terça-feira, 14 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – XVI – CAMINHOS SEM FUTURO

Maria da Glória , cerrou com força os olhos, como se quisesse afastar a cortina que a impedia de olhar em frente, sacudiu a cabeça e reencontrou de novo o equilíbrio, que quase estivera a perder. Teve um dormir agitado e povoado de fantasmas do passado.
Esteve quase a desistir do projecto. Receava que a sua persistência fosse um erro que, ela própria, acabaria por pagar. Todavia, decidiu continuar a sua peregrinação.
De repente, lembrou-se da carta que Francisco enviara a Marjorie e fora devolvida. É que, não conseguia perceber como é que Francisco conseguira mandar o dinheiro, sem a identificação completa do destinatário. Essa dúvida, que só agora percebia, deu-lhe a certeza de que Francisco teve ajuda de alguém para resolver o problema, alguém íntimo . Esse alguém deveria ter sido um colega. Mas quem? Nas cartas que Francisco lhe enviara ele poderia ter falado dessa amizade, mas Glória não se lembrava de qualquer nome.
Levantou-se cedo, mas sem saber o que fazer.
Saiu do hotel, sem ter nada programado e foi andando e sem dar por isso chegou a Times Square. Não gostou, havia muita confusão, muita gente barulhenta, pelo que depressa voltou para a quinta avenida.
Cansada de andar de um lado para o outro, entrou de novo na loja SAKS para dar uma vista de olhos. Subiu ao andar, onde estavam expostos, os modelos de colecção de roupa feminina, e foi vendo um ou outro que poderia vir a comprar. Uma solícita empregada, dirigiu-se-lhe perguntando se precisava de ajuda. No vestido tinha uma placa discreta a dizer “sales assistant” e o nome que não conseguiu ler. Maria da Glória, olhou a interlocutora, respondendo que, por momentos estava só a admirar.
- Quando quiser, minha senhora, a SAKS e eu mesma, estaremos sempre ao seu dispor.
-Enquanto a assistente se afastava um pouco para atender outra cliente, Maria da Glória, olhou-a com mais atenção, porque sentira um click. Ela tentara recriar no seu imaginário, como seria a Marjorie, dez anos depois das fotografias que conhecia, e esse retrato tinha bastante semelhança, com o perfil que via, na vendedora. Não resistiu e aproveitando um momento, em que esta estava disponível, encheu-se de coragem, abriu a mala , retirou uma das fotos da mulher que procurava, aproximou-se da empregada e perguntou:
- A senhora desculpa a minha ousadia. Mas acho-a muito parecida com esta fotografia, que é de uma pessoa que procuro. Ela era modelo e até pode ter desfilado na loja. Por acaso, a fotografia não lhe é familiar?
A assistente pegou na foto, esteve, por momentos a olhar para ela e respondeu:
- Como deve calcular, minha senhora, eu conheci muitos modelos e há, normalmente um padrão comum entre eles. Todavia e sem uma certeza absoluta, a modelo desta fotografia, desfilou aqui em dada altura. Quando, não me lembro e do nome também não, respondeu.
- Permita-me um conselho, suba ao 5º Andar, procure pela Louise Clark, que foi quem se ocupou, durante muitos anos, da selecção dos modelos. Se, como penso, a senhora que procura desfilou nesta casa, a Louise pode ainda ter a sua ficha. Não perde nada em experimentar, e esteja à vontade, porque a minha colega é, muito prestável.
- Muito obrigado pela sua gentileza e simpatia, Jennifer, respondeu depois de ter conseguido ler, o nome escrito na placa.
Subiu ao andar de escritórios e pediu para falar com Louise Clark.
Aguardou um instante , veio uma senhora, baixa, fisionomia simpática e com olhos bem vivos, por detrás dos óculos, aparentando ter mais de cinquenta anos, que se lhe dirigiu, algo intrigada:
- Eu sou Louise Clark, em que lhe posso ser útil?
- A senhora desculpe o incómodo, mas a Jennifer, disse-me que talvez me pudesse ajudar, para encontrar este modelo, e exibiu a foto, pois estamos convencidas que ela desfilou para esta casa, embora há cerca de dez anos. Eu sou estrangeira, perdi o contacto com ela, mas por razões pessoais, gostaria de a localizar. Sei, apenas, que o nome é Marjorie Berthier.
Louise, torceu o nariz, dizendo que dez anos na vida de uma modelo é muito tempo e não podia garantir que ela ainda constasse dos registos da casa. De qualquer modo, dê-me quinze minutos, que eu vou ver se ainda encontro a ficha.
Demorou um pouco mais, mas com ar triunfante, Louise voltou com uma ficha na mão. Aqui tem, minha senhora, ainda encontrei, desactualizada é certo, a ficha de registo da modelo que procura.
Com a mão, ligeiramente trémula, Maria da Glória, pegou na ficha e confirmou tratar-se de Marjorie. Sim é de facto a mesma pessoa, permite-me que tire alguns apontamentos?
- Então minha senhora, é mais fácil dar-lhe uma fotocópia. Entre aqui para o meu gabinete, sente-se por favor, que eu já lha dou, disse Louise.
Quando reentrou no gabinete com a fotocópia, comentou que receava que a ficha fosse de pouca utilidade pois estava manifestamente desactualizada.
Sabe que, por norma, uma modelo quando deixa de preencher os requisitos exigidos para desfilar, continua ligada ao mundo da moda, embora para outro trabalho. Experimente telefonar para o número que eu escrevi no verso da ficha e fale com a Marge, dizendo que vai da minha parte. Ela trabalha como agente de diversos modelos e se houver alguém a ter o contacto recente com quem procura só poderá ser ela.
Maria da Glória agradeceu a simpatia e a colaboração que tinha encontrado e que nunca iria esquecer. Foi num caminhar mais apressado que voltou ao hotel. Queria ver com calma os dados da ficha.
A ficha identificava a modelo, como anotou, depois de traduzir o mais importante:
- Nome. Marjorie Berthier
- Data de nascimento: 26 de Junho de 1970
- Nacionalidade: Canadiana
- Residência: 384, W 26 th Street – New York City,
- mudou para 240, E 71 th street, apartamento 08 - 1065 – NYC, em 31 de Outubro de 1996
- Telefone: 91506748035
- Altura: não traduziu
- Peso: não traduziu
- Desfiles: Fevereiro 1996, Maio 1997, Setembro 1997, Fevereiro 1998, Julho 1998, Setembro 1999
- Agência: Freelancer

Leu e voltou a ler a ficha. Chegou à conclusão que, Marjorie, começara a viver com o Francisco em Outubro de 1996, pois o endereço era o que ela conhecia. Isto é que foi uma paixão fulminante. O Francisco, dois meses depois de estar em Nova York, já tinha arranjado companheira. Não perdera tempo, o que é estranho, dado que sempre o conhecera como, uma pessoa muito indecisa e pouco comunicativa, na primeira impressão. Pelos vistos, eu estava bem enganada.
