sábado, 10 de dezembro de 2011

UMA NUVEM NEGRA

                                                             Edvard Munch

Era um sexta-feira no final de mês de Outubro do ano 2010. O dia estivera chuvoso triste e frio mas no final da tarde o sol conseguiu romper as nuvens e começou a descer no horizonte, escondendo-se por detrás do mar azul e revolto.
O vento soprava de norte e ao longe, por sobre a serra de Sintra e Bernardo, sentado ao volante do seu automóvel, deu pela aproximação duma nuvem negra, que lentamente se deslocava tingindo de escuro a encosta da serra.
Bernardo parou o automóvel num carreiro perto da estrada para o Guincho. Era o único carro à vista para os automobilistas que circulavam na estrada, e que para ele olhavam com um sorriso.
Não era surpresa ver um carro imobilizado naquele promontório. Era um lugar escolhido para encontro de namorados.
Todavia naquela tarde, quase perdido naquele local pouco acessível dentro do carro não estava um casal apaixonado.
Estava Bernardo, só com os seus pensamentos, as suas amarguras e o seu desespero. Só, apenas acompanhava a beleza do sol que se escondia.
Um condutor circulou lentamente pela berma da estrada afrouxou para dar uma espreitadela. Olhou para o amigo do lado e entenderam-se. Conseguiram ver que dentro do carro apenas estaria uma pessoa que, fumava cigarro atrás de cigarro. Não viram mais movimento e acabaram por parar longe, mas de maneira que pudessem vigiar o movimento do ocupante da viatura.
Eram dois homens, jovens de ar suspeito e a sua presença ali não era fortuita ou sequer ocasional. Andavam por ali, procurando um casal pouco previdente, que pudessem assaltar sem correr risco.
Era a sua forma de agir, já tinham sido identificados pela Polícia mas não desistiam. Trocavam de carro, roubado nas ruas de Cascais, e conseguiam despistar a Polícia.
Aquele carro isolado podia ser um alvo fácil. Esperaram que o sol se escondesse.
E o sol foi descendo e a nuvem negra começou a fazer pairar a sombra sobre o mar azul.
De repente o condutor do automóvel que vigiavam, abriu a porta e saiu para fora.
Deu alguns passos na direcção das rochas onde as ondas se desfaziam, parou acendeu mais um cigarro, que fumava lançando o fumo em espirais que se iam diluindo no ar.
Bernardo acabou o cigarro, virou-se e ficou de frente para o automóvel dos assaltantes, parado alguns metros além. Não fez um gesto sequer, olhou como se não tivesse visto, acendeu novo cigarro e entrou para o carro. No mesmo momento o sol escondera-se e a nuvem negra tomara conta do lugar.
Luís e Fernando, os assaltantes tiveram medo. Qualquer coisa lhes dizia para fugir. Ligaram o motor, engrenaram a marcha a trás para retomar o caminho principal e ao passarem mais perto do automóvel ouviram um ruído seco, que já conheciam. Ouviram um tiro. Aceleraram e fugiram.
No carro, Bernardo havia decidido mergulhar na noite, e com um lágrima furtiva, encostou a pistola no peito e disparou.
A cabeça caiu sobre o volante e premiu o cláxon. O som estridente, parecia um grito de revolta e dor, rompeu a quietude do local e tocou, tocou até que de repente se calou. Como a vida do Bernardo, também o grito se esgotara.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO

                                               Manuel Gargaleiro

17 – NOVA IORQUE

            Paulo fugira do Paraíso que ajudara a criar. Ainda tinha dúvidas sobre o seu comportamento com as duas amigas que tinha encontrado nas férias de verão. Lamentava sobretudo não ter tido a coragem de enfrentar Li mas as feridas do passado não estavam ainda cicatrizadas.
A colega Marie com quem partilhara a execução do projecto e também o leito, cansara-se. Não teve qualquer problema em lhe dizer que gostava de ter sexo, mas com paixão e pelo menos com entrega. Paulo era apenas a parte física, nunca se entregara e parecia até sentir alívio sempre que a relação terminava.
Ela não entendia, até admitira que talvez a culpa fosse sua, ela não conseguira despertar a paixão do companheiro e logo, não seria a mulher que Paulo precisava. E daí o fim da relação seria inevitável.
Fora ainda mais frontal, dizendo que o problema de Paulo, e existiria um problema, seria de ordem psicológica, que ou ele ou enfrentava ou lhe arruinaria a vida.
Apesar do conselho, Paulo continuou metido no casulo em que se encerrara largos anos atrás. Reconheceu que a atracção por Li, fora na realidade o fascínio por uma mulher exótica, que mais tarde ou mais tarde acabaria por se esfumar. Ele fugia do amor.
E bastou algum tempo afastado para se esquecer e ter decidido acabar o que, na realidade, nem sequer tinha começado.
Falou com o Primos, arranjou um substituto, fez as malas e seguiu para Nova Iorque. Escolheu um pequeno hotel no centro de Manhattan, fez amizade com o proprietário e, quase sem querer foi convidado a dirigir o hotel. O desafio, mais um, seria o de reformular o interior mantendo a traça original, uma questão que exigia muito cuidado e bom gosto.
Paulo aceitou sem hesitar. Procurou um apartamento, encontrou um na zona de Chelsea, alugou para ele e para receber a Irmã que estaria para chegar.
Cecília chegou pelo Natal. Vinha feliz, cheia de sonhos.
Para uma jovem como ela, a cidade era um mundo para descobrir. A sua alegria e entusiasmo foram um bálsamo para Paulo. Ainda estava na fase de discussão do projecto de arquitectura, tinha algum tempo livre e passearam pela cidade.
A noite de Natal foi diferente. Pela primeira vez, ao fim de alguns anos, Paulo voltara a sentir o calor da família. Eram dois irmãos que estando sós tinham tempo para partilhar recordações. A certa altura, Cecília, a irmã rebelde, perguntou ao Irmão mais velho o que se tinha passado entre ele e o Pai para que ficassem tão distantes.
Paulo olhou nos olhos de Cecília, e assumiu contar a sua infância, as feridas não cicatrizadas, a solidão e o desespero.
Fixou o olhar longe, como perscrutando as memórias do passado e começou a falar:
- Penso que nunca ouviste falar duma irmã mais velha, chamava-se Felisbela. Era muito doente e o Pai encontrou uma raparia numa aldeia distante e levou-a para nossa casa para lhe fazer companhia. Era uma rapariga da mesma idade e foi ela que acompanhou a nossa Irmã até à sua morte e foi a minha única amiga. Eu tinha quatro anos quanto Felisbela morreu e a partir daí, fiquei ainda mais ligado a Madalena.
Mas o Dr. Frederico, o nosso Pai começou a perseguir a minha amiga. Ela era agora uma rapariga muito bonita e o nosso Pai não tinha escrúpulos. Um dia ,em que eu estava no quarto dela ouvindo uma história, ele entrou de rompante, eu escondi-me  debaixo da cama enquanto ele violou a Madalena. Eu tinha sete ou oito anos, ouvi o choro e os gritos da pobre rapariga, ninguém ouviu e eu, o seu único amigo, teve medo e ficou escondido.
O nosso Pai saiu prometendo voltar mais vezes e eu que assisti à violência, fugi e nunca contei a ninguém.
Mas um dia Madalena fugiu e eu nunca mais a encontrei. E eu passei a viver com a vergonha e o ódio.
No meu aniversário dos dezoito anos, o Pai embriagado, tentou que eu o acompanhasse num passeio. Ganhei coragem e acusei-o da violação da minha amiga. Tinha guardado aquele segredo, mas o ódio crescera e não me contive. Bati-lhe com toda a raiva acumulada ao longo de mais de dez anos.
A partir desse dia fiquei sem Pai e ele sem filho. Tudo o mais foi fingido. Mas toda a cena me perturbou e ainda perturba, tantos anos depois.
Paulo parou, olhou para a irmã que tinha o rosto coberto pelas mãos e tremia enquanto soluçava. Ela percebera o drama do irmão e apenas dissera, num abraço sentido:
 - Esquece, não te martirizes mais. O Pai está velho, já não é a mesma pessoa, faz por lhe perdoar. A Madalena, a tua amiga, certamente seguiu a sua vida e também esqueceu.
Paulo chorou, nem se lembrava de ter chorado desde aquela malfadada noite em que ainda criança, ouviu o pedido de ajuda e teve medo. Como ele desejara a morte do Pai. Com as lágrimas e o carinho da irmã, tinha finalmente escorraçado o ódio que tinha acumulado. Cecília fora o apoio que ele precisara para retomar o gosto de viver e de amar. Tinha vinte e oito anos de idade, vinte dos quais de revolta e dor.

FIM




domingo, 4 de dezembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO

                                                              PAULA RÊGO

16 - VOLTAR DE PÁGINA

A noite havia sido uma provação. Sonhara tempos passados, ela e a Mãe, faziam a festa e eram felizes. Não havia mais nada nem ninguém que perturbasse aquela união tão forte entre as duas.
Acordou estremunhada, o sonho acabara e olhava em redor da sua vida vazia. O dia amanhecera com uns tímidos raios de sol a iluminarem a neve nos telhados, nas ruas e lá ao longe o pico das montanhas.
Preguiçou, ainda era muito cedo, não havia movimento nas ruas, mas de repente Bárbara sacudiu o torpor, afastou as lembranças e preparou-se e saiu de casa, vagueando ao longo do cais. Encontrou aberto um café que já conhecia, entrou encomendando o pequeno almoço e sentou-se na mesa do costume. Os empregados estavam alegres e felizes. Os sorrisos fizeram-na sentir menos só.
Aproveitou para continuar a ler o pequeno diário que a Mãe deixara.
Voltou a página.
Não era um diário cronológico era sim um história de vida, sem datas, só dias passados entre a alegria, pouca e a tristeza, muita.
Alguns dos textos não eram legíveis, muitas palavras manchadas, frases riscadas com força como se a Mãe tivesse querido riscar a própria vida.
Recomeçou a ler e com tal força que, acabou por assumiu a protagonista. Não estava a ler mas a viver, devorando as frases com vontade de chegar ao fim. Sabia o que a Mãe lhe havia contado, reconhecia que a verdade podia doer, mas de uma vez por todas tinha que saber. Não era Bárbara de vinte e quatro anos de idade, era a  voz da Mãe, uma jovem adolescente, que sangrava aquelas palavras escritas.
E recomeçou!
“ Com a morte da pobre Felisbela, por quem chorei lágrimas sentidas, pensei que os meus serviços iriam ser dispensados.
Não foi assim, tinha treze anos de idade mas passei a desempenhar os serviços de ajuda na cozinha e na limpeza da casa. Quando, depois de um dia de trabalho, regressava ao meu refúgio, levava comigo o desespero, o cansaço e a vontade de ser livre. Mas sobre as grades da cama tinha uma campainha que tocava de dia ou de noite, sempre que alguém precisava dos meus serviços.
Pele primeira vez, conheci a família que servia.
A Senhora era tão fria como um bloco de gelo, até para um filho de dois anos, gerado sem amor e permanentemente indisposta com outro filho que carregava no ventre.
O marido Dr. Frederico, era um homem mais simpático mas passava o tempo em viagem, dizia, cuidando das propriedades da família.
Conheci uma simpática senhora, a Dona Mercedes, tia da dona da casa e que era convidada de vez em quando, como ela me dizia, apenas para completar o lugar, eventualmente, vazio na mesa.
A Dona Mercedes fora professora. Gostava de mim e eu gostava dela. Foi com ela que, às escondidas fui lendo e estudando. Tinha quinze anos de idade e a Dona Mercedes preocupava-se com o meu futuro. Falou-me muitas vezes que teria que evitar o Dr. Frederico. Ele não é boa gente a aproveitará a tua inocência para abusar de ti. Tem sempre a porta do teu quarto fechada e sem não tiveres chave utiliza a cadeira como segurança. Ao ouvires alguém tentar entrar, grita com toda a força, alguém te poderá ajudar.
Eu confiei naquela bondosa senhora e contei o meu desejo de fugir. Ela deu-me um cartão com a morada da filha, e algum dinheiro, recomendando que devia fugir de casa e procurar a morada da filha. Ela me ajudaria.
Dona Mercedes pediu ajuda para a criança perdida naquela casa. Era o filho dos Patrões,  uma criança triste com pouco mais de quatro  anos e eu passei a ser para ele o colo amigo, que ele nunca conhecera.
Ele era o irmão que eu não tivera e a quem contava as histórias que ia lendo nos livros que a Dona Mercedes me dera.
Mas Dona Mercedes partiu, e eu fiquei chorando. Só o Paulito pegava na minha mão e me pedia para não chorar. E dizia entre lágrimas que estaria sempre comigo.
Deveria ter fugido naquele dia. Mas tive medo e deixei-me ficar presa nos braços de uma criança.
Mais tarde, o Dr. Frederico passou a vigiar-me de perto, com o pretexto de também acompanhar o filho. À noite e  por mais do que uma vez, dei por ele rondando a porta do meu quarto. Mas eu tinha seguido o conselho da Dona Mercedes, a porta estava fechada e trancada com uma cadeira.
Foram dois anos de pavor, de inferno. Até que um dia, tinha acabado de fazer dezasseis anos
Bárbara parou. A frase ficara inacabada e a seguir o vazio.
As páginas seguintes tinham sido arrancadas, mas teve um pressentimento de que conseguiria completar a história de Madalena, a sua Mãe. Precisava apenas de juntar alguns detalhes e confirmar com outra pessoa. E sentia que essa pessoa teria de ser o Paulo José, que ela conhecera no Canadá durante as férias de verão. Não queria saber mais pormenores, só o suficiente para fechar o livro das recordações. A atracção que sentira por Paulo era a voz do sangue, disso deixara de ter dúvidas. Paulo seria seu irmão de Pai.
Foi um dia de Natal que nunca mais esqueceu. Mas pouco a pouco a sua vida iria retomar o seu caminho e o coração estava agora livre.
Pensava como a vida nos reserva surpresas. Decidira partir para bem longe mas foi de facto, ao encontro com o destino. E como a Mãe lhe aconselhara, iria fazer por esquecer,  desta vez disposta a correr ao encontro do amor.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO

                                                    Júlio  Resende

15 – DE VOLTA AO PASSADO

As confissões alimentaram o germe da desconfiança entre as duas amigas.
A chinesa LI ficara muito surpreendida ao saber que a amiga teria sido confidente do homem,
de quem se tinha enamorado. E que nada dissera.
Não considerava essa omissão uma razão para sentir ciúme. Já havia reconhecido que Paulo fora apenas um encontro fortuito, que não teria, como não teve, um sinal de paixão. Tinha sido uma lembrança que depressa iria esquecer.
Mas, passou a olhar para Bárbara de forma diferente. Não mais a passou a ver como uma amiga em quem pudesse confiar, e o mal ficou.
Também Bárbara sentira que a amiga, lendo apenas parte da carta de Paulo, estava a testar alguma reserva ou a sua sinceridade. Desconfiava que Li tentara confirmar suspeitas e por essa desconfiança não lhe perdoaria.
Na verdade recebera apenas uma carta de Paulo, onde ele se mostrava indeciso quanto aos seus sentimentos, confessava o receio de poder magoar alguém que pudesse esperar dele algo que ele não se sentia ser capaz de dar. Tinha sido franco, dizendo que Li o tinha deslumbrado, como nunca se sentira antes, mas continuava a ter medo. Acordava desejando-a mas a fascinação do momento, transformava-se em temor, que nem sequer conseguia explicar.
Por sua vez Bárbara havia respondido à carta, recomendando que as dúvidas e os medos não teriam razão de ser se, ele fosse franco e honesto com a mulher que dizia amar. Para isso deveria explicar as suas dúvidas, mas que o deveria fazer olhos nos olhos. Sugeriu a Paulo lhes fizesse uma visita, e ela estaria fora, enquanto ele e Li procurariam o caminho.  
Paulo não respondera e nada dissera. E por qualquer razão que não conseguia entender, Bárbara ficou feliz por a correspondência com Paulo ter tido o seu final.
Com a aproximação do Natal, uma época que sempre fora especial, enquanto ela e a Mãe, faziam a consoada, conversavam até de madrugada, comendo filhoses e azevias que a Mãe fazia com muito esmero, Bárbara desejou ficar só. Não queria juntar-se aos amigos que a tinham convidado e até esperava que Li aceitasse os convites que, dizia, lhe teriam feito.
Naquele ano assim foi. Li iria passar o período de férias a Nova Iorque, tinha lá familiares. Também anunciou que encontrara um companheiro, dizia ser um amigo especial, mas que talvez viesse a ser mais do que isso e, portanto, deixaria de partilhar a casa com Bárbara. Já tinha encontrado um apartamento perto da Universidade onde ambos davam aulas e onde iria viver com o companheiro.
E foi assim, de uma forma fria que terminara a amizade entre as duas.
Bárbara reconheceu que aquela fora a melhor solução. Ela iria ficar só, partilhando o apartamento apenas com as suas recordações.
A noite de Natal doeu, a solidão começava a pesar e as horas não passavam.
Par combater o mal-estar, decidiu voltar a abrir a caixa onde a ver a Mãe guardara as suas memórias. Retirou as fotografias que espalhou pela cama e olhou uma a uma.
Colocou a caixa sobre a mesa e, pela primeira vez, notou que a caixa estava forrada e que um dos lados estava descolado. Com a mão trémula procurou no forro e encontrou um pequeno diário. Ficou na mão com o pequeno livro, não era maior que um pequeno caderno escolar. Leu a primeira página:
“Esta é a história da minha vida. Começou quando com dez anos de idade, me levaram da casa dos meus Pais.
Depois foram anos de sofrimento até que aos dezasseis anos me libertei e recomecei a viver. Mas as marcas daqueles seis anos ficaram marcadas para sempre. Tudo começou, e mudou de página. Bárbara ia continuar a ler. Tinha curiosidade, mas resolveu salvar um pouco da alegria da noite de Natal. Não era muita, mas ainda tinha recordações recentes. Amanhã, decidiu, amanhã vou ler a história de minha Mãe.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO





                                                   Júlio Pomar


14 - CONFISSÕES

Os dias, os meses passaram a correr. O trabalho e a dedicação que cada uma das amigas dedicava ao estudo e ao trabalho não lhes deixaram muito tempo livre para convívios. Faziam uma vida tão concentrada nas suas experiências, feita de correrias, de noites sem dormir, que raramente se encontravam a só.
 Todavia algo iria mudar.
O mês de Dezembro aproximava-se a passos largos, a neve cobria a cidade transformando-a num postal de Natal. As noites tão longas e frias eram um pretexto para ficarem em casa disponíveis, para conversar, rir e  também para confissões.
E foi Li, que numa dessas noites, mostrou a carta que acabara de receber do Paulo, e comentou que, a relação não teria passado de uma breve ilusão que não resistira a dois meses de separação. Mas na verdade, reconhecia, que talvez tivesse sido ela a culpada pelo apagamento daquela frágil luz. Sentira-se atraída, e traída, pela beleza do luar, pela tranquilidade da paisagem, pelo cantar ritmado das ondas do mar, pelos momentos de silêncio, mas reconhecera, fora imprudente.
Conhecera agora que existia um abismo que não ousara transpor e a sua correspondência com Paulo, era cada vez mais uma conversa de amigos. A paixão não chegara sequer a nascer ou então fora uma ilusão que a distância fizera esmorecer.
Contava que se sentia culpada por ter dado esperanças, mas pelo teor da última carta que acabara de receber, percebera que também Paulo deixara morrer o fogo e que o que restaria era apenas amizade. Paulo anunciou-lhe que saíra de White Rock e rumara para Nova Iorque, onde a irmã já estava a frequentar um estágio numa escola de música. Confessava que a solidão o fizera partir, talvez  para encontrar o Paulo José, que deixara um dia esquecido, numa pequena cidade do seu País. Ficaria com a irmã, Cecília, e tentaria recomeçar a viver.
Mas o que me espanta, diz Li para a amiga, é que o Paulo nem me diz adeus, nem me dá um contacto, simplesmente acabou.    Confesso que sinto mágoa, acreditei que poderia ser feliz mas enganei-me. Mas eu olharia de frente pediria perdão, salvando a amizade. Nunca seria capaz de simplesmente, terminar sem uma palavra, nem que fosse um adeus.
Bárbara ouviu a confissão e com a mão no ombro da amiga, tranquilizou-a:
- Eu receava esse final, tinha avisado. Felizmente fico contente porque não vejo dor nas tuas palavras. Esquece, ao fim e ao cabo não foi nada importante, como tu própria reconheces. O Paulo é um homem confuso e perdido. Tem um comportamento difícil de entender. Dá ou quer dar mas não se solta, não se entrega. Na vida algo de muito grave o marcou e ele não consegue viver com o passado. Eu tive um pressentimento que afastei, mas se me perguntares qual, não sei sequer responder.
Eu não tencionava falar sobre este assunto. Mas não fiquei admirado com o desfecho. Paulo escreveu-me uma vez, uma única vez, e contou-me que tinha tido problemas com os Primos, proprietários do resort que ele dirigia e onde estivemos nas férias, e tinha decidido abandonar o projecto. Mas para mim ele, simplesmente, fugiu.
E na carta confessou-me que, por razões do foro íntimo, receava não ser capaz de te fazer feliz e pediu-me ajuda para te explicar as suas dúvidas e ao seus receios. Mas não mos disse e eu nem os perguntei.
Entre nós, recomendo-te, esquece, não tentes compreender o que nem ele é capaz de explicar. Mas não lhe queiras mal. Ele é infeliz e uns lampejos de felicidade foi tudo o que alcançou durante os dias em que esteve a teu lado.
Partiste e a noite tomou o teu lugar e ele, mais uma vez, perdeu-se na escuridão. 


