terça-feira, 17 de janeiro de 2012

UMA NUVEM NEGRA



Mural na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Desenho de MANUEL LAPA
MANUFACTURA TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE

CAPÍTULO XV

Não conseguia dormir. Fechava os olhos e via ao longe uma mulher de vermelho. Já passava da meia noite quando resolveu telefonar para casa. Beatriz atendeu e bastou ouvir a respirarão do marido para ficar preocupada.
- Pedro, estás bem? O colega não está por perto para te ajudar?
- Beatriz não exageres, sabes como eu sou, não é novidade, estou cansado e nestas alturas não consigo dormir. Precisei de ouvir a tua voz, sabes que me faz bem. Desculpa só ter ligado agora mas estava mesmo à luta com as ideias que me assaltam a cabeça.
Estou à janela, lá fora quase não se vê vivalma e o ar fresco e húmido parece que me atenua a dor de cabeça.
- Estou mesmo a ver que estás à janela fumando cigarro atrás de cigarro, como é costume. Isso não te ajuda. Deita fora e continua a falar comigo. Sabes Pedro não é fácil a vida de um Polícia, eu sei, mas olha que a vida de mulher de Polícia é bem mais dura.
- É verdade mas tu tens os miúdos, dão muito trabalho mas depois quando te deitas está feliz a acabas por dormir bem.
-Pedro pensas que eu não sinto a tua falta? Quantos dias, quantas noites eu quase nem de vejo e sempre que estás envolvido nalguma investigação que te desorienta, estás ao meu lado sem te lembrares que eu existo, que preciso de ti, que gosto de falar e de fazer amor.
- Desculpa meu amor, eu vou mudar, prometo, murmura Pedro.
- Mas eu não quero que tu mudes Pedro, quero apenas ser também parte das tuas alegrias e das duas tristezas e sentir o carinho duma mão amiga no meu rosto. Lembras-te como eu gostava dessas gestos? Olha ainda gosto! Vai meu amor, vai dormir, amanhã é um novo dia e, quem, sabe terás as duas dúvidas esclarecidas.
- Até amanhã Beatriz, fiquei tão feliz por te ouvir. Vou sonhar contigo e com os nossos filhos.
Desligou, voltou para a cama e adormeceu profundamente.
Como combinado foi tomar o pequeno almoço ao café do costume. Desta vez chegara primeiro, Carlos entrou todo risonho, barba por fazer e sentou-se à mesa.
- Estou com uma fome que nem te digo. Esta nossa vida de trabalho que nem nos dá tempo para comer uma francesinha, e riu-se alarvemente.  
- Oh Carlos, poupa-me as tuas aventuras, esquece o cansaço e conta lá o que sabes.
- Chefe, primeiro preciso de beber um café duplo, senão deixo que os olhos se cerrem.
Bebeu o café e enquanto aguardava uma refeição reforçada, começou a contar:
- Fiz tudo o que recomendou. Tive sorte, encontrei na sede do Banco uma senhora muito simpática que se dispôs a ajudar. Falou ao telefone com uma amiga, Secretária da Administração que aceitou conversar comigo.
Naturalmente agradeci a colaboração da Mariana e prometi que voltaria para lhe dizer o resultado.
A Secretária da Administração era, como são quase todas, muito senhora do seu nariz. Já não era criança mas fazia os possíveis por disfarçar as rugas e ao longe, até conseguia. Era contudo muito educada, ouviu o meu pedido, identifiquei-me para a tranquilizar e pediu para aguardar na sala de espera. Já estava a ficar cansado, esperei mais de uma hora, quando a Dr.ª. Ilda regressou com um envelope que me entregou. Aqui tem senhor Inspector, disse ela, o dossier tem todos os dados que constam do registo do nosso antigo Director Dr. Bernardo.  Uma parte é em papel, eram registos antigos, mas os dados mais recentes estão computorizados e copiados para esta drive que também leva consigo.
Fiquei muito sensibilizado com a atenção da Senhora e utilizei todo o meu vocabulário para enaltecer a colaboração recebida. Mas frisei que estava a correr um processo de averiguações pelo que os dados que me dera e a nossa conversa teriam que ficar em segredo. Acenou  sim, prontificou-se a esclarecer alguma dúvida se necessário e saí para o gabinete onde encontrara Mariana.
Eram já horas de almoço e sugeri um jantar para lhe agradecer a ajuda e para meu espanto ela acedeu.
Depois fui para o quarto de hotel, não sem antes ter comprado roupa interior, não trouxera a suficiente, abri o envelope e retirei os documentos e gravei o arquivo na drive para o disco do meu computador.
- Chefe, estava tão entusiasmado a contar o meu dia e deixei a comida no prato. Chamou o empregado e protestou dizendo que os ovos estavam frios e o bacon esturricado. Mande lá fazer tudo de novo se faz favor!
O Empregado pegou no prato, murmurou qualquer coisa que não se entendeu e seguiu para a cozinha.
- Está calmo, espera pela comida, esquece as conversas de conquistador e depois analisamos os dados que conseguiste e tentamos casar essas informações com o que eu obtive. Mas sem ter tido o teu género de trabalho, concluiu Pedro.
- Ok Chefe, mas só lhe digo que vai ficar siderado com uma fotografia da mulher do nosso amigo Bernardo!
- Não me digas que é loira e veste um vestido vermelho. Acertei?
- Carlos engasgou-se com a comida que mastigava, dizendo no final:
-Acertou, mas há coisas que só eu sei, porque a Mariana me disse. Ficámos empatados.
- Eu já admitia, dizia Pedro, a nossa vida para o Porto foram tempo perdido. Aliás, até escrevi no relatório que ontem enviei para a direcção. E quando menos se esperava, um só dia, uma só tarde, fizeram a diferença. Hoje devemos conhecer a história.
- Também tenho essa esperança. Mas tenho que corrigir. A diferença não foi um só dia, uma só tarde, foi também, uma longa noite.