Voltou a olhar para a ficha, reparando que pelas suas contas Marjorie que devia ter sido mãe em Fevereiro/ Março de 1999 e por isso, naquela loja, apenas teria desfilado por uma vez depois do nascimento do filho.
Reconhecia que o que soubera era quase nada. Não acrescentava nada de importante.
Ainda assim, decidiu ligar a Marge, seguindo o conselho que recebera. Ligou o número, foi atendida por uma assistente que lhe disse que Marge só estaria disponível para a receber durante o coffee break, cerca das dezasseis horas. Concordou e tomou nota do endereço que lhe deram.
Telefonou a Guilherme, o telemóvel estava desligado e enviou mensagem dizendo que, logo no primeiro dia teria de faltar ao encontro no jardim.
Almoçou uma refeição ligeira e chegou ao endereço, um loft no primeiro andar, onde havia uma grande aglomeração de jovens. Perguntou a alguém por Marge e indicaram-lhe um senhora, que num recanto, rodeada de uma bateria de telefones e de assistentes, dava ordens em voz nada meiga. Olhou para o relógio, eram dezasseis horas precisas quando o espaço da Marge ficou livre e uma assistente lhe servia um café, num daqueles copos bem grandes que tanta confusão faziam a Glória. Levantou o olhar, reparou na presença estranha, consultou a agenda e perguntou:
- É a amiga da Louise que telefonou a pedir uma entrevista?
- Sim sou eu e lamento se lhe vou roubar alguns minutos pois já reparei que está muito atarefada.
- Não se preocupe isto aqui é assim quase todos os dias. Mas diga-me o que pretende?
- Eu procuro uma modelo que já não vejo há bastantes anos. Sou estrangeira como deve ter reparado, e creio que só a Marge me poderá ajudar. A pessoa que procuro é esta, entregando uma fotografia e a ficha da casa Saks?
- Marge demorou alguns segundos a olhar a fotografia e a ler a ficha, abriu um ficheiro ao lado da secretária, comentando enquanto o percorria, que já tentara guardar a informação no computador, mas que não se dera bem. Ela precisava de sentir o cheiro do papel do arquivo. Guardava ali mais de vinte anos de trabalho, papéis que representavam sonhos desfeitos, desilusões sofridas de tanta gente que representavam para ela pedaços de vida, dela e de tantos jovens.
Aqui está a informação que pretende. Eu agenciei diversos trabalhos para esta modelo, mas o último foi já no ano 2001, uma pequena participação num comercial, mais porque ela me pareceu com dificuldades financeiras.
Depois não tenho qualquer registo, lamento.
Sabe que a vida de uma modelo, salvo as que alcançaram o estrelado, é tão efémera como a das borboletas. Veja a quantidade de jovens que aqui viu.
Todas se deixaram deslumbrar pelas luzes de ribalta e, muito poucas terão uma verdadeira oportunidade. Mas é assim a vida.
Glória acenou que sim e saiu no meio da enorme confusão. Foi com uma lágrima furtiva, que passou entre tantas jovens cheias de esperança, amanhã ou depois vítimas da desilusão. Tomou um táxi e seguiu para o hotel.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – XV - SINAIS DE PAIXÃO

Enquanto regressavam, Guilherme perguntou quanto tencionava regressar.
Glória, estremeceu e foi com uma voz contida que respondeu. Não sei meu amigo. Eu não vim em turismo, vim à procura de encontrar a minha tranquilidade. Nesta grande cidade vivem, penso, duas pessoas que eu tenho de encontrar. Só assim poderei enterrar o passado e olhar o futuro. Assim o meu regresso está condicionado ao sucesso da minha procura. Depois, com mais tempo, contarei a minha história, se ainda a quiser ouvir.
- Então Glória, não falemos de coisas tristes. Esta noite vamos ao teatro, como combinado e depois se tiver gosto iremos a um clube de jazz, ouvir música e beber um copo. Depois combinaremos como vai ser a nossa vida durante os dias em que aqui vamos estar. Havemos de encontrar uma solução que lhe permita continuar a sua procura do passado e a mim continuar a viver consigo o momento presente, olhando com esperança para o futuro.
Glória ficou no hotel, teve a ousadia de se vestir mais informalmente, mas sempre com o bom gosto habitual. Quando saiu, levou na mão um botão de rosa e, com um gesto de ternura, prendeu-o na lapela do casaco do amigo.
A peça de teatro era interessante, mas muito do tempo, passaram-no a trocar olhares e sorrisos.
Depois, ao som da música e de uma bebida, as barreiras tinham-se esfumado e sentiam-se felizes por isso. Não eram necessárias palavras, os silêncios eram mais eloquentes.
Á despedida, na porta do hotel, Glória aflorou com um beijo simples os lábios de Guilherme e sem se voltar, subiu ao quarto.
Enquanto olhava pela janela, foi pensando no breve encontro que tivera e no prazer que sentira. Eram muito diferentes, mas talvez por isso uma relação pudesse dar certo.
Também assim fora com Francisco. Ela desinibida, alegre e comunicativa, ele sóbrio, carregado de complexos e muito fechado e acabara como acabara. Mas não penso que tal se vá repetir. Guilherme, deu para ver, é como um livro aberto e ela já não era a rapariga impulsiva e ingénua que fora.
Reconhecia que era uma mulher de impulsos e, talvez pelos desenganos recentes, qualquer futura relação não podia ter equívocas. Mas, reconhecia, via em Guilherme alguém com quem poderia refazer a vida. Que estranho, pensava para si, qual é o sortilégio desta cidade, que em horas me fez despertar claros sinais de paixão, e quase me me fez esquecer a razão da minha visita?
Afinal, tal não havia já acontecido com Francisco?
Guilherme passou pelo hotel por volta das dez horas da manhã, caminharam alegremente de mão dada, almoçaram juntos num restaurante simples mas agradável. Como o ambiente era acolhedor Guilherme conseguiu que Glória lhe contasse a sua história pessoal, a sua amargura e o seu desejo de encontrar a criança que o marido não tivera oportunidade de conhecer.
Guilherme atónito, não conseguia compreender as justificações de Maria da Glória e abanava a cabeça dizendo:
- Minha boa amiga, a sua intenção cuja nobreza não discuto, é uma aventura cujo desfecho, só por um golpe de sorte não deixará de fracassar. Esqueça tudo o que se passou. Viva o futuro, regresse comigo e eu prometo-lhe toda a atenção e amizade de que for capaz. Você merece e pode ser feliz. E eu, digo do fundo do coração, gostaria de fazer parte da sua vida.
