segunda-feira, 8 de novembro de 2010

OCASO




Tinha sido um dos tais dias. Dia de reunião do CA para analisar o 1º. Semestre e previsões para o segundo.
Começara pela manhã com apresentação e discussão sectorial. À volta da mesa, sobraçando dossiers e portáteis com dados, gráficos, mapas, power point,etc. todos os chefes de divisão. Cada um defendeu os números que apresentava, mas com nervoso pouco habitual. Afinal todos estavam muito longe dos objectivos a que se tinham comprometido, para poderem beneficiar dos prémios. Ensaiavam desculpas esfarrapadas, quando qualquer pessoa com bom senso sabia que os objectivos, eram uma utopia.
Depois dum almoço ligeiro a reunião com a Comissão Executiva.
Ao tomar conhecimento da situação do negócio o CEO chegou à conclusão habitual. Virando-se para o Director Financeiro e com toda a distância e frieza que lhe eram peculiares, determinou:
- É preciso cortar nos custos fixos, promovendo a reestruturação dos serviços administrativos, implementando a estratégia de serviços partilhados, devendo muitos deles serem prestados em regime de out-sourcing e em consequência promover a redução do número de funcionários.
Ainda pediu a palavra para contestar a decisão mas, todos os intervenientes aliviados por terem encontrado um responsável, aplaudiram a decisão do Chefe. Como era vindo a ser prática corrente.
Sentiu-se cansado sem força anímica. Queria chamar a atenção para os verdadeiros problemas da Empresa mas as palavras saíram-lhe enroladas e sem força. Desistiu.
Entrou no gabinete transportando os dossiers que deitou para cima da secretária. Sentou-se na poltrona, respirou fundo e cerrou os olhos.
”É preciso reduzir os custos com o pessoal. Apresente-nos as projecções para o fim do ano já com os resultados das medidas que vai tomar. Corte a direito.” Estas palavras martelavam-lhe a cabeça e feriam-lhe os sentidos.
A cabeça latejava e parecia rebentar.
O sr. Doutor precisa de alguma coisa? Perguntou da porta entreaberta a solícita secretária.
Não, tudo bem. Traga-me um copo de água e depois pode sair. Tenha um bom fim de semana.
As dores de cabeça iam aumentando a cada momento.
”É preciso cortar nos custos. Tem de reduzir o seu pessoal. Refaça as contas e ...,” mas será que não consigo ter um momento de paz, perguntou-se? Agitado e perseguido pelos pensamentos levantou-se e começou a caminhar na sala de parede a parede. Parou um pouco,bebeu um golo de água.
Aproximou-se da janela. Abriu os estores e olhou para o sol que mansamente se escondia no horizonte.
Tem graça, pensou, ocupo este gabinete à mais de quatro anos e nunca me tinha apercebido da beleza da paisagem.
Voltou para a cadeira, virou-a no sentido da janela, continuou a olhar o lento esconder do sol, e as nuvens esfarrapadas que se iam docemente deslocando, como barcos à vela, navegando à bolina.
”É preciso reduzir custos e promover despedimentos. É preciso....”
Mas esta dor de cabeça que não me larga! Fechou os olhos e sentiu algum alívio. Abriu uma gaveta da secretária e remexeu procurando uma embalagem de comprimidos que se lembrava de ali ter guardado.
Encontrou, meteu um, dois, talvez mais na boca, empurrou com água.
Sentiu-se melhor. Ajeitou-se melhor na cadeira, abriu os olhos procurando as nuvens ou seriam barcos? que tinha visto no horizonte.
O sol mergulhou e dele apenas via alguns raios que tingiam de diversas cores o céu.
Uma luz intensa, de cor indefinida, parecia guiar os barcos ou seriam nuvens? por um caminho estreito e escuro.
Cerrou lentamente os olhos, a luz continuava a indicar-lhe um caminho pelo qual se ia deixando, levemente, transportar e a dor de cabeça ia desaparecendo. Sentiu-se ausente mas feliz.
A cabeça descaiu sobre o peito. A respiração foi ficando suave, tão suave que nem se sentia. Deixou-se ir, nos barcos do seu imaginário. Flutuando leve, leve como uma pena embalada pela brisa.