domingo, 15 de janeiro de 2012

UMA NUVEM NEGRA

GLÓRIA DE LISBOA
António Lino
MANUFACTURA TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE

CAPÍTULO XIV

Ao abandonar o escritório especializado nas operações de lavagem de dinheiro,Pedro ficou, novamente, desiludido. Tinha a sensação de que andara a perder tempo ouvindo conversas que já conhecia de cor, especialmente  com a visita que acabara de fazer. Na realidade o escritório era apenas uma cópia da actividade conhecida como  o esquema de Ponzi, ou de forma popular,o banco da Dona Branca.
Quando falara em milhões os olhos da Dr.ª. Rosalina quase saltaram das órbitas. Na realidade aquele escritório era uma casa de usurários e nem faziam sequer ideia do tipo de operações que ele deixara como isco.
A visita redundara em nada,  seria fácil denunciar à Polícia aquele escritório e apanhar os responsáveis. Alguém iria ficar a perder, mas quem arrisca tem que se convencer que pode perder. O Inspector Florindo seria um deles?
Gibraltar era um paraíso fiscal que toda a gente conhecia. Mas domiciliar operações nos bancos lá sediados, não era actividade para principiantes. Uma sociedade de amadores, tipo da Dr.ª. Rosalina e marido, não passariam da porta de entrada.
O que mais lhe custava, era ter a percepção que andava às voltas com um crime de morte,  que a solução estava tão perto e que não conseguia pegar nas pontas.
Era fácil, pensava, o crime foi premetidado para baralhar,  dando tempo a alguém para  levantar dinheiro ou activos que a sociedade do Dr. Bernardo teria em carteira e depois desaparecer.
Estava mergulhado nos seus pensamentos e continuava a passear sem destino pela baixa da cidade. Era cedo para regressar ao hotel. Passou por uma cafetaria na Avenida dos Aliados, tinha um espaço envidraçado que dava par a rua, entrou e escolheu uma mesa com vistas para o movimento. Pediu um café e uma aguardente velha  e reparando que estava numa zona permitida a fumadores, aproveitou, acendeu um cigarro e por momentos ficou olhando para os carros que paravam no sinal vermelho, que protegia uma passagem de peões.
Pediu a conta e enquanto retirava a carteira para pagar, reparou numa senhora alta e loira, com um casaco de peles, comprido e de bom corte e que aguardava passagem. Teve o pressentimento que aquela silhueta lhe não era desconhecida, deixou uma nota de vinte euros em cima da mesa, nem esperou pelo troco e saiu correndo para a rua.
Quando chegou à passagem de peões o sinal já estava vermelho, as transeuntes já tinham atravessado, deu uma corrida entre os automóveis que começaram a circular, ouviu um coro de buzinadelas e algumas palavras pouco agradáveis mas esqueceu. Agora circulava por entre a gente que se dirigia para o transporte de regresso a casa. Da senhora que vislumbrara, nem sinal.
Atravessou o jardim e preparava-se para atravessar a faixa ascendente da Avenida, quando um Mercedes com motorista que subia lentamente a rua, parou e a senhora que tinha perdido de vista, entrou no automóvel que arrancou e se perdeu no trânsito. Mas agora Pedro sorriu, o pressentimento confirmara-se. Ele reconhecera a mulher, já a vira e não havia muito tempo. Não era loira, nem vestia como agora, um vestido vermelho debaixo dum casaco de peles. Aquela mulher estivera no seu gabinete em Lisboa depois de ter reconhecido como sendo do marido o cadáver encontrado no Guincho. Dera o nome de Luísa Maria Magalhães Esteves dos Santos. Quem diria, murmurou Pedro, como está  mudada. 
Abanando a cabeça de incredulidade apontou a matrícula do Mercedes.
Ligou para Lisboa de uma cabine pública. O colega que o atendeu, um velho companheiro e amigo, não fez perguntas. Ouviu o número da matrícula e o pedido para que o mesmo fosse investigado. Depois devia mandar a informação por correio electrónico. Raul tenho urgência em receber notícias, acrescentou Pedro.
- Fica descansado, vou já tratar do assunto. Entretanto quando puderes liga ao Dr. Dionísio, o homem do Laboratório. Ele anda fulo não te encontra e nem respondes no telemóvel.
- Está bem, eu vou falar com ele.
Regressou ao hotel, eram horas de jantar mas estava excitado e não podia perder tempo.
Abriu o computador, viu as últimas mensagens, mas ainda não recebera a resposta sobre os dados da Mercedes.
Aproveitou para redigir o relatório para o Director sobre o estado da investigação. Deu conta de todos os indícios já recolhidos, identificou crimes financeiros e fiscais que envolviam gente da Polícia. Pedia o acordo para continuar a investigação por mais algum tempo, pouco, findo o qual estaria em condições de solicitar a emissão de mandatos de busca e detenção. Fez o envio.
Redigir o relatório ocupou-lhe bastante tempo. Quando acabou lembrou o pedido do Director do Laboratório de Investigação Científica e ligou pelo telefone fixo do quarto.
Do outro lado o Dr. Dionísio estava fulo, protestando que perdera muitas horas de volta dos equipamentos que ele lhe deixara e afinal o resultado era próximo do zero.
Especificou o pouco que conseguira:
- O iPhone estava completamente virgem e apenas num dos CD encontrei o rasto do que parecem ser duas ou três páginas de uma lista telefónica. Os números estão apagados mas os alguns dos nomes ainda se conseguem  ler. As moradas não tanto, estão quase sumidas, mas pelos nomes percebemos  que podereria seria uma lista telefónica de um País de lingua Espanhola, muito provávelmente da América Latina. 
Pedro agradeceu a ajuda e pediu um outro favor:  
- Dionísio, peço mais um favor, tenta enviar o CD para o meu correio electrónico! 
O colega  resmungou qualquer coisa que não se percebera e desligou.
Enquanto ao telefone, deu pela chegada de duas mensagens no correio electrónico. A primeira, do Carlos dizia que estava no bom caminho e que se estava a divertir com sucesso.
A outra era do Raul que enviava os dados do Mercedes. A viatura tinha um só registo, sinal que fora comprada nova, tinha seis meses e estava no nome de Frederico Magalhães e tinha a morada numa rua da Maia.
Pedro respirou fundo, o mistério começava a tomar forma e eram a de uma mulher vestida de vermelho.