- Terá toda a razão Guilherme, mas eu receio que deixar um assunto perdido na poeira do tempo, mais tarde ou mais cedo, me venha a causar desgosto e mal estar. Para o meu equilíbrio emocional e para poder enfrentar o futuro, preciso de colocar um final nesta história. Pode não lhe parecer razoável, eventualmente até terá razão, mas eu sou assim.
Não vou aceitar regressar como me propôs. Fico, mas quando regressar, espero ouvir da sua boca as mesmas palavras.
Foi em silêncio que caminharam, de mão dada, até ao Bryant Park, onde se sentaram. Guilherme indicou-lhe o edifício que estava no lado oposto dizendo ser a Biblioteca, onde ele passava muito tempo em pesquisas sobre o seu trabalho. E isso deu-lhe uma ideia. Voltou-se para Glória dizendo:
- Já tenho uma solução. Veja bem, a Glória faz as suas buscas da parte da manhã, enquanto eu aproveito para naquela Biblioteca que lhe apontei coligir alguns dados, que preciso para o meu próximo estudo. Podemos combinar o nosso encontro para as dezasseis horas, neste mesmo lugar. Depois passaremos o resto do tempo juntos. Que lhe parece, podemos começar amanhã?
Glória não tinha como responder. Ela também sentia que a companhia lhe ia agradar.
Guilherme, entusiasmado, propôs levá-la ao hotel para descansar um pouco. Volto mais tarde, com a promessa de um programa bem diferente.
Assim, foram ver um jogo de basquetebol ali bem perto.
O companheiro que ela conhecera hesitante e envergonhado, era agora uma companhia livre e até com ironia. Virando-se para Glória lança o desafio. Se se atrever a dançar com este péssimo e desengonçado dançarino, vamos a um clube que me foi recomendado, que passa música de qualidade e assim para o romântico. Valeu?
- Claro, até parecemos um casal de jovens namorados.
Foi de facto uma noite diferente a que Glória não estava habituada mas que a fez vibrar como há muito tempo não sentia. Gritara o nome dos jogadores, aplaudia os cestos mais espectaculares, bebia cerveja por um copo de plástico. E depois deixou-se embalar pelos sons da música e, dançou, dançou, como se quisesse afastar todo o passado.
Subiram ao quarto, juntos pela primeira vez. Algo constrangidos, cruzaram olhares e beijaram-se. Havia uma chama que os aproximava, mas havia também,uma barreira invisível que não conseguiam ultrapassar. Guilherme, apercebendo-se da luta interior da companheira, perguntou-lhe em que pensava.
Glória, com ar ausente, respondeu:
- Meu caro eu penso em algo em que não deveria sequer pensar.
Guilherme, afagou-lhe o rosto com ternura e saiu.

domingo, 12 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO XIV - CENTRAL PARK

Ela, que não tinha por hábito jantar, foi ver a ementa do restaurante do hotel, pareceu-lhe interessante e decidiu que, para o primeiro dia, já tinha andado o suficiente e o melhor seria comer qualquer coisa ligeira.
Subiu ao quarto, trocou de roupa e vestida de forma elegante mas sóbria desceu pouco depois para a sala de jantar.
Quando regressou ao quarto, fugindo do bulício do lobby, abriu a televisão mas sem dar particular atenção ao programa que era apresentado, pegou no apontamento que tinha preparado sobre a segunda pista.
Anotada tinha a morada do marido, 240, E 71 th street, apartamento 8 e o nome dos amigos que Marjorie tinha indicado numa das cartas, June e Bill W.... Não seria grande pista, reconhecia, mas não a queria descartar. Podia ser que o porteiro ainda seja o mesmo e se lembre dele e da companheira, ou o casal June e Bill W qualquer coisa ainda lá viva, o que seria sorte demais.
Como a morada no Banco não ficava longe, colocou na mala o dossier respectivo já que tencionava seguir o caminho que, lhe parecia mais óbvio. Até se surpreendera porque tinha programado outras opções, quando a única pista com alguma probalidade de sucesso seria o Banco. Afina, ela enviava o dinheiro, podia cancelar tudo e até mudar de banco. Eles teriam de lhe dar respostas.
O telemóvel tocou, não reconheceu o número mas decidiu atender. Do outro lado uma voz de homem perguntava-lhe como estava e se ainda se lembrava do companheiro de viajem.
- Claro que me lembro Guilherme, respondeu Glória. A conferência correu bem?
- Sim, bastante bem e sinto-me recompensado. Não pude deixar de lhe dar a notícia porque a sua força e determinação me ajudaram. Amanhã vou regressar a Nova Iorque, se ainda não se esqueceu do que combinamos, gostaria de a ver e de sair a passear um pouco. Sei, por experiência própria, que para uma pessoa só, a cidade não é muito agradável. Pode ser Drª Maria da Glória?
- Claro que sim, mas tem de esquecer o Doutora. Só que tenho a manhã ocupada pelo que só nos poderemos encontrar à tarde. Que lhe parece?
- Para mim está óptimo, se não estiver muito longe podíamos encontrar-nos no Central Park, junto do memorial John Lennon.
- Eu penso que andarei ali por perto, pelo que estou de acordo com o local do encontro. Fica combinado, caro Guilherme, lá estarei. Boa noite e até amanhã.
Central Park, entendera bem o local do encontro. Que ironia, pensou com um sorriso algo amargo. Vou estar ali, onde tudo começara entre Francisco e Marjorie.
Levantou-se bem disposta e cheia de energia para o segundo dia da sua peregrinação. Mais uma vez decidiu ir subindo a 5ª avenida até encontrar o Central Park. Era ali que de tarde se iria encontrar com o Guilherme. Vai fazer-me bem pois terei alguém com quem conversar. Dali seguiu o mapa até encontrar a rua que procurava, que desceu até chegar ao edifício onde o marido tivera o apartamento. Hesitou em chamar a portaria, na realidade estar tão perto do local onde Francisco vivera o seu amor, trazia-lhe uma sensação estranha.Todavia, embora com pouca esperança, tocou a campainha e passado pouco tempo apareceu um porteiro fardado. Glória contou resumidamente, o que procurava mas o porteiro depressa a desenganou. Estava ali há pouco tempo e não conhecera Francisco. Quanto ao casal June e Bill Wright sim, ainda os conhecera, mas eles tinham optado por viver a reforma na Florida e tinham vendido o apartamento.
Agradeceu e afastou-se depressa do local. Não devia sequer ter vindo, pensava, porque há sempre uma ferida que reabre. Sentiu, que ao ter escolhido este pista, frágil como se provou ser, o teria feito por ciúme e alguma amargura.
A agência bancária ficava dois quarteirões abaixo. Apresentou-se e exigiu falar com o director. Insistiu e,com alguma relutância, apareceu um funcionário muito pouco simpático. Glória mostrou os documentos que levava e explicou que pretendia saber o endereço do titular da conta, sem o que, seria forçada a cancelar todas as operações com aquele Banco. Peter Gordon, “branch assistant” como constava do cartão que entregara, ausentou-se alguns momentos e voltou com um impresso que Glória deveria preencher e assinar. Esse documento irá ser submetido aos serviços Jurídicos do Banco, para apreciação. Mas não espere uma decisão antes de um mês respondeu com um sorriso irónico.
Glória, mantendo a calma e olhando, frontalmente o interlocutor respondeu:
- Meu caro e pouco educado senhor Gordon. Garanto-lhe que o senhor e o Banco irão ouvir falar de mim. E bem antes do que pensa.
Rasgou o impresso, arrumou aos documentos e saiu do Banco.
Desapontada com mais aquele insucesso, garantiu para si mesmo, que fosse como fosse, haveria de cancelar os contactos com aquele Banco. Prometo.
Almoçou nas redondezas, mais uma vez sem grande prazer e seguiu para o local combinado com Guilherme. Quando lá chegou, ainda não eram quinze horas, mas no meio das pessoas que circulavam na periferia do parque, logo vislumbrou o amigo que sobraçava um ramos de rosas.
Guilherme, como ela já percebera, era tímido e foi com algum nervosismo que lhe pediu para aceitar as flores.
Glória, não se conteve, esboçou um sorriso e disse:
- Obrigada Guilherme, gosto muito de rosas vermelhas, a cor da paixão.
O amigo ficou algo envergonhado e até a voz lhe saiu em surdina.
Depois, enquanto se sentavam num banco admirando as flores e as tropelias de dois esquilos, Guilherme soltou-se, começou por falar da conferência, com entusiasmo e de repente a contar a sua vida. Glória ficou assim a saber que ele era professor de literatura na Universidade do Porto, que tinha quarenta e nove anos, divorciado e a viver em Vila Nova de Gaia num pequeno apartamento que lá comprara. A família, mãe e mais dois irmãos continuavam em Vila Real onde ele costumava passar as férias de verão.
Era apaixonado por música clássica, muito especialmente por Mozart, Bach e Schubert, dizendo ter uma razoável colecção de discos destes compositores. Se a Glória também gostar de música, qualquer dia convido-a para irmos a um concerto. Aceitaria?
- Claro que sim, irei com prazer. E se formos andando, propôs enquanto me fala mais de si, propôs Maria da Glória?
- A minha vida é simples, gostos simples como um transmontano com alguma educação. Para além de ler e ouvir música, gosto de passear livremente pelos campos da minha terra, falar com as pessoas que vou encontrando, normalmente pessoas idosas, porque a juventude já há muito que abandonou as aldeias e fugiu para as grandes cidades. Mas tenho muito respeito pelos que ficaram e sempre que falo com eles sinto que aprendi qualquer coisa. A Glória, pelo contrário, parece-me uma pessoa muito urbana, com outros gostos e preferências pelo que a conversa com este camponês de alma, não lhe deve ser particularmente interessante.
- Aí é que o Guilherme se engana. Sou de facto nascida e criada em Lisboa, mas reconheço que as grandes cidades nos fazem perder a capacidade de ouvir os outros e com isso, não poucas vezes, nos afastamos da realidade, criando à nossa volta, um mundo fechado que nos aprisiona. E olhe que eu sei bem do que falo!
Guilherme interrompeu o passeio, olhou para o relógio e para Glória, exclamando! Já me esquecia de lhe dizer que comprei bilhetes para uma peça de teatro e para hoje. Com certeza que a Glória vai querer descansar um pouco pelo que lhe sugiro regressemos. Eu acompanho-a ao seu hotel, depois passarei, por volta das 19,30 e seguimos para o teatro. Parece-lhe bem?
- Sim tudo bem, ficarei à sua espera.

sábado, 11 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO XIII - RECORDAÇÕES

O táxi demorou bastante tempo até parar à porto do hotel. Pagou e não se esqueceu de dar a gratificação, que lhe haviam recomendado na Agência.
Gostou do quarto. Era amplo e estava mobilado com gosto.
Desfez a bagagem e quando acabou estava cansada, mas um banho de imersão seria o tónico que precisava.
Na banheira sentia o calor da água revitalizar-lhe os músculos, mas começou a ter dúvidas sobre a oportunidade da busca a que se propusera. Porém, depressa as afastou. Afinal o primeiro passo estava dado e agora só precisava estabelecer um critério e um caminho para encontrar os fios da meada, tarefa que não se lhe afigurava muito fácil.
Enquanto esperava que lhe servissem no quarto a refeição ligeira que tinha encomendado, sentou-se à secretária, a rever com mais atenção os apontamentos que tinha tomado ainda em Lisboa, com os caminhos que pensava seguir na sua procura.
Tinha preparado uma ficha para cada hipótese, com os dados que conhecia, sem estabelecer tempo para o seu seguimento. Sabia que para algumas lhe bastaria um dia mas para outras não acreditava fosse tão rápido.
Ordenou as fichas de modo a começar pelas mais fáceis, porque isso lhe permitia ambientar-se à cidade.
Pegou na ficha número um, tinha apenas o endereço parcial, do fotógrafo onde Marjorie tinha tirado as fotos que dera a Francisco, fografias que também levava.
Para começar no dia seguinte, pareceu-lhe bem, pois a rua não deve ficar muito distante do hotel. Em boa verdade não depositava grandes esperanças nesta pista. Dez anos depois seria pouco provável que o estúdio fotográfico ainda existisse e mesmo em caso afirmativo, se teria algum registo actualizado da cliente. Estava convencida que seria perder tempo, mas não queria deixar de tentar.
Separou o dossier do banco. Nele levava fotocópias legalizadas pela Embaixada, onde o Banco emitente certificava ser ela a titular da conta de origem dos fundos, com todos os poderes. Contava passar no banco em qualquer momento e tentar obter informações sobre a movimentação do dinheiro transferido e, principalmente, a morada de envio dos extractos bancários.
Deitou-se cedo, mas não dormiu bem. Muitos sonhos agitados, insónias e muitas preocupações. Na manhã, reparou que tinha marcado no rosto os sinais de alguma preocupação , e de uma noite mal dormida.
Ficou fixada no espelho. Não se revia na imagem triste que o espelho lhe dava e decidiu que precisava de fazer algo para recuperar o ar sereno e a aparência da mulher realizada, determinada e feliz que fora até há bem pouco tempo. O que lhe ia na alma era uma dor, que se nada fizesse seria a sua companheira para o resto da vida.
Desceu para o pequeno almoço, e foi à recepção, para pedir o plano da cidade. Reparou que, bem em frente da recepção o hotel tinha um salão de SPA. Entrou e aproveitou a manhã, para se submeter a um tratamento de estética.
Saiu e sentiu-se outra, mais jovem e mais leve. Passou por um espelho, e de relance espreitou a silhueta. Era impressão sua ou estava de facto uma pessoa diferente.
A sua primeira reacção, quando saiu do hotel, foi de esmagamento. A imponência dos edifícios, o número de pessoas a circular, era uma segunda feira de sol, lembraram-lhe, quanto diferente, era Nova Iorque das outras cidades Europeias, que conhecia. Sentiu um calafrio quando, começou a percorrer a E 50 na direcção da quinta avenida, mas depressa se descontraiu, e reconheceu para si, que afinal, até era capaz de vir a gostar da cidade.
Enquanto caminhava, tranquilamente, foi apreciando o movimento, mas notou que, pela maneira de vestir e comportamento um pouco anárquico, os transeuntes seriam na maioria turistas. Não pode deixar de reparar em muitas lojas vazias, outras encerradas, alguma apatia dos naturais, que era a marca duma crise económica que se sabia ter começado mas nem ninguém se atrevia a prever o fim.
Parou por minutos, espreitando as galerias exteriores da loja SACK’S. Gostou e registou que, era um local a visitar com mais tempo, ficava perto do hotel, e gostou particularmente, dos modelos de roupa feminina que estavam expostos. Registou que seria uma boa ideia, numa oportunidade, perder a cabeça e comprar um ou dois modelos, porque os preços eram agradavelmente atraentes.
Foi descendo a quinta avenida, até encontrar a E 45, que procurava. Dobrou a esquina e começou a percorrer a rua, olhando com atenção, na esperança de encontrar o fotógrafo, onde a Marjorie tirara as fotos que oferecera ao Francisco. Percorreu alguns quarteirões, mas da loja nem sinal. Era querer muito, pensava com os seus botões, que passados dez anos, tivesse a sorte de encontrar, e logo no primeiro dia, a loja em causa.
Como entretanto estava muito perto da Grande Central, entrou, admirou o tamanho, e a enorme confusão, de passageiros a entrar e sair pelas diferentes portas, o que lhe fez sentir, uma sensação de claustrofobia. Saiu na primeira saída que encontrou, mesmo em frente do edifício da Crysler. Já ouvira falar, que valia a pena subir ao alto para desfrutar da paisagem, mas não o fez, até porque lhe pareceu, que o mesmo estava encerrado.
Voltou para trás, desta vez subindo a Park Avenue, pois queria ver de perto o famoso hotel Waldorf Astoria. De frente para o mítico hotel, relembrou, quantos filmes vira, em que o hotel era também um protagonista. Já lá vão muitos anos, pensou consigo mesma.
O andar devagar, espreitando lojas, cansa mais do que parece.
Encontrou um elegante salão de chá, entrou e escolheu um lugar que lhe permitia saborear o chá que havia pedido ao mesmo tempo que espreitava o movimento na rua.
Já estava a gostar da cidade e ainda quase nada vira. Enquanto caminhava, pareceu-lhe encontrar lugares que lhe não eram desconhecidos, pois os lembrava de tantos filmes que gostara.De repente, pareceu-lhe ouvir a música de Henry Mancini, Moon River e logo a associou ao filme Breakfast at Tiffany’s. Continuou a subir a quinta avenida, até à W 57, pois, recordava, de ter visto no mapa, que era na esquina, que se encontra a famosa joalharia.
Durante o percurso, apercebeu-se que passava mesmo ao lado do MOMA. Fez um pequeno desvio e foi espreitar os cartazes, com o programa das exposições previstas no museu. Havia várias, mas anotou apenas, uma apresentação de obras de pintura da escola expressionista. Gostava muito da pintura desse período, e marcou na agenda de bolso, um dia para fazer a visita.
Chegou, finalmente, junto da famosa joalharia, andou a ver as vitrines mas, embora apreciasse uma bonita jóia, não se mostrou disposta a entrar e ver mais de perto. Ter estado ali, já lhe lembrara tempos idos.
Começava a ficar cansada. Pensava que não devia esquecer-se do objectivo da visita e por isso teria de se resguardar um pouco. Almoçou num restaurante sem nada que a fizesse voltar e regressou ao hotel para descansar um pouco.
Sentada numa poltrona do seu quarto de hotel, assinalou como sem resultado a primeira pista. Nem valia a pena continuar a procurar o estúdio de fotografia.
Dormitou um pouco, refrescou-se e voltou a sair com o objectivo de subir ao Empire State Building a dali assistir ao entardecer. Do alto, olhou para a grande cidade e deu-se conta que encontrar alguém naquele mundo, com as informações de que dispunha, iria ser uma tarefa quase impossível. Tirou algumas fotografias tentando apanhar o pôr do sol e a luz reflectida no topo de alguns edifícios, desceu e subiu a pé para o hotel.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – XII – NOVA YORK

Determinada a levar em frente o seu projecto, arranjou uma colega para a substituir no apoio às crianças institucionalizadas e foi à Agência de Viagens tratar do bilhete de avião e da reserva de hotel.
Sabia que o podia fazer via internet, mas preferia o contacto pessoal com gente que já conhecia e com quem simpatizava.
Decidiu seguir no voo Tap Lisboa/Newark com saída a 31 de Maio e regresso a 27 de Junho. Parecia-lhe que quatro semanas seriam suficientes para qualquer que fosse o resultado da sua procura, poder esclarecer a questão que a preocupava.Naturalmente, escolheu classe executiva para ter maior conforto, fundamental para quem, como ela, não gostava de se sentir fechada num espaço reduzido. A Agência ficou de tratar da obtenção do visto para os Estados Unidos e fazer a reserva para o hotel que ela escolheu, um hotel clássico, o New York Palace Hotel perto da E,50 street. Ficava, assim perto dos grandes estabelecimentos de moda, admitindo ser-lhe mais fácil a busca de Marjorie.
Marcou uma consulta para o médico assistente, pedindo um check up e os medicamentos que lhe permitissem combater a ansiedade do primeiro voo. O médico recomendou-lhe o medicamento aconselhável, mais um calmante para qualquer situação de emergência. Garantiu que ela gozava de excelente saúde. De resto, desejou-lhe boa viajem, dizendo ter a certeza que ela se não iria esquecer das férias naquela cidade.
Os preparativos para a viajem incluíram também uma revisão do guarda roupa, renovando quer nas cores quer no estilo. Ousou mudar e sentiu-se bem. Teve particular atenção com o calçado, prevendo longas caminhadas. Mas não esqueceu sapatos para utilizar com a roupa mais elegante.
E lá partiu, contando às amigas que ia passar um mês em casa de velhas amizades, evitando dizer o local.