Fim

sábado, 6 de novembro de 2010

PORQUE HOJE É SÁBADO

Porque hoje é sábado, não há nada para ninguém. Não trabalho.
Sim, porque isto de gastar algumas das poucas células que me restam, tem de ser bem gerido. Eu não quero ter de vir a pedir ajuda para recompor o sistema, até porque o preço das ideas está pelo hora da morte.
Por isso, desculpem os meus simpáticos leitores, em Portugal e em Singapura, isto não é piada, mas se quiserem ler qualquer coisa de interessante, terão de recorrer a outra fonte. Eu sei que não é tarefa fácil, mas fiz algum trabalho para vocês.
Convido-os a ligarem o altifalante, verem o vídeo do YouTube que se segue e ouvirem, em silêncio, este belo poema de Vinicius.
Acreditem em mim, só ganharão com a sugestão.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

AO ARREPIO

Estou cansado. Ontem, já não estava grande coisa, mas mesmo assim, ainda encontrei no fundo do baú de recordações, qualquer coisa sobre que escrever.
Hoje ainda tentei esgravatar o passado, à procura de algum episódio que merecesse a pena contar, mas foi o vazio. Página em branco.
Entretanto, para mal dos meus pecados, abri a Televisão enquanto almoçava.
A náusea e a repulsa que senti, ao ver o que certas pessoas dizem e fazem para ganhar a vida, foi tão grande que me revoltei comigo mesmo. Quem é que se lembra duma coisa assim,ver Televisão? Só alguém que não esteja no seu perfeito juízo.
Aliás, para mim, ver televisão devia pagar um imposto!
Para isso bastava que cada aparelho incluisse um “chip”, para registar o início da recepção, e as horas a que foi feita a ligação.
Como tanto se fala em inovação tecnológica, o mesmo “chip” também serviria para controlar as audiências e para os Sociólogos estudarem os gostos televisivos dos expectadores, além de que, poderia contribuir para uma melhoria do meio ambiente, com a diminuição do lixo tóxico.
O imposto que proponho, teria de ser devidamente graduado, isto é, não pode ser igual para todos os programas e conteúdos. Tem que haver uma discriminação positiva.
Por exemplo, os noticiários e os programas de debate político, deviam pagar uma taxa elevada, pela poluição que provocam. Pelo contrário, as transmissões dos debates na Assembleia da República deviam ser livres de impostos, dada a sua elevação, a sua relevância e o facto da TV não dar circo já há muito tempo.
Os programas de entretenimento, eu não sei bem o que isso é, mas acho que também devem pagar, excepto se forem transmitidos depois das duas horas da manhã e com bolinha encarnada, pois claro.
Resta o futebol e as telenovelas. Ficavam isentos, também não podemos ser fundamentalistas.
Este imposto que defendo, só tem um contra. Pode aumentar o desemprego entre os comentadores, os especialistas disto e daquilo e os aparentados.
Pode parecer uma ideia idiota, provávelmente até é, mas que era uma ajuda ao combate ao défice é evidente e, principalmente, uma ajuda à saúde mental dos Portugueses.
Ai o que me havia de dar! Senão arrepio caminho onde é que eu vou acabar?