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

UMA NUVEM NEGRA

Guilherme Camarinha
ALEGORIA AO VINHO DO PORTO
MANUFACTURA TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE


CAPÍTULO XIII

Já entendi, temos de seguir o dinheiro, repete Carlos enquanto caminha para o restaurante que o Álvaro lhes havia recomendado. Não ficava longe e tinha salas que ofereciam alguma discrição. E acabamos a comer num lugar reservado e aposto que as pessoas são capazes de nos julgar um casal de namorados. Não, não gosto do lugar, repetia Carlos com aborrecimmento.
Pedro ignorou, entrou no restaurante e pediu uma mesa num reservado no primeiro andar.
Para completar o desagrado de Carlos o dono do restaurante que os acompanhou, era muito educado mas parecia pertencer à confraria a que ele chamava Opus Gay.
Sentou-se contrafeito e abanava a cabeça em sinal de insatisfação. Se fosse outra pessoa ir-me-ia já embora, confessou.
Pedro não deu muita importância, mas sublinhou que se estavam ali era porque o Álvaro os havia aconselhado. E terminou dizendo:
- Não protestes o Álvaro é teu amigo e não meu.
Encomendaram o almoço, que Carlos comia com evidente prazer. Afinal dizia ao menos a comida era boa.
Pedro pelo contrário quase não tocara no prato. Estava ausente, mergulhado nos pensamentos, quiçá procurando o fio da meada.
Já Carlos pedira os cafés quando Pedro rompeu o silêncio a que se tinha remetido.
Carlos, hoje vamos ficar no Porto e o programa é o seguinte:
Tu vais até ao Banco onde o Bernardo trabalhava, fala com a Direcção de Pessoal e tentas obter a ficha, que deve existir, do Dr. Bernardo. O banco deverá ter os dados actualizados até à data em que ele saiu, certamente teria cartões de crédito e cartões de visita onde para além da identificação deviam ter fotografias. Não procures o Doutor Silvestre com que estivemos no primeiro dia. Usa o teu encanto, tenta conhecer uma secretária disponível e desejosa de conversar. Eu acho que se quiseres consegues captar a confiança. Podes ter sorte e fazeres amizade com uma mulher que te diga mais alguma coisa útil sobre o nosso amigo.
Eu vou falar com aquele figurão que nos espiou quando estivemos a almoçar com o Florindo. Tenho a morada que me deste e vou apertar com ele.
Se for preciso algum contacto manda mensagem ou correio electrónico. Caso contrário encontramo-nos amanhã ao pequeno almoço naquele café onde hoje estivemos.
E se não acontecer algo de novo, regressaremos a Lisboa. Confesso que começo a ficar farto das pessoas que aqui encontramos que sabem tanto que até me assusta, mas que depois o que dizem vale pouco ou quase nada. 
Terminado o almoço, cada um seguiu o destino combinado.
Pedro foi à morada pretendida, era um edifício de escritórios com muitas placas identificativas. Numa encontrou o que procurava. O escritório em nome de  Peres & Lima – Consultores Associados, situado no piso quinto letra F. Olhou para o relógio, eram quase quinze horas, tempo adequado para uma visita.
Tocou a campainha, a porta foi aberta e recebido numa pequena sala de visitas por uma senhora que se apresentou como Rosalina Lima, sócia da firma. A recepcionista faltara naquele dia e era ela que recebia os clientes.
Com sorrisos a Dr.ª Rosalina, como constava do cartão de visita, acompanhou o Pedro ao gabinete, amplo e decorado com requinte e fez questão de se dizer que para além de sócia principal, os negócios mais importantes passavam pelas suas mãos. Em que o posso ajudar?
Pedro não se identificou,  foi dizendo:
-A senhora sabe que na minha actividade é preciso muita descrição. O vosso nome foi-me recomendado por um amigo de confiança e por isso aqui estou. No meu negócio sou obrigado a manobrar verbas muito significativas. Gosto que o dinheiro esteja sempre à minha disposição, num Banco sediado no Luxemburgo ou na Suíça. A conta deverá ser numerada e permitir a sua mobilização através da Internet. O que é que sugere?
- Meu caro, vamos esquecer os nomes, nós podemos garantir o serviço que nos pede. Naturalmente a operação terá um custo elevado, dependendo do seu montante, poderá ser da ordem dos vinte por cento. E de quanto é que estamos a falar?
- Dependerá como imagina, uma parte será gerada em Portugal e andará na casa de cinco milhões de Euros por mês. Mas a maior parte, chegará ao banco de destino, através duma sociedade de capital de risco. Em média poderão esperar movimentos líquidos de vinte milhões de dólares por mês.
Pedro captou cobiça nos olhos da sua interlocutora. Ela ficou agarrada à cadeira como se a surpresa lhe tivesse tolhido os movimentos. Foram apenas alguns segundos, logo esboçou um sorriso afirmando:
- Nós estamos habituados a todo o tipo de operações, eu percebi o que pretende e temos capacidade para o aconselhar a montar o esquema.
Lidamos com operações de todo o tipo, algumas  de valores semelhantes, e estamos no mercado desde há pelo menos dez anos e nunca recebemos qualquer queixa. Para segurança mútua, costumamos elaborar um contrato simples, em apenas dois exemplares. O nosso  será mantido fora dos nossos arquivos. Temos um cofre bancário para o efeito. Se pretender poderemos indicar o Banco mais conveniente para guardar o seu exemplar.
- Sim é uma boa ideia, não tinha pensado nisso, eu tenho o cofre em casa o que não me dá muita segurança.
- Então eu recomendo o Banco Nacional de Gibraltar. Vai ver que será muito bem recebido.
Eu terminei Dr.ª Rosalina. Vou hoje para o estrangeiro e estarei de volta da próxima sexta-feira. Nessa altura assinaremos o contrato e procederei à entrega da primeira tranche do valor a circular. Pode ser assim?
- Claro que pode, eu falo com o meu sócio para que ele também esteja presente. A sua enbtrega será em numerário, calculo? Sim, então combinamos para a mesma hora?