domingo, 27 de novembro de 2011

NO BOTEQUIM no Largo da Graça

Hoje é um dia diferente. Como ontem foi um dia diferente.
Hoje relembro as palavras, os abraços e uma ou outra lágrima que não pude conter.
Ontem foi o dia em que assumi a responsabilidade de ter ousado escrever e publicar em livro, algumas histórias, e estive frente a todos, de coração aberto e feliz.
Hoje, apenas prometo que continuarei escrevendo, umas vezes bem a maior parte das vezes menos bem, mas andando sempre de cabeça levantada como me habituei a viver.
Ontem foi passado, é verdade, mas foi uma festa tão bonita que não mais esquecerei.
Hoje, lembro-me de que a companhia de pessoas de quem tanto gosto, me deram força e energia, até para evitar os tropeções nas palavras.
Ontem como hoje e amanhã, guardarei no coração a amizade e a ternura que me deram.
No final apenas algumas palavras para descrever o que sinto.
 - Gratidão pelos que me ajudaram a levar por diante um sonho;
 - Reconhecimento pelos que quiseram assistir às palavras ditas.  
No dia 26 de Novembro de dois mil e onze, no Botequim, no largo da Graça Lisboa, rodeado de amigos estive Eu e O Meu Amigo John Doe.
E no nome dos dois, Obrigado, foi um momento inesquecível.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO

                                                            Edgar Degas

13 –  FIM DE FÉRIAS

 Aqueles dias de férias marcaram o início de uma profunda amizade,  matizada aqui e ali por algum receio de ciúmes entre as duas mulheres.
Paulo tinha recuperado a alegria de viver, esquecera as dores e a saudade e balançava entre a afinidade cultural e de temperamento com Bárbara e o fascínio por uma mulher diferente. E Li era essa mulher.
Contara parte da sua vida, sobretudo a sua experiência no Canadá. Dera ao projecto toda a sua energia e entusiasmo, sentindo que devia isso aos primos que tinham acreditado na sua capacidade e entrega. E conseguira  que o projecto fosse não só rentável como mantivesse altos padrões de qualidade, não obstante saber que o local pela sua discrição, era também refúgio para amores escondidos.
A colega na implantação do projecto e com a qual, confessara, tivera uma relação pouco profunda e efémera, tinha partido para outro desafio. Desta vez seguira um amor antigo e o destino quis que se fossem encontrar em Montreal.
Paulo ficara só, confessara às duas amigas que sentira receio. Apesar de serem duas pessoas tão diferentes, ele era taciturno, muito formal e Marie exuberante e com o charme que sempre cultivara, pensou em rejeitar o desafio porque Marie era um pouco a alma e a luz daquele lugar e ele receava não estar completamente à vontade, no que se referia à sua relação com os clientes. Todavia acabou por aceitar a responsabilidade de conduzir o negócio, alterando um pouco a sua concepção. Os salões do restaurante foram reduzidos para maior privacidade, introduziu também algumas mudanças na ementa, escolheu novos vinhos que importava de Portugal e disciplinou alguns excessos de familiaridade  entre os empregados de mesa e da recepção e os clientes.
Não fizera as mudanças de um momento para o outro, seguira o caminho que definira de modo a manter a clientela mais exigente e selectiva e que, como tal, não se importava de pagar mais.
Julgara ter avançado de mais, registou alguma quebra nas vendas, mas com energia e simpatia conseguira atrair mais  e melhores clientes. E os resultados até ultrapassaram o expectável.
Paulo transformara aqueles momentos num monólogo. Fixara a vista no horizonte e continuava a falar de si, de uma forma desprendida e ausente mas nunca abrindo a janela com vistas para o passado. Esse período que o marcara continuava teimosamente fechado. Por isso se limitara a falar do dia de ontem, de há uns meses, do homem que emigrara de mãos e coração quase vazio. Mas de repente calou-se e voltou a ser o Paulo fechado e introvertido.
 Bárbara apercebeu-se do momento, era evidente que Paulo tinha segredos que não revelava e perguntou pela família em Portugal.
Paulo demorou a responder e quando o fez apenas falou com ternura da sua irmã, a única pessoa da família de quem sentia saudade. Todavia a internet permitira-lhe falar e ver Cecília, acompanhar o seu caminho que estava perto de se alterar. Cecília conseguira juntar dinheiro e obtivera um estágio numa escola de música em Nova Iorque. Contava viajar no início de Setembro e o estágio seria por seis meses. Paulo prometera que a visitaria pelo Natal. E ficou por aí.
Naquela noite de luar em que ficaram até mais tarde a conversar, Bárbara  acabou por se alhear da conversa e decidiu caminhar junto ao mar. Estava triste, sofrida, Paulo falava da irmã com amor e  escondera outros familiares, Li  por sua vez contava recriminações e avisos do Pai e dos irmãos mais velhos, por ela ter decidido, como eles diziam, ocidentalizar-se fora da família tradicional.
Bárbara deu-se conta que era uma pessoa só, então ela falaria de quem e do quê?
Quando regressou, Paulo e Li já não estavam no terraço pelo que subiu e se recolheu no seu quarto.
Contráriamente ao que era habitual, a porta da suite estava fechada. Estranhava o silêncio, Li tinha por hábito ouvir música antes de se deixar dormir, abriu ligeiramente a porta e verificou que o quarto estava vazio. Deitou-se mas não conseguia dormir. No dia seguinte era de regresso e voltaria a mergulhar nos seus ensaios, a enfrentar desafios, repetindo rotinas de laboratório, enfrentando fracassos mas com a esperança de um dia, encontrar um principio, um sinal de esperança.
Perguntava-se se iria conseguir esquecer aqueles dias de férias que lhe tinham despertado sentimentos contraditórios. Sentia uma força que a guiava para a companhia de Paulo. Mesmo em silêncio os olhos cruzavam-se dizendo mais do que as palavras. Mas qualquer coisa os inibia. Da parte dela era uma barreira que não tinha coragem para transpor. Paulo e a sua timidez poderiam significar algo mais, não sabia. Mas, finalmente, naquela noite percebera o embaraço do amigo. Paulo deixara-se enfeitiçar por uns olhos de amêndoa, de um rosto branco e exótico e um sorriso contagiante. Confirmou quando deu pela chegada da amiga, era já dia mas ela não subira ao quarto,antes se estendera na banheira jacuzzi que ocupava um recanto discreto da sala. Foi lá que Bárbara a foi encontrar com um ar tão feliz que dispensava qualquer pergunta.
Partir é sempre difícil e Li e Paulo pareciam comprometidos na presença de Bárbara. Trocavam sorrisos e murmúrios.
Enquanto conduzia o carro de volta a casa, Li confessou que entre ela e Paulo tinha nascido uma estrela que queriam seguir juntos. Estavam apaixonados.Sentiam-se bem juntos e até pareciam que se conheciam desde sempre.
Bárbara não deu nenhum sinal de surpresa, comentou que era preciso cuidado com as emoções repentinas, porque o amor à primeira vista não costuma ser duradouro. E acrescentou:
- Ainda me vou rir quando tu convidares a tua família para o casamento e eles, tão conservadores como dizes que são, descobriram que o teu noivo é católico e que cortou os laços familiares. São capazes de ter uma desilusão. Mas se tu gostas dele, não desistas, vai em frente, não deixes fugir o amor. Este aviso foi uma das coisas que recebi da minha Mãe.
Li, olhou e respondeu surpreendida:
-Cheguei a temer que te sentisses traída. Sempre os vi aos dois com um relacionamento muito próximo e até senti uma picada de ciúme.
Bárbara não respondeu. No seu íntimo e em silêncio confessou-se. Gostava do Paulo, mas havia qualquer coisa que a afastava e lhe fazia  medo. Não sabia porquê, mas só o via como amigo em quem podia confiar e para ela, esse facto eliminava uma possível relação amorosa.
Na sua cabeça começou a ganhar corpo uma ideia que, já em fugazes momentos a atormentara. Entre ela e Paulo haveria qualquer laço. De uma forma ou outra as suas vidas já se teriam cruzado. Onde e como não sabia, nem arriscava.