem andado algo esquecida. A Maria da Glória, ainda se lembra dela?
- Guilherme, credite em mim, conhecê-lo foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos e sabe que por entre esperanças e desilusões, estarmos juntos me fez imensamente feliz.
- Eu vou viajar no sábado e esperava convencê-la a voltar comigo. Mas agora, entendo que deve ficar. A viajem de regresso vai ser mais só do que é habitual, porque eu deixo aqui uma parte de mim. Boa sorte. Eu ficarei a sofrer de saudade.
Até breve, Guilherme. Quando voltar iremos recordar o que de bom aqui passámos, e eu estarei, finalmente, livre.

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