
CAPÍTULO – XVI – CAMINHOS SEM FUTURO
Maria da Glória , cerrou com força os olhos, como se quisesse afastar a cortina que a impedia de olhar em frente, sacudiu a cabeça e reencontrou de novo o equilíbrio, que quase estivera a perder. Teve um dormir agitado e povoado de fantasmas do passado.
Esteve quase a desistir do projecto. Receava que a sua persistência fosse um erro que, ela própria, acabaria por pagar. Todavia, decidiu continuar a sua peregrinação.
De repente, lembrou-se da carta que Francisco enviara a Marjorie e fora devolvida. É que, não conseguia perceber como é que Francisco conseguira mandar o dinheiro, sem a identificação completa do destinatário. Essa dúvida, que só agora percebia, deu-lhe a certeza de que Francisco teve ajuda de alguém para resolver o problema, alguém íntimo . Esse alguém deveria ter sido um colega. Mas quem? Nas cartas que Francisco lhe enviara ele poderia ter falado dessa amizade, mas Glória não se lembrava de qualquer nome.
Levantou-se cedo, mas sem saber o que fazer.
Saiu do hotel, sem ter nada programado e foi andando e sem dar por isso chegou a Times Square. Não gostou, havia muita confusão, muita gente barulhenta, pelo que depressa voltou para a quinta avenida.
Cansada de andar de um lado para o outro, entrou de novo na loja SAKS para dar uma vista de olhos. Subiu ao andar, onde estavam expostos, os modelos de colecção de roupa feminina, e foi vendo um ou outro que poderia vir a comprar. Uma solícita empregada, dirigiu-se-lhe perguntando se precisava de ajuda. No vestido tinha uma placa discreta a dizer “sales assistant” e o nome que não conseguiu ler. Maria da Glória, olhou a interlocutora, respondendo que, por momentos estava só a admirar.
- Quando quiser, minha senhora, a SAKS e eu mesma, estaremos sempre ao seu dispor.
-Enquanto a assistente se afastava um pouco para atender outra cliente, Maria da Glória, olhou-a com mais atenção, porque sentira um click. Ela tentara recriar no seu imaginário, como seria a Marjorie, dez anos depois das fotografias que conhecia, e esse retrato tinha bastante semelhança, com o perfil que via, na vendedora. Não resistiu e aproveitando um momento, em que esta estava disponível, encheu-se de coragem, abriu a mala , retirou uma das fotos da mulher que procurava, aproximou-se da empregada e perguntou:
- A senhora desculpa a minha ousadia. Mas acho-a muito parecida com esta fotografia, que é de uma pessoa que procuro. Ela era modelo e até pode ter desfilado na loja. Por acaso, a fotografia não lhe é familiar?
A assistente pegou na foto, esteve, por momentos a olhar para ela e respondeu:
- Como deve calcular, minha senhora, eu conheci muitos modelos e há, normalmente um padrão comum entre eles. Todavia e sem uma certeza absoluta, a modelo desta fotografia, desfilou aqui em dada altura. Quando, não me lembro e do nome também não, respondeu.
- Permita-me um conselho, suba ao 5º Andar, procure pela Louise Clark, que foi quem se ocupou, durante muitos anos, da selecção dos modelos. Se, como penso, a senhora que procura desfilou nesta casa, a Louise pode ainda ter a sua ficha. Não perde nada em experimentar, e esteja à vontade, porque a minha colega é, muito prestável.
- Muito obrigado pela sua gentileza e simpatia, Jennifer, respondeu depois de ter conseguido ler, o nome escrito na placa.
Subiu ao andar de escritórios e pediu para falar com Louise Clark.
Aguardou um instante , veio uma senhora, baixa, fisionomia simpática e com olhos bem vivos, por detrás dos óculos, aparentando ter mais de cinquenta anos, que se lhe dirigiu, algo intrigada:
- Eu sou Louise Clark, em que lhe posso ser útil?
- A senhora desculpe o incómodo, mas a Jennifer, disse-me que talvez me pudesse ajudar, para encontrar este modelo, e exibiu a foto, pois estamos convencidas que ela desfilou para esta casa, embora há cerca de dez anos. Eu sou estrangeira, perdi o contacto com ela, mas por razões pessoais, gostaria de a localizar. Sei, apenas, que o nome é Marjorie Berthier.
Louise, torceu o nariz, dizendo que dez anos na vida de uma modelo é muito tempo e não podia garantir que ela ainda constasse dos registos da casa. De qualquer modo, dê-me quinze minutos, que eu vou ver se ainda encontro a ficha.
Demorou um pouco mais, mas com ar triunfante, Louise voltou com uma ficha na mão. Aqui tem, minha senhora, ainda encontrei, desactualizada é certo, a ficha de registo da modelo que procura.
Com a mão, ligeiramente trémula, Maria da Glória, pegou na ficha e confirmou tratar-se de Marjorie. Sim é de facto a mesma pessoa, permite-me que tire alguns apontamentos?
- Então minha senhora, é mais fácil dar-lhe uma fotocópia. Entre aqui para o meu gabinete, sente-se por favor, que eu já lha dou, disse Louise.
Quando reentrou no gabinete com a fotocópia, comentou que receava que a ficha fosse de pouca utilidade pois estava manifestamente desactualizada.
Sabe que, por norma, uma modelo quando deixa de preencher os requisitos exigidos para desfilar, continua ligada ao mundo da moda, embora para outro trabalho. Experimente telefonar para o número que eu escrevi no verso da ficha e fale com a Marge, dizendo que vai da minha parte. Ela trabalha como agente de diversos modelos e se houver alguém a ter o contacto recente com quem procura só poderá ser ela.
Maria da Glória agradeceu a simpatia e a colaboração que tinha encontrado e que nunca iria esquecer. Foi num caminhar mais apressado que voltou ao hotel. Queria ver com calma os dados da ficha.
A ficha identificava a modelo, como anotou, depois de traduzir o mais importante:
- Nome. Marjorie Berthier
- Data de nascimento: 26 de Junho de 1970
- Nacionalidade: Canadiana
- Residência: 384, W 26 th Street – New York City,
- mudou para 240, E 71 th street, apartamento 08 - 1065 – NYC, em 31 de Outubro de 1996
- Telefone: 91506748035
- Altura: não traduziu
- Peso: não traduziu
- Desfiles: Fevereiro 1996, Maio 1997, Setembro 1997, Fevereiro 1998, Julho 1998, Setembro 1999
- Agência: Freelancer
Leu e voltou a ler a ficha. Chegou à conclusão que, Marjorie, começara a viver com o Francisco em Outubro de 1996, pois o endereço era o que ela conhecia. Isto é que foi uma paixão fulminante. O Francisco, dois meses depois de estar em Nova York, já tinha arranjado companheira. Não perdera tempo, o que é estranho, dado que sempre o conhecera como, uma pessoa muito indecisa e pouco comunicativa, na primeira impressão. Pelos vistos, eu estava bem enganada.
Voltou a olhar para a ficha, reparando que pelas suas contas Marjorie que devia ter sido mãe em Fevereiro/ Março de 1999 e por isso, naquela loja, apenas teria desfilado por uma vez depois do nascimento do filho.
Reconhecia que o que soubera era quase nada. Não acrescentava nada de importante.
Ainda assim, decidiu ligar a Marge, seguindo o conselho que recebera. Ligou o número, foi atendida por uma assistente que lhe disse que Marge só estaria disponível para a receber durante o coffee break, cerca das dezasseis horas. Concordou e tomou nota do endereço que lhe deram.
Telefonou a Guilherme, o telemóvel estava desligado e enviou mensagem dizendo que, logo no primeiro dia teria de faltar ao encontro no jardim.
Almoçou uma refeição ligeira e chegou ao endereço, um loft no primeiro andar, onde havia uma grande aglomeração de jovens. Perguntou a alguém por Marge e indicaram-lhe um senhora, que num recanto, rodeada de uma bateria de telefones e de assistentes, dava ordens em voz nada meiga. Olhou para o relógio, eram dezasseis horas precisas quando o espaço da Marge ficou livre e uma assistente lhe servia um café, num daqueles copos bem grandes que tanta confusão faziam a Glória. Levantou o olhar, reparou na presença estranha, consultou a agenda e perguntou:
- É a amiga da Louise que telefonou a pedir uma entrevista?
- Sim sou eu e lamento se lhe vou roubar alguns minutos pois já reparei que está muito atarefada.
- Não se preocupe isto aqui é assim quase todos os dias. Mas diga-me o que pretende?
- Eu procuro uma modelo que já não vejo há bastantes anos. Sou estrangeira como deve ter reparado, e creio que só a Marge me poderá ajudar. A pessoa que procuro é esta, entregando uma fotografia e a ficha da casa Saks?
- Marge demorou alguns segundos a olhar a fotografia e a ler a ficha, abriu um ficheiro ao lado da secretária, comentando enquanto o percorria, que já tentara guardar a informação no computador, mas que não se dera bem. Ela precisava de sentir o cheiro do papel do arquivo. Guardava ali mais de vinte anos de trabalho, papéis que representavam sonhos desfeitos, desilusões sofridas de tanta gente que representavam para ela pedaços de vida, dela e de tantos jovens.
Aqui está a informação que pretende. Eu agenciei diversos trabalhos para esta modelo, mas o último foi já no ano 2001, uma pequena participação num comercial, mais porque ela me pareceu com dificuldades financeiras.
Depois não tenho qualquer registo, lamento.
Sabe que a vida de uma modelo, salvo as que alcançaram o estrelado, é tão efémera como a das borboletas. Veja a quantidade de jovens que aqui viu.
Todas se deixaram deslumbrar pelas luzes de ribalta e, muito poucas terão uma verdadeira oportunidade. Mas é assim a vida.
Glória acenou que sim e saiu no meio da enorme confusão. Foi com uma lágrima furtiva, que passou entre tantas jovens cheias de esperança, amanhã ou depois vítimas da desilusão. Tomou um táxi e seguiu para o hotel.
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