J. Ariemal

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Relembrando

Há dias assim. Só nos vêm à memória recordações, faço mesmo sem dar por isso uma triagem, que são normalmente coisas que gosto de relembrar.
Dei por mim a fazer este tipo de raciocínio, quando li há dias, no blog que sigo, http://numaparagemdo28.tumblr.com, um artigo sobre o cinema Português.
É que muitas das minhas lembranças têm a ver com a sétima arte. Não necessáriamente com o cinema que cá se fazia.
É certo que desde muito novo, criança ainda, pois não havia classificação de filmes, fui habituado a ir ao cinema na companhia de familiares muito próximos. Íamos ver os filmes que eram projectados na nossa cidade, fosse no cine-teatro, bem bonito que está encerrado há muitos anos, mas principalmente no cine-parque ao ar livre, que hoje deve servir de armazém para qualquer coisa, que não sei nem me interessa.
E vi de tudo. Desde os filmes de corsários, género Gavião dos Mares filmado em 1940, e dirigido por Michael Curtiz, que voltei a encontrar, bastante mais tarde, no inesquecível Casablanca, até, calcule-se alguns dos dramas do cinema italiano, como “Arroz Amargo”e principalmente o “Céu Sobre Pântano”, filme que procura retratar a vida de Maria Goretti, posteriormente canonizada. Foi este o filme que mais me impressionou e não esqueci a cena em que o criminoso persegue a vítima, à volta de uma mesa, levando uma faca na mão. O resto não sei porque, por medo, devo ter fechado os olhos.
O gosto pelo cinema ficou e até hoje, o cinema italiano está muito bem representado na galeria dos meus filmes preferidos, com filmes que vi e revi mais tarde, que foram considerados como pertencendo à época do Neo Realismo Italiano, como “a Terra Treme” de Visconti, “Roma Cidade Aberta” de Rossellini e “Ladrões de Bicicletas” de De Sica, e que hoje fazem parte, com muitos outros, da história do cinema. Foi o apogeu do cinema transalpino, penso eu.
Ainda hoje são italianos dois dos filmes que mais gosto, “O Homem das Estrelas” e “ Cinema Paraíso”, ambos de Giuseppe Tornatore.
Uma pessoa amiga, conhecendo o meu interesse pela história do Império Romano, sempre me lembrava, que o local onde poderia admirar o maior conjunto de monumentos desses tempos, era a Sicília, a Magna Grécia. E ela tinha razão, como já pude comprovar.
Aliás, eu não consigo dissociar o meu gosto por muitos filmes do cinema Italiano, daquela mal afamada, mas tão bela, ilha dos três mares.
Desde logo os filmes de Visconti, a "Terra Treme" e "O Leopardo",
"Stromboli" de Rossellini e posteriormente os filmes de Tornatore, ele mesmo um Siciliano.
Até admito que foi a vontade de conhecer a ilha de Stromboli, onde Rossellini filmou, com a inesquecível Ingrid Bergman e onde ainda está de pé a casa que os mesmos partilharam, que me levou a aceitar fazer algo que não gosto muito. Andar de barco.
Na ilha, ainda desembarquei, mas à casa, o enjoo já não me deixou ir, e fiquei com pena.
Também não conhecia o filme “O Homem das Estrelas” mas, curiosamente, numa noite em que regressei duma viajem de trabalho a Messina, Sicília, vi na TV o filme pela primeira vez. E não mais o esqueci.
Ah como é bom lembrar, filmes que me marcaram, numa altura em que me parece haver uma quebra de qualidade, especialmente, nos filmes exibidos no circuito comercial.
J.Ariemal

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Carteiro que gostava de cartas de amor

NOTAS FINAIS
Quando nos sentamos em frente ao computador, com intenção de escrever qualquer coisa, nem que seja uma pequena nota ou história, raramente se consegue. Eu pelo menos não funciono assim.
Quando o tento fazer, fico bloqueado e a página em branco lá fica a atormentar-me.
Normalmente penso e escrevo os textos na minha cabeça e só depois os tento passar ao computador. Deixei de usar um “note book”, porque o pensamento é muito mais rápido que a mão e quando acabo de escrever, não percebo nada dos palavras garatujadas.
Esta explicação, vem a propósito do conto que ontem acabei de publicar, tão despretencioso como o seu autor, mas que tem por base uma outra história.
É sobre essa outra história, que devo e quero falar.
O tema foi sugerido por uma pessoa amiga, e outras duas , que são muito importantes para mim, convenceram-me, melhor dito, arrancaram-me a promessa, de que escreveria um conto, com esse tema.
Eu sei que o fizeram não pelas minhas qualidades literárias, mas porque ambos sabiam que o desafio feito a uma pessoa, que estava 24 horas encerrado numa casa de vidro, durante mais de uma semana, vendo apenas pessoas protegidas com capas, toucas, luvas, máscaras e protecções nos sapatos, quer dizer num quarto isolado dum hospital, era uma forma de o despertar para a vida, apagar os maus pensamentos e fazer funcionar a máquina cerebral. E resultou.
Portanto este conto foi escrito na minha cabeça uns meses antes de o passar a letra de forma.
Para essas pessoas que me são tão queridas, aqui vai agora o meu reconhecimento. Não digo, mas elas quando e se me lerem, sabem a quem me refiro.Obrigado por terem insistido. Se o resultado não é o que se podia esperar, tem pelo menos o mérito de ter sido escrito com muito amor e com alguma lágrima de permeio.
Também foi importante e por isso saliento, a presença permanente da companheira de uma vida. Esta história, também lhe deve muito.
Naturalmente, alguns dos poemas com que as cartas de amor são ilustradas, foram escritos bem depois do ano de 1954, ano em que as cartas estão datadas.
Mas isso é uma liberdade minha, até porque penso, que a poesia é intemporal.
E, afinal, uma questão de anos que importância poderá ter?