O dia da viajem chegou. Glória sentiu a ansiedade do momento e o stress das formalidades de embarque, a inspecção à bagagem de mão, etc .Porém, logo que a hospedeira a acompanhou ao lugar, a ansiedade e o nervosismo diminuíram. Cómodamente instalada no seu lugar, que considerou óptimo, bebendo uma taça de champanhe, que a chefe de cabine lhe tinha oferecido, até esqueceu o medo de voar e nem tomou o medicamento para o enjoo. Estava calma e ao mesmo tempo entusiasmada, como se fosse partir numa aventura e isso era mesmo aquilo que ela precisava para dissipar as nuvens que ainda pairavam sobre a sua memória. E depois, tanta gente lhe dissera que Nova York era uma cidade especial, que quer se goste ou não, nunca se esquece.
Quando o avião descolou, sentiu afinal, algum receio e desconforto. Fechou os olhos, apertou com força os braços do cadeirão, recostou a cabeça e pouco a pouco foi relaxando até se sentir mais tranquila.
Depois de servida a refeição a bordo, que tinha uma qualidade bastante aceitável, e como não conseguisse dormir, distraiu-se um pouco com um dos filmes projectados, e foi observando os companheiros de viajem. O do lado oposto, principalmente, mereceu-lhe mais atenção. Era um homem, de meia idade, algo calvo, óculos bifocais que lhe davam um ar de professor. Olhava para o vazio, semicerrava os olhos e de repente escrevia furiosamente, martelando as teclas de um computador portátil. Depois fazia uma pausa, e parecia apagar o que antes tinha escrito. Quando o observava, ele levantou o olhar das teclas, encarou-a, com um sorriso, dizendo:
- Já escrevi e reescrevi o texto um sem número de vezes e ainda não me sinto satisfeito. Apanhada em flagrante Maria da Glória, sorriu envergonhada, dizendo:
- Desculpe, mas sei por experiência própria que por vezes, mais vale esquecer o que se escreveu, e só voltar a ler passado um tempo. Dizem que assim o texto fica mais claro e consistente.
- É capaz de ter razão, respondeu o companheiro de viajem. Na verdade, já fiz tantas correcções e alterações que a introdução está, cada vez mais, sem sentido. Mas, sabe isto é fruto do nervoso e da ansiedade. O trabalho é uma comunicação que fui convidado a fazer, e logo na Universidade de Harvard. Tenho medo de falhar, confesso.
- Olhe, respondeu Glória, eu cursei medicina e também tive a oportunidade de apresentar trabalhos sobre a minha área, Pediatria. Também tive medo de falhar e por isso fui recusando os convites. A certa altura, porém, convenci-me que só falha quem não tenta. Tentei e o trabalho foi reconhecido e publicado numa prestigiada revista médica. Esta é a minha primeira viajem de avião, porque tinha medo de me sentir enclausurada e ficar doente. Apesar das insistências, nunca o fiz antes, e a vida ensinou-me que não devia ter desistido. Faço-a agora, por motivos pessoais, e, afinal sinto-me tranquila, mas revoltada por o não ter tentado, em vida do meu marido. Venho em turismo, é certo, mas também à procura do tempo perdido e das ilusões desfeitas.
- Quer dizer que vai ficar na cidade por algum tempo. Sem querer ser mal interpretado e como depois da conferência ficarei algum tempo em Nova Iorque, sem programa e sem obrigações, gostaria de a voltar a ver e de lhe contar como correu a minha conferência. Poderemos conhecer-nos melhor, tomar uma bebida e passear pela cidade. O que me diz?
- Aceito com prazer, aqui tem o meu cartão com o número de telefone. Ligue-me se e quando puder e logo veremos, respondeu Glória.
O companheiro de viajem, feliz mas um pouco envergonhado com a sua ousadia, procurou nervosamente na carteira até encontrar o seu cartão pessoal que estendeu, de forma algo tímida a Maria da Glória. Respirou fundo quando esta o aceitou, lhe deu uma espreitadela e o guardou, com um sorriso.
Glória aproveitou para fechar os olhos e descansar e assim o tempo de voo pareceu mais curto.
A chefe de cabine, anunciou pelo sistema de comunicações que o avião ia iniciar a descida para o Aeroporto de Newark. Pedia por isso que se mantivessem no lugar e apertassem os cintos de segurança.
A descida, demorou tempo demais, pensava Maria da Glória, tensa até sentir o momento do encontro das rodas, com a pista. Quase não se apercebeu do impacto, pois logo ouviu a informação de que haviam aterrado, pedindo se conservassem no lugar até que a aeronave se imobilizasse. Deu também informações sobre a hora local, temperatura, etc.
As formalidades de desembarque levaram o seu tempo, esperou a chegada da bagagem e ficou preocupada a olhar para as duas malas que teria de transportar até ao controlo alfandegário. O companheiro de viajem, com quem conversara a bordo, aproximou-se empurrando um trolley que lhe entregou.
- Desculpe, mas acho que vai precisar deste carrinho para as suas malas. A mim não me faz falta, pois viajo com pouca bagagem. Digo-lhe que estou confiante que a comunicação vai ser bem aceite. O que escrevi, está escrito e não tenciono rever o texto, para que a minha insegurança, não me impeça de arriscar. Isto aprendi consigo Maria da Glória.
-Guilherme, fico obrigada pela sua gentileza e
não se esqueça, quando não arriscamos uma vez, pode não haver outra oportunidade. Agarre a sua e vai sair-se bem. Entretanto fico à espera de, como prometido, nos voltarmos a encontrar.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO - XI - RECOMEÇAR

Maria da Glória sentia-se numa encruzilhada. Parar e esquecer era o caminho que o bom senso ditava. Já conhecia a paixão de Francisco e as suas consequências
Mas, ela queria ir além. Não conseguiria recomeçar a sua vida sem encerrar este assunto, porque sentia culpa por não se ter apercebido do sofrimento do marido, desde que recebeu a notícia de que era Pai e até à sua morte. E agora até admitia, como teria sido fácil para ela, levá-lo a confessar o segredo e a pedir ajuda. Acreditava que fora isso que Francisco tentara fazer antes de morrer.
Tirou o sobrescrito seguinte, não tinha qualquer indicação. Abriu com cuidado e encontrou duas fotografias de uma mulher jovem e bela uma de perfil outra de frente. Notava-se que estariam emolduradas, pelas marcas nas margens. Eram as que ele tinha trazido de casa. Tinham ambas uma dedicatória “Para o amor da minha vida” – e “ Deus como te amo” e a data de 20/12/1996.
As fotos tinham sido o presente pois o dia era o aniversário de Francisco.
Eram fotos de estúdio mas, já não se percebia bem o nome. Só que ficaria na E, 45.
Abriu mais um envelope. Protegida com papel à sua volta, outra fotografia. A mesma mulher desta vez com o marido, olhando-se com um sorriso de felicidade. No verso estava escrita a data,”Cape Cod – Fall 1997.”
O último envelope continha ainda mais fotografias, mas de recortes de revista, mostrando Marjorie, desfilando durante a semana da moda em Nova York, apresentando criações de um costureiro muito conhecido. A revista era a Vogue.
Guardou os envelopes com as fotos, e o sobrescrito com as cartas que fora lendo, numa gaveta da secretária que fechou à chave.
Ouviu o telefone tocar na sala. A empregada atendeu, e passado um momento, bateu à porta do escritório perguntando se podia entrar. Minha Senhora é o Dr. Leandro que lhe quer falar. O que lhe digo?
- Diga-lhe por favor que eu já vou atender. Peça só dois minutos.
Limpou o rosto, ajeitou o cabelo respirou fundo e foi atender na sala.
- Leandro, as minhas desculpas por tê-lo feito esperar, mas estava entretida a ler e devo ter adormecido, por breves momentos.
- Por quem é Maria da Glória, não é preciso desculpar-se.
Olhe minha amiga, telefono para lhe perguntar se ainda está interessada naquele assunto, que falamos na última vez ou se decidiu, espero sinceramente que sim, esquecê-lo de vez?
-Não esqueci, Leandro, continuo a minha busca da verdade.
- Então se estiver disponível, podíamos combinar um encontro para amanhã, por volta das quinze horas. Veja, se o dia e a hora são do seu agrado ou se prefere que eu passe pela sua casa.
- Leandro para mim está óptimo, às quinze horas de amanhã no seu escritório. Sabe, também me faz bem sair.
– Fica então combinado, respondeu o Advogado:
- Até amanhã, os meus cumprimentos.
Passou mais uma noite difícil, assaltada por pesadelos. Neles aparecia Francisco sangrando e ouvia o choro de uma criança, pedindo ajuda. Levantou-se cedo, disposta a dar um rumo novo à sua vida. A continuar assim, reconhecia, caminharia para a depressão e a loucura.
A transformação começou logo no vestir. Abandonou as cores escuras, voltou a preocupar-se com o aspecto exterior e marcou uma sessão com a esteticista do costume.
Quando reentrou em casa, olhou-se no espelho e sentiu que o primeiro passo estava dado. Estava diferente, reconhecia, e uma forte determinação era já visível no seu olhar. Tratar do corpo e depois da mente, foi o caminho que escolheu.
Voltou a sair de casa para tomar o táxi, e seguir para o escritório do Advogado, de certo modo intrigada com o que este lhe iria dizer. Provávelmente, vai-me contar algo que eu já sei mas, pensou, não fará mal ouvir até para constatar a sua sinceridade quando me disse pouco conhecer sobre a vida do Francisco em Nova Iorque.
Depois dos cumprimentos Maria da Glória, sentou-se na cadeira, respirou fundo e olhando de frente para o Advogado disse:
- Pronto aqui estou para ouvir o que tem para me dizer!
O Advogado hesitou um momento, mas percebeu pela tranquilidade que Maria da Glória aparentava, que ela já devia conhecer o segredo. Evitou perder tempo e foi directo ao assunto.
- Maria da Glória, eu já consegui informações, sobre o destinatário da transferência de fundos, que o seu marido vinha fazendo, de há dez anos a esta parte. Tenho um amigo nos Estados Unidos que conseguiu saber que o dinheiro é creditada numa conta em nome de Anthony Berthier. Disse-me ainda que a referida conta, tem condições especiais de levantamento. Assim, os fundos só poderão ser mobilizados pelo beneficiário, quando este atingir os dezoito anos de idade, para o pagamento da Universidade que ele vier a frequentar. Tem regras muito rígidas sobre essa mobilização. O levantamento parcial e antecipado é permitido, mas só com o acordo escrito do ordenador ou de quem o substitua, com poderes para o acto.
Era isto que eu lhe queria comunicar, mas pelo seu semblante, a informação que lhe dei não constituiu uma grande surpresa, ou estarei enganado?
- Não meu caro, não está enganado. Eu só não sabia as instruções sobre a mobilização dos fundos. Quanto ao beneficiário, já imaginava, pois é o nome do filho do meu marido, fruto de uma ligação, que ele teve com uma mulher, quando esteve aqueles dois anos em Nova York. Veja bem, eu encontrei correspondência escondida, onde a história é evidente. Toda ela. Chorei de dor, à medida que ia desvendando o mistério. Sofri muito, de tal modo que, muitas vezes, me arrependi de não ter seguido o seu conselho, e deixar o segredo, ficar como tal, para sempre. Mas hoje, já recuperei desta fase horrível porque passei, fico feliz por não ter desistido. O maior desejo do meu marido era ser Pai e eu nunca pude, por razões biológicas, dar-lhe essa felicidade. Acabou por o ser, mas de um filho que nunca lhe foi permitido conhecer.
O Francisco apaixonou-se, mas não foi capaz de assumir esse facto, perante mim. Fugiu e escondeu-se. Fez sofrer a mulher que abandonou em Nova York e fez-me sofrer a mim, quando, após a sua morte, venho a conhecer toda a verdade. Mas a dor dele também não foi pequena. O filho nasceu e cresceu sem conhecer o Pai e sem que ele, ao menos uma vez, o tivesse visto. E Francisco não resistiu. Ele não era psicologicamente muito forte, foi-se fechando e morrendo pouco a pouco. E eu não me apercebi a tempo, como agora lamento.
Eu já não sinto a raiva de uma mulher traída. Isso é passado.
Agora sei que existe um inocente envolvido neste drama, o jovem Anthony que deverá ter aproximadamente dez anos e nunca conheceu o Pai. Não sei como e onde vive, vou continuar a cumprir a ordem de pagamento, mas preciso, é imperioso mesmo, fechar este dossier para retomar a minha vida na sua plenitude. Para isso preciso de tentar encontrar a mulher por quem Francisco se apaixonou e o filho. Depois entregarei a parte da herança que lhes cabe e seguirei o meu caminho. Recomeçarei a minha vida.
- Maria da Glória, eu sempre soube que a você é dona de um coração de oiro, e juro-lhe que o Francisco, nunca me contou nada. Mesmo, quando me pediu conselho sobre o modo de enviar dinheiro, nunca me disse para quem e porquê, embora eu tivesse achado peculiar o seu pedido. Entre os homens, existe um qualquer sentido, que nos leva a perceber, quando um amigo escorregou e se deixou enredar nas teias da sedução, de uma outra mulher. Eu receava, que ao Francisco tivesse acontecido, alguma coisa no género e imaginei até, que o dinheiro fosse para pagar, uma chantagem.
Era esse o meu receio maior.
-Glória pense bem antes de se aventurar a ir a uma cidade tão grande como Nova York à procura de uma mulher que só conhece por fotografias com mais de dez anos. Admito que, com sorte, até possa encontrar a antiga companheira do seu marido, e passados estes anos, quem lhe garante que ela não refez a sua vida com outro homem?
Pode acontecer que a Glória, com a sua generosidade, possa vir a criar uma situação embaraçosa. Pense melhor, fique por aqui, não se esqueça que o tempo tudo cura. Viva a sua vida minha cara amiga, deixe os outros seguirem o caminho que, bem ou mal, escolheram.
- Leandro tudo o que disse pode ser verdade. A minha viajem até pode ser um rotundo fracasso, mas eu não ficaria bem comigo mesma se, pelo menos, não tentasse.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – X – MORRER DE AMOR

No dia seguinte, com a ferida ainda em aberto, mas preparada para tudo continuou a leitura.
Carta nº. 6, datada de 20 de Novembro de 1998
Traduzido o texto, dizia:


“Francisco
Não vou sequer comentar a tua última carta. Acredita, já não vale a pena.
O meu sonho de amor, foi destruído pelas razões que sabes.
Morreu, ficou a dor que me consome. Mas em breve o meu coração estará, outra vez, cheio de ternura e amor. Porque eu trago no ventre o fruto da nossa paixão.
O teu sonho, o meu sonho, vai realizar-se em breve.
Só soube que estava grávida, quando estava em Los Angeles. Fiquei tão feliz que só queria voltar para te dar a notícia e partilhar a alegria de trazer no ventre o fruto do nosso amor, viver e sentir a tua felicidade.
Mas tu já tinhas fugido e escolhido o teu caminho.
É verdade, acredita que trago dentro de mim uma nova vida. Quantas vezes tu me disseste que era o teu sonho ser Pai. Pois bem, vais sê-lo, mas no nascimento indicarei como sendo filho de Mãe solteira. Prometo que lhe darei o amor e o carinho que for capaz. Quando ele, mais tarde, vier a perguntar pelo Pai eu direi, simplesmente, morreu.
É um rapaz, sei agora, e quando nascer receberá o nome de Anthony, como o avô.
Não te dou esta notícia com a alegria que esperava. Sei que te vou fazer sofrer mas guardar este segredo era exigir mais de mim. Não fui capaz, e perdoa-me por isso.
Finalmente, quero dizer-te, que razões muito fortes, me levam a abandonar o nosso antigo apartamento. Ele continua vazio e frio, cada dia menos acolhedor. Ainda vejo sombras e fantasmas e não aguento mais.
Vou mudar-me, compartilhar um apartamento com uma colega de trabalho e assim, sempre me sinto menos só. A morada, bem a morada não ta vou dar.
Esquece que um dia me conheceste. Esquece as juras e promessas que fizeste. Esquece que eu existo, não me procures nunca mais. Eu vou tentar reconstituir a minha vida. Nos momentos de saudade, procurarei no rosto do meu filho os sinais de alguém que tanto amei e tanto me fez sofrer.
O destino prega-nos partidas. Vê bem, no final da nossa história fui eu, a abandonada, que ficou mais rica.
Adeus para sempre. Sê feliz.
Marjorie Berthier
New York, Novembro, 16, 1998.”

Maria da Glória já não reagiu a esta notícia. No fundo não tinha sido uma surpresa. O marido fora Pai, a maior alegria que lhe podia ser dada e ela, Glória, não conseguira. Mas pagou por isso um preço muito alto. Ver desabar uma vida, nunca é fácil.
Apesar de muito abalada com toda a história de mentiras e traição que tinha desvendado, não obstante o profundo desgosto e desilusão que sofrera, lamentava, do fundo do coração, a dor silenciosa que Francisco carregara até à morte.
Agora, teria de acabar a leitura, pois compreendeu que o dinheiro que Francisco enviava mensalmente para os Estados Unidos, era para o filho. Que situação mais absurda a vida lhe reservara. Sentia pena, muita pena pela criança que não tinha culpa de ser filha de um Pai cobarde e sem coragem de o assumir.
Carta nº. 7 datada de 30 de Novembro de 1998.
Abriu e como de certa maneira já calculava, era uma carta do marido, que tinha sido devolvida ao remetente, com a observação de que o apartamento não estava habitado. Mas leu.


“Meu amor,
Como eu gostaria de saber escrever cartas de amor. Mas não consigo, faltam as palavras.
Queria conseguir, passar ao papel, a emoção, a tristeza que me vão na alma. É, como se de repente, algo em mim se apagasse, e ficasse um enorme vazio, que nada nem ninguém poderá preencher.
Mas não , não consigo sequer pensar, o que te dizer.
Dizer que te amei como nunca pensei amar alguém, não chega.
Dizer que sinto a falta dos teus carinhos, da tua ternura, do teu corpo, provavelmente nem vais acreditar.
Dizer que me entreguei de corpo e alma, é pouco pois foi muito mais do que isso.
Dizer, que lembrar os momentos que passamos, duma paixão tão intensa, e que me levaram quase à loucura e que esse sentimento tão profundo, de desejo quase irracional, me assustou, é verdade.
Confessar, que fugi, por recear não ter coragem de partir, também é verdade.
Jurar, que não voltaria a fazê-lo, mentiria, pois não tenho a certeza.
Existem em mim, duas pessoas diferentes e em conflito. Uma, a que eu era antes de te conhecer e outra, a que me tornei depois. Este conflito acabará, por, mais tarde ou mais cedo, me destruir.
Errei, fui cobarde eu sei. Procederia de maneira diferente, não posso afirmar-te. Eu respeito a minha mulher, companheira de tantos anos. O receio de a fazer sofrer foi mais forte que o desejo de ficar contigo. Fiquei sempre dividido, entre duas mulheres maravilhosas, e reconheço que eu não as mereci.
Pode parecer estranho, mas eu compreendo que a tua decisão de me negares a paternidade do nosso filho, seja uma punição que o meu comportamento merece.
Eu sei que te feri, que te desiludi, mas nunca te enganei. Tu sabias da minha situação e quando me perguntaste, se deixaria tudo para trás para ficar contigo, eu disse-te, olhos nos olhos, que não sabia, se seria capaz.
Por tudo o que vivemos, pelos sonhos que sonhamos, pela dor que te causei, peço perdão.
Eu perdi-te a ti, e agora vou perder um filho.
Tens razão, afinal o grande perdedor, sou eu.
Mas lembra-te, é o que te peço, do futuro da criança que trazes no ventre. Eu posso não merecer ser o Pai, mas quero do coração, que ele partilhe, daquilo que eu posso dar e a que ele tem direito.
Eu quero constituir um fundo em nome dele, para garantir a sua educação. Deixa-me fazê-lo. Em nome do que fomos, não te peço mais nada.
Francisco
Lisboa, 23 de Novembro de 1998

Já não havia mais cartas, restavam as fotos para ver noutra altura. Agora não conseguiria. E pensou que, como médica sabia a razão clínica da morte do marido. Como mulher só agora compreendera que ele morrera de amor.