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

UMA NUVEM NEGRA

CRUZEIRO SEIXAS

MANUFACTURA TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE

CAPÍTULO XII

Carlos conhecia bem a cidade, ali estudara e fora ali que começara o seu trabalho. Vamos de metro e depois vamos a pé. Assim quem nos quiser seguir, o que só por precaução admito será fácil de despistar.
Tinham começado a caminhar para a paragem do metro quando Carlos recebeu uma mensagem. Álvaro dizia que se encontrariam no café Luso.
Café Luso murmura Carlos, pensava que já nem existia, mas o caminho para lá será melhor de táxi.
Assim fizeram e numa mesa perto da entrada encontraram o colega que os aguardava lendo o jornal desportivo. Carlos aproximou-se e comentou:
-Eh pá não sei para que estás a ler, o jornal só fala da vitória do Benfica?
Deixa isso, apresento-me o meu chefe o Inspector Pedro Gonçalves e vamos lá falar de assuntos sérios.
- Tens razão meu amigo, falar de assuntos sérios! Mas até no futebol também os jornais desportivos têm os seus critérios. Este só fala do Benfica e lá para o fim deixa uma página para falar do FCP. O Pinto da Costa é que os conhece bem.
Aquela hora o café estava quase vazio pelo que puderam falar sem rodeios. Pedro abriu o computador portátil onde guardara as fotografias do cadáver, da mulher que o reconhecera como marido e as fotos dos clientes da Empresa do Dr. Bernardo, que o porteiro havia tirado.
Peço-lhe, dê uma olhada e diga o que pensa. Alguns dos clientes do Dr. Bernardo, são pessoas conhecidas e você, Álvaro poderá confirmar.
Este começou a analisar as fotos, que Pedro havia numerado, e num bloco de notas que retirou do bolso, começou a assinalar algumas das fotografias.
Não contente voltou a percorrer todo o arquivo, completou ou corrigiu um ou outro apontamento.
Acabou olhou para os dois colegas dizendo:
- A minha principal actividade tem tido a ver com o branqueamento de capitais. Vocês sabem como é que as lavandarias funcionam pelo que não vou perder tempo com o assunto.
Mas por força das pesquisas da minha pequena equipa conseguimos traçar o caminho utilizado e as pessoas envolvidas. E nesta procura acabámos por chegar a outro negócio ilegal porque o dinheiro movimentado corresponde a rendimentos legais que não são colectados, fuga ao fisco e até avultadas somas em dinheiro vivo, provenientes de outra fonte, a corrupção.
Todo o dinheiro envolvido nestas histórias precisa de acompanhamento para que se não perca no caminho. Alguns  Bancos através de sociedades offshore, gerem uma grande fatia do negócio, mas as Sociedades de Investimento e ou os Fundos de Investimento são mais efectivos, menos exigentes e  por aliciam os clientes para operações de risco.
No estudo que conseguimos desenhar,identificamos mais de uma dezenas de organizações para bancárias constituídas por quadros que abandonaram os Bancos ou continuam a eles ligados, através dos tais veículos onde se acomodam prejuízos ou lucros, consoante for o caso.
- Desculpe lá a minha interrupção, diz Pedro Gonçalves, nós percebemos os mecanismos, mas onde é que entra o nosso caso? Lavagem de dinheiro ou uma nova Dona Branca como eu receio?
- Pois é caro Inspector, pelas fotografias que assinalei e porque alguns dos intervenientes são do nosso conhecimento, eu diria que o vosso caso tem as duas componentes. E estendeu a folha onde havia escrito os nomes de alguns dos fotografados.
- Como assim, pergunta Carlos?
- É fácil, dos clientes do escritório do Doutor Bernardo, muitos dos quais eu vi nas vossas fotografias, são aforradores ambiciosos, vi por exemplo o Dr. Florindo, que se arriscam para terem um lucro maior. Esses são o esteio da actividade a que chamou da Dona Branca, mas outros são de outro calibre. São gestores de Fundos Imobiliários e Mobiliários que foram aliciados para os benefícios dos paraísos fiscais ou, os mais perigosos, empresários ligados à circulação da droga pelos portos nacionais e o seu encaminhamento para o mercado distribuidor, no norte da Europa. São importadores e exportadores e responsáveis pela gestão dos milhares de milhões que o negócio movimenta.
O escritório do Doutor Bernardo geria as duas actividades.
Agora deixa-me continuar e corrija o que estiver mal, propôs o Inspector Gonçalves:
- O Doutor Bernardo meteu-se numa camisa de onze varas, certo? Com a crise nos Bancos estes e os Fundos a eles ligados ficaram à beira da falência. Aos Bancos os respectivos Governos deitaram a mão mas os Fundos ficaram de fora. Alguns porque estavam nos tais veículos que os Bancos não reconheciam nas suas contas, outros porque fugiram por terem apostado e perdido. Os que se salvaram enriqueceram cada vez mais os outros deixaram muita gente aflita.
O Doutor Bernardo escolheu esconder-se. Encenou a sua morte, arranjou algum desgraçado para morrer por ele e com os capangas de confiança sumiu.
Estará no Brasil? Em Porto Rico? Ou, quem sabe no Uruguai. Aceito apostas, terminou.
- Chefe quer dizer que a mulher loura e o homem que contrataram os assaltantes para o Guincho eram parte da encenação ou também haviam sido enganados?
- Pois é o que temos de descobrir, mas acredito que eles eram comparsas trabalhando para o mesmo objectivo. Fingir a morte do Dr. Bernardo, concluiu Pedro.
Meus amigos, diz Álvaro que até ali se mantivera calado, na minha opinião vocês estão no rumo certo, mas ainda terão muitos passos para dar.
Sim, é verdade, devemos seguir o nosso instinto mas, como dizia o velho professor na Academia, quando não souberem o que fazer, sigam o dinheiro. É isso que faremos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

UMA NUVEM NEGRA

Aguarela de Guilherme Camarinha
MANUFACTURA DE TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE

CAPÍTULO XI

Como era habitual quando sentia alguma areia na engrenagem, Pedro Gonçalves, não estava nos seus dias. Falou para casa e a mulher, que tão bem o conhecia, notou logo alguma ansiedade na sua voz. Falou com os filhos, dois rapazes gémeos que lhe deram notícias da escola, como era hábito iam bem. Laura, a mulher recomendou uma noite bem dormida, era o que precisaria para  lhe aclarar o raciocínio. Contudo com os nervos que noto da tua conversa, receio bem que os meus conselhos não sirvam para nada, rematou.
Esteve na janela, fazia já algum frio, abriu uma nesga apenas para fumar um cigarro, e mais outro, porque começara a ter dúvidas de que o caminho que levava fosse o correcto. Mas eram apenas sinais, algum desconforto, nada mais.
O quarto tinha uma pequena mesa tipo secretária, instalou-se balanceando o corpo para trás e para a frente. Abriu o portátil e começou a rever, em traços largos, todos os apontamentos que havia coligido durante a sua investigação, desde a sua chegada junto do corpo tombado sobre o volante até ao interrogatório do assaltante ferido, vítima de uma encenação que havia custado a vida do companheiro.
Foi passando em slide todas as fotografias que guardara e de repente parou. Franziu o sobrolho, voltou a passar todos os apontamentos, refez o visionamento das fotografias do automóvel e do corpo, mas aquela campainha, sinal de alarme que sentira, não se repetiu. Fez uma nova passagem do filme e num repente encontrou a razão que lhe fizera todo o frenesim e não o deixava sossegado. E fora uma simples palavra, que não lera nos seus apontamentos mas que no seu subconsciente já bailava embora de forma difusa. Encenação, era esta a palavra que havia disparado o sinal e, como agora tudo lhe parecia mais claro.
A morte do indivíduo no carro nas arribas da praia, reconhecia agora,  teria toda a configuração de um acto encenado.
Mas como é que eu me deixei conduzir, perguntava-se? Os vestígios, como o Iphone encontrado nas arribas, a chave do cofre, o saco com os CD virgens ou com um filme para crianças, teriam sido provas plantadas fazendo, naturalmente, parte da encenação.
Olhou para o cadáver e releu o relatório da Polícia.
O agente assinalara que o corpo estava tombado sobre o assento dianteiro, fez até um desenho do corpo da vítima, e escreveu que a morte fora provocada por um tiro à queima roupa, as queimaduras na testa eram bem visíveis, com a bala a ter sofrido um desvio, dado que lhe penetrara na face direita e ficara alojada junto do ombro.
Pedro raciocinava agora muito rapidamente. Se o tiro fora disparado por alguém sentado ao lado do condutor, o sendo o tiro, confirmado no relatório da autópsia, feito por uma pistola de nove milímetros de calibre, por força do impacto a cabeça teria um impacto contrário e estaria tombada para o lado contrário, o lado esquerdo.
Até o relatório do Polícia era bem claro. Nem num lado nem no outro havia vestígios de sangue.
A conclusão só podia ser uma. A vítima, já não arriscava dizer o nome, fora executada noutro lugar, transportada para aquele automóvel e o tiro que o Fernando ouviu e o fez fugir com o companheiro foi um tiro para simular o crime. Fernando ter-se-á apercebido da armadilha, fugiu antes que a mulher e o homem que o haviam contratado o tivesse conseguido incriminar.