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Carteiro que gostava de cartas de amor

14 – TRÊS ANOS DEPOIS

Trabalhou febrilmente para concluir os seus estudos na Faculdade de Letras de Coimbra e licenciou-se com uma das notas mais altas que havia registo.
Todavia nada na vida o distraía do seu propósito. Esquecer o passado e olhar o futuro. Não se havia adaptado à cidade. Sempre se sentira um intruso e tinha consciência que ele tinha sido o principal, senão único, responsável. Afinal, perdera-se porque não tinha tido força para resistir a espiar a vida dos outros. E isso teve um preço.
Já não lembrava o espírito inquieto que o havia levado e tentar encontrar o mundo que se escondia para lá do horizonte. Pior do que isso, era que nem sequer o havia tentado.
Decidiu voltar a Trás os Montes, como prometera, e lá sem o brilho e as luzes da cidade,mas com a tranquilidade dos grandes espaços, recomeçar a viver e partilhar o saber.
Para o conseguir decidiu optar pela carreira do ensino. Foi por isso que aceitou ser um simples professor de Português no Liceu de Vila Real.
Antes de partir, voltou ao Porto para se despedir dos Tios e confirmar que as feridas estavam cicatrizadas. Deu uma volta pela cidade e à tarde entrou no café Majestic, sítio que ele nunca mais esquecera. Estava cheio, já fazia algum frio, naquele fim de Setembro de 1957. No café já se ouvia falar do desentendimento entre o Craveiro Lopes e o Salazar. A expectativa era grande.
Dizia-se, sem medo, que a oposição iria apresentar o General Delgado como candidato e que Salazar não iria manter a confiança política no anterior Presidente e se preparava para levar a votos uma figura apagada e obediente, chamada Américo Tomás.
Mas a política não era assunto para ele. Contudo não podia deixar de reparar que havia muita agitação e que as pessoas começavam a perder o medo de falar. Algo se anunciava.
Ia sair do café, quando sentiu uma mão tocar-lhe no braço e uma voz de mulher perguntar:
- Ainda se lembra de mim?
Estemeceu, mesmo sem olhar reconheceu a voz e por momentos temeu o retorno dos velhos fantasmas. Sim claro que me lembro D. Maria Madalena, respondeu com voz trémula.
Olhou para ela, mas como estava mudada. Os cabelos esbranquiçados e revoltos, o rosto magro onde sobressaiam os olhos grandes mas pardacentos. Parecia uma figura de cera, frágil, açoitada por um vendaval.
- Foi neste café que falámos, já lão vão uns anos, acrescentou. Mas como o tempo passa por nós não é verdade?
- Sim, o tempo não perdoa. Aliás a vida também não.Vejo que está de saída e eu também. Faça-me companhia e andemos um pouco pela cidade, pediu Maria Madalena.
Andaram sem destino e em silêncio, até que Maria Madalena, virando-se de frente para ele diz:
- Sabe, Felizberto, vou confessar uma coisa que já não tem importância. Eu sabia que o senhor lia a minha correspondência com o André. Desconfiei quando o vi rondar uma morada das que eu utilizava para receber as cartas, confirmei quando me apercebi que as cartas que recebia eram abertas e fechadas um pouco desajeitadamente, mas nunca lhe quis mal por isso. Ao menos tive uma testemunha do nosso sofrimento, alguém que, se não fosse insensível, também compreenderia as nossas amarguras.
Felizberto sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. Estremeceu, mas não tentou negar. Assumiu e respondeu:
- Sim li e vivi, de que maneira, todas as cartas do vosso amor. Ter aberto a primeira carta foi um acidente e depois foi o caminho que me ia levando à perdição. Demorou muito tempo, a luta que dentro de mim se travou. De um lado a inexperiência de vida e o prazer ingénuo que me dava a leitura das vossas cartas de amor. Do outro a necessidade mórbida de me alimentar com os vossos segredos e o vosso sofrimento.
Tinha guardado cópia de tudo o que tinha lido, das cartas e dos poemas. Eram o meu tesouro escondido. Quando me senti à beira do abismo, e regressei a casa como o filho pródigo, fechei tudo numa pequena caixa que lançei ao Rio, pedindo que as águas a levassem à vossa praia. Com ela lancei ao Rio a chave e uma grande parte da minha vida. Demorei muito tempo, mais de três anos, a esquecer aqueles meses terríveis que, confesso, deixaram feridas no meu peito, que só agora estão cicatrizando.
Sentaram-se num banco de jardim. Maria Madalena pegou na mão de Felizberto dizendo:
- O destino é cruel, muito cruel. Afinal não fomos só nós, os amantes trágicos, os que tanto sofremos. Também fizemos sofrer a quem teve a sensibilidade de nos ouvir ou ler. Peço perdão.
- Isso não, Maria Madalena, não me peça perdão. Sou eu que queria e deveria fazê-lo. Eu fui o intruso na vossa vida. E dessa culpa nunca me irei esquecer.
Soube pelo seu Pai que teria ido trabalhar para Paris. Na altura fiquei feliz. Agora, nem tenho coragem para perguntar o resto da vossa história e não sei sequer se terei forças para a ouvir.
- Não, Felizberto, não vale a pena. Quando, ao fim de tantos anos conseguimos algo com que sonhámos, parece que o destino se compraz em destruir tudo. As cartas de amor, que foram o nosso alimento, não mais serão escritas. Só lhe digo que quando se nasce trazemos ou não uma estrela. A estrela da vida. Eu nunca encontrei a minha, desde aquela noite em que me despedi do André, na praia dos nossos sonhos. Em que perdi o norte e me perdi.
Quando o muro se me abriu foi tarde. Paris foi apenas o enterrar definitivo dos nossos sonhos. O ruir de tudo, o ponto final. O corvo negro apenas foi o mensageiro.
“Tudo o mais foi naufrágio”, lembra-se?.
Sem dizer mais nada levantou-se cambaleando, e desapareceu na névoa que começava a cair sobre a cidade. Felizberto parecia ouvir, ao longe um ruído estranho, parecia ser um chorar às gargalhadas.
Levantou-se. As mãos estavam frias pelo que procurou o calor dos bolsos do casaco. Encontrou um papel dobrado. Abriu e reconheceu a mão trémula que o havia escrito. Maria Madalena, deixara-lhe, escondido no bolso, um adeus de despedida.
Hesitou. Teve medo de reabrir feridas recentes. Compreendera que os dois amantes, cujo tormento acompanhara, não se tinham reencontrado.
André teria tido a morte pressentida; Maria Madalena a loucura de continuar a viver despida de sonhos. Como um náufrago.
Desdobrou o papel, sentia que lhes devia isso. Mais um poema. E à luz do candeeiro da rua, sentindo o vento frio que lhe apagava a chama, que de novo lhe incendiava o corpo, parou e leu o poema final.



O CORVO

Quando o meu corvo, trémulo, doente,
-Como quem sofre as minhas agonias-
Naquela noite veio, amargamente,
Dizer-me, soluçando, que morrias,

Percebi-lhe no olhar as nostalgias
Da noite negra, sem luar, fremente,
Aonde as suas asas luzidias
Tomaram cor misteriosamente...

E à luz medrosa do candeeiro exausto,
Bebendo a minha dor num longo hausto
Mais triste que o soluço das nortadas,

Analisei a mágoa de nós dois
Para ver qual sofria mais ... depois ...
Céus! Desatei chorando, às gargalhadas!
(José Duro)

Dobrou o papel, guardou-o no bolso como quem guarda uma recordação, uma memória. Deambulou pela noite fria e húmida. O romper do sol, ainda tímido deu-lhe algum alento. Seguiu na sua direcção e encontrou o seu caminho de regresso a casa.



F I M
J. Ariemal
Agosto, 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Carteiro que gostava de cartas de amor

12 – O FILHO PRÓDIGO

Felizberto, arrumou os papéis, pegou uma caixa de madeira com uma pequena fechadura, onde guardava cópia das cartas e dos poemas, que havia interceptado entre os dois infelizes amantes e levou-a com ele. Queria ler pela última vez e depois lançá-los ao rio, para que este os levasse à praia dos sonhos.
Os tios estavam de férias no Minho e assim foi-lhe fácil arrumar as poucas coisas que possuía, numa velha mala de cartão e tomar o transporte para o regresso a casa. A camioneta parou para almoço num parque perto do rio Douro. Passeou ao longo da margem, fechou à chave a pequena caixa com os seus segredos, e largou-a na corrente. Ela flutuou e na curva do rio, muito lentamente, afundou-se. Depois pegou na chave, levou-a aos lábios e lançou-a à distância. Por momentos ficou olhando o rio que transportava parte da sua vida e sentiu um aperto no coração, como quando se perde alguém que se ama. A seguir, inclinou-se junto à margem, e com as mãos em concha, lavou o rosto, para disfarçar as lágrimas que não conseguira conter.
Chegou a casa como um filho pródigo. Em silêncio de mãos vazias e coração ferido.
Começara a escurecer, entrou e foi encontrar a Mãe deitada sobre a cama, de olhos fechados e com uma respiração tão suave que quase nem ouvia. Ia sair quando esta o chama e lhe estende a mão. Felizberto, apertou-a com força entre as suas, mergulhou o rosto no peito que o criara. Não soltou uma lágrima mas ficou assim até que a Mãe lhe levantou a cabeça e se fixou nos seus olhos.
- Meu pobre filho, murmurou, como é que a vida te tratou tão mal? Não, não digas nada. Voltaste para te despedires da tua velha Mãe, e isso é que importa. O resto, as tuas dores, os teus desenganos vais ter de ser tu a resolver. Eu já cá não estarei para te ajudar. Olha meu filho, vê se te lembras duma história bonita, daquelas que me sabias contar, para me fazer sonhar e dar conforto na viajem que se aproxima.
Felizberto, sentou-se na cama e quase sem dar por isso pôs-se a dizer, lentamente e com a voz entrecortada por soluços, “uma história de amor feliz”.

“Ela Chamava-se Madalena como a companheira de Jesus, ele dava pelo nome de André, um dos seus discípulos.
Eram jovens de dezoito anos quando se conheceram. Prometeram-se um ao outro para toda a vida e sonharam uma vida feliz.
Mas sonhos são sonhos e por vezes a realidade é cruel.
Madalena era filha de gente rica e importante e ele, orfão de Pai, era pobre entre os pobres.
Decidiram enfrentar as críticas e as desaprovações. Juntos sentiam-se capazes de saltar as barreiras, derrubar o muro que os cercava e alcançarem o direito a ser felizes. Mas o muro era demasiado alto e separou-os durante muitos anos. E eles ficaram sós, vivendo cada um em seu mundo.
Lutaram, sofreram a dor da ausência e da saudade. Mas nunca traíram o amor que tinham jurado. E, finalmente, puderam encontrar-se. O amor venceu, a esperança não foi uma ilusão, e eles foram felizes para sempre. “

Quando acabou, cerrou os olhos da Mãe, e quando lhe pareceu ver nos lábios um sorriso de tranquilidade, deixou que finalmente as lágrimas lhe corressem. Em silêncio, pediu perdão a Madalena, mas tinha a certeza que ela compreenderia a bondade da história que acabara de contar.
Esteve assim, imóvel e sofrendo, até ouvir o barulho duma motoreta que parava à porta. Uma voz de mulher jovem chamava:
- D. Lucília, sou eu a Amélia, venho trazer-lhe a ceia. Posso entrar?
Felizberto, levantou-se saiu e viu uma rapariga com um cesto na mão. Quando o viu, a rapariga percebeu no seu olhar que a amiga já não estava entre eles. Sentou-se num banco debaixo da figueira, pousou o cesto, tapou a cara com as mãos e começou a soluçar :
- Pobre D. Lucília, dizia em voz baixa, ela pressentira que a sua hora ia chegar, pois ontem quando nos despedimos, deu-me um abraço tão forte como se fora o último, formulou um desejo e fez um pedido. O desejo era ver o filho e o pedido era para eu tomar conta dos animais.
Enxugou as lágrimas, olhou para o homem na sua frente e perguntou?
– O senhor é o Felizberto o filho da D. Lucília, não é verdade? Ela estava doente já há muito tempo mas não queria que o filho soubesse, porque não o queria fazer sofrer. A sua Mãe só teve um objectivo na vida, vê-lo feliz. Ainda a encontrou com vida?
Felizberto acenou que sim e que foi ele que lhe cerrou os olhos. Foi sentar-se no seu antigo lugar, olhando para o horizonte que já mal se percebia.
Agora estava só no mundo e devia à memória da sua mãe a lição por todos os sacrifícios e humilhações que ela tinha enfrentado, sózinha. E ele chegara mais pobre e só do que partira.
- Voltou-se para a rapariga e pediu desculpa:
- Eu nem a cumprimentei, e em boa verdade nem sei quem é a menina!
- Chamo-me Amélia, e não me chame de menina porque tenho a sua idade. Há cerca de um ano, vim viver com a minha Mãe doente, naquela casa junto ao moinho. Dava-me muito bem com a D. Lucília e era a ela que eu recorria para me dar uma ajuda quando eu precisava ou para me dar um consolo quando, nos momentos de fraqueza, não tinha nem força nem vontade para continuar a cuidar da minha pobre doente. Ela falava-me muito do filho, que tinha ido para a cidade e que lá tinha um trabalho muito bom, andava na universidade e tinha muitas amizades. Quando mo dizia tinha no rosto, precocemente envelhecido, um sinal de tanto orgulho e felicidade. Mas se ela tivesse visto, como eu vejo agora, o seu rosto macerado e os seus olhos baços, duvido que acreditasse na sua felicidade.
- Mas Amélia, ela ainda viu e isso dói-me mais do que tudo. Saí daqui disposto a conquistar o mundo. Volto vencido, despojado dos meus ideais e de coração vazio.
Felizberto acompanhou o corpo do ente querido, até há última morada. Quando o caixão desceu à cova, pegou num torrão de terra dura e áspera que esfalerou e espalhou pela sepultura. Como oração dizia, baixinho, “da terra nasceste e a terra te reclama”. Ao mesmo tempo, embrulhando uma flor silvestre, lançou à cova, um poema que havia copiado e guardava no bolso.

(SÃO MORTOS OS QUE NUNCA ACREDITARAM)

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é sómente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer ,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão de um campo de batalha!

(Florbela Espanca)

Passou os restantes dias de férias percorrendo os caminhos das suas recordações de infância. Esse voltar às origens, deu-lhe uma tranquilidade de espírito que já não sentia havia muito tempo. Depois procurou Amélia. E frente a uma jovem em lágrimas, disse:
- Não chores. A minha Mãe levou-te no coração. Eu não posso, não tenho coragem para te dizer mais nada. Só um pedido. Espera por mim. Eu vou voltar.
No final do mês de Setembro, e como se havia comprometido, assistiu à tomada de posse do novo Director. Para surpresa de todos, recusou o lugar de sub-director e aceitou um lugar bem mais modesto em Coimbra. Era agora um simples carteiro.