Por algo que não conseguira ainda entender, o casal que negociara o encontro com o Fernando precisava de criar um cenário de ajuste de contas. E Fernando seria o actor ideal.
Momento a momento mais desperto, julgava agora perceber algumas lacunas de que não se dera conta. No relatório da autópsia, a hora da morte fora estimada para o intervalo entre as doze e as quinze horas e o depoimento do LuísTavares dizia que o encontro no Guincho se dera ao anoitecer. 
Agora, Pedro nem se arriscava a dizer que o corpo encontrado fosse o do Doutor Bernardo. Isso significava que a mulher que identificara o corpo, e o havia transportado para ser sepultado, mentira. Faltava descobrir a razão e isso seria tarefa para amanhã.
Conseguiu descansar uma ou duas horas. Ansiava por falar com o Carlos para combinarem a investigação do dia seguinte.
Acordou com o som do telefone. Deu um salto e atendeu.
Do outro lado era o Carlos que lhe lembrava que estava há mais de uma hora à espera para tomarem o pequeno-almoço como combinado de tal modo que até o empregado da pastelaria já o olhava desconfiado.
Pedro pediu mais meia hora. Foi uma corrida para tomar o duche, fazer a barba e escolher e vestir a roupa. Fechou o computador, guardou-o na mala e saiu correndo ao encontro do colega.
Sentou-se na mesa, o empregado tomou nota do pedido, Carlos apenas decidiu beber um outro café enquanto olhava para o ar ausente a cansado do companheiro.
Não resistiu e comentou com um sorriso irónico:
Meu amigo Inspector Pedro, acha bem que um oficial da Polícia, casado e com filhos passe a noite num lugar menos adequado e numa companhia de ocasião?
Antes fosse, antes fosse, respondeu Pedro. Passei a noite quase em branco a matutar no assunto que aqui nos trouxe. E cheguei a um ponto que me deixou não desiludido comigo mesmo que só me dava vontade de gritar bem alto, és um burro.
- Oh chefe não me digas que começaste a ligar pontos e chegaste à conclusão que andamos a ser dirigidos e enganados!
- Sim é isso que agora penso.
- Pois eu também fui assaltado pelas dúvidas, lembrei-me de um colega muito amigo que fora transferido para a Directoria do Porto e liguei a marcar um encontro. E eu sim, passei um bom bocado da noite num clube nocturno muito bem frequentado.
O Álvaro Pinto é subinspector responsável pela área do branqueamento de capitais.
Então eu pensei que antes de interrogar a mulher do Doutor Bernardo, talvez fosse mais aconselhável um encontro entre nós. Não te disse nada, no sítio onde estava só podia utilizar o telemóvel, que tu recomendaste não fizesse.
Se estives de acordo ele aguarda-nos no gabinete às dez horas da manhã. E recomendou, não queria nenhum contacto com o Inspector Florindo Matos. Ele é uma peça insignificante e está referenciado pela própria Polícia. Mas goza de alguma protecção, percebes.
- Carlos fizeste bem, vamos ao encontro. Até porque eu não acredito que consigamos encontrar a mulher do morto. A esta hora a família deve estar de férias do estrangeiro, rindo da nossa cara de parvos. Acreditas?
- Que somos parvos? Sim temos sido, mas lembra-te, quem ri melhor é quem ri por último.




quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

UMA NUVEM NEGRA

GRAÇA MORAIS
O sagrado e o profano
MANUFACTURA DE TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE


CAPÍTULO X

Pedro cumprindo o que havia combinado regressou à cidade do Porto. Em Campanhã tomou um táxi e seguiu para um hotel que conhecera, há muito tempo, situado na Avenida dos Aliados. Não tinha nada de especial, apenas ficava perto do hotel onde o Carlos continuava hospedado. Facilmente se encontrariam, mesmo andando a pé. E foi logo à chegada que da cabine telefónica ligou para combinar o encontro. Seria na Avenida perto do Edifício da Câmara Municipal.
Entretanto Carlos havia copiado o arquivo fotográfico que o porteiro lhe havia entregue e partilhou as dezenas de fotografias que o arquivo continha, em correio electrónico que enviou para o seu computador pessoal e para a caixa de correio do Inspector Pedro Gonçalves.
Depois no centro de negócios do hotel, alugou uma impressora lazer e imprimiu todas as fotografias. Organizou um dossier que guardou no cofre do quarto.
Jantaram juntos e foram até ao Aeroporto. Percorreram a zona de chegada mas não encontraram qualquer cacifo reservado aos viajantes. Perguntaram mas não havia nada que se parecesse.
Desistiram, regressaram à cidade. Quando desceram perto da Estação de São Bento, deram uma espreitadela mas também ali não encontraram os cacifos que esperavam.
Pedro retirou a chave do bolso, olhou-a com mais atenção comentando:
- Já te aconteceu estares tão convicto duma razão que te tenhas esquecido do mais óbvio?
- Quantas vezes, e olha que perdi horas a tentar perceber o porquê de uma determinada situação, quando a solução era tão evidente que a tinha rejeitado. Estás a pensar assim com causa da chave, não é?
- Pois, meti na cabeça que este tipo de chave corresponderia a um cacifo num aeroporto ou numa gare de caminho de ferro e nem voltei a pensar em outra alternativa. Mas agora, depois da viagem para nada, tropecei com a evidência. Então ao Bernardo, que foi tantos anos funcionário de um Banco não lhe seria mais fácil e cómodo ter um cofre alugado? E porque não no banco onde trabalhou e teve altos cargos com responsabilidade?
- Percebo, diz Carlos, mas só temos a chave e não acredito que o cofre a existir tenha sido alugado no seu nome, pois acredito que quando ele saiu do Banco toda a sua história foi investigada. Não foi isso que o tal Director Doutor Silvestre nos disse? Mas ou me engano muito, ou este desconfiava da existência desse cofre e não nos disse por interesse ou porque  não sabe onde é e nem que será o titular.
- Tens razão mas estou cá a pensar, diz Pedro. O Bernardo era um homem sabido e esperto mas que se deixou enredar numa aventura e acabou preso numa ratoeira. Quem era a pessoa em que ele confiaria em caso de dificuldades?
- Agora percebo senhor Inspector, diz o Carlos com ar trocista, andámos os dois a dormir na forma. Se eu, casado e com filhos, me deixasse apanhar pelos olhos duma loira sabida e treinada nas técnicas da sedução, poderia embarcar na viagem mas teria colocado o cinto de segurança. E essa segurança faria todo o sentido para proteger a família. Meu caro Sherlock, o cofre estará num outro Banco, quero crer, mas em nome da mulher, mãe dos filhos. Só assim faz sentido.
- Elementar meu caro Dr. Watson, tão elementar que apostaria, terá razão.
Carlos, no meu computador está registado o contacto com a Dona Luísa Maria Magalhães Esteves dos Santos. Amanhã pela manhã arranjarei um pretexto qualquer para combinar uma visita particular. No final apresentaremos o dossier com as fotografias. Estou curioso para ver a reacção. Além de que quero que ela nos conte algo, que receio ter esquecido quando ela foi reconhecer o corpo do marido.
Pedro, eu vi a senhora de relance, não me pareceu uma viúva inconsolável nem com problemas de dinheiro.
E se a senhora também for cúmplice do crime?  
Por favor Carlos, não digas mais nada ou não vou conseguir dormir a pensar nos meandros em que nos andamos a meter. Parece que a nuvem é cada vez mais escura e já não sei se vejo uma luz ou o clarão de um relâmpago.






segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

UMA NUVEM NEGRA

LE CORBUSIER
Les deux musiciens
MANUFACTURA TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE



CAPÍTULO IX

Quando Carlos entrou no restaurante e desceu as escadas viu numa mesa do fundo o Pedro e outro indivíduo que não conhecia.
Pedro fez as apresentações, o companheiro era o Inspector Florindo Matos da direcção de investigação de tráfico de estupefacientes.
Conversaram de tudo, de assuntos correntes, actualidades, da família mas ninguém tocara o assunto principal.
A certa altura, terminada a refeição, o Inspector Florindo pediu desculpa aos colegas e abeirou-se da mesa dum desconhecido sentado só, numa mesa do fundo da sala. Cumprimentou-o com deferência e a sinal do desconhecido sentou-se na mesa.
Pedro percebeu algo estranho na atitude do colega. Em surdina deu instruções a Carlos para que logo que o colega regressasse à mesa, arranjasse uma desculpa para sair mais cedo e seguisse o desconhecido que parecia estar a dar instruções. Depois se reuniriam no hotel e fariam o ponto da situação.
Aproveitando o regresso à mesa do Inspector Florindo, Carlos olhou para o relógio, riu dizendo que tinha um encontro marcado e não se podia atrasar. Despediu-se dos colegas e saiu.
Pedro encolheu os ombros e comentou para o Inspector Florindo:
- Você também deve ter na sua brigada colaboradores como o agente Carlos. É muito competente mas perde-se por um rabo de saias. E aí vai ele ao encontro de alguma amiga.
Este ficou mais relaxado, deu um gole no whisky velho que tinha pedido e comentou:
- Ai, esta juventude que nunca mais aprende!
Pedro pediu a conta mas o colega olhou-o avisando:
- Caro amigo, aqui quem manda sou eu, a despesa é por minha conta. Quando eu for a Lisboa será então consigo. Não leve a mal mas é assim.
- Eu compreendo meu amigo, mas fui eu que convidei e por isso devo ter o privilégio de pagar e insistiu com o dono do restaurante pela conta.
Foi o Senhor Rafael, patrão do restaurante quem com um sorriso confirmou que a conta já tinha sido paga.
Não foi com surpresa que Pedro ouviu a informação. O patrão ia dizer por quem, mas foi interrompido pelo Inspector Florindo que desviou a conversa.
Pedro percebeu o embaraço do colega. E confirmou a razão. A conta fora paga pelo desconhecido que entretanto já abandonara o restaurante.
Despediram-se com Pedro a agradecer os esclarecimentos que lhe tinham sido dados assim como a atenção com o colega o tinha recebido. Em jeito de despedida asseverou:
- Meu caro amigo e colega vou sair para Lisboa, convencido que você e os seus colegas sabem muito mais do que eu, que como lhe contei, tropecei neste mundo do dinheiro por mero acaso. E assim a minha investigação será limitada ao mistério da morte na praia do Guincho. Quase de certeza ali houve razões de ciúmes e traições entre um casal desavindo. Também é esta a sua opinião?
- Sim, claro nem poderia ser de outra forma. Nós controlamos o mundo da droga e estamos em contacto com o vosso Departamento em Lisboa e com a Interpol.
Asseguro-lhe que, como teve ocasião de verificar, nada escapa ao nosso controlo. É pena aliás, eu já sugeri ao nosso Director Geral que fosse a Direcção do Porto a superintender as questões da lavagem do dinheiro. Estamos mais avançados e o combate seria ainda mais eficaz.
De qualquer modo se precisar de alguma colaboração, já sabe, tem o meu número de telefone e basta ligar.
- Muito obrigado colega, não me esquecerei, respondeu Pedro enquanto se afastava na direcção do Hotel.
Atravessava a Avenida dos Aliados quando viu o Carlos, sentado num banco do jardim, folheando um jornal e fumando um cigarro. Não mostrou surpresa pelo encontro e continuou a caminhar para o Hotel.
Entrou, pediu a chave e aguardou no quarto, passeando de um lado para o outro. O que havia obtido do Inspector Florindo fora apenas palha. Nem uma ideia nem uma indicação ou informação pertinentes. Mas não subestimou o colega, ele saberia muito mais do que quisera dizer. Teria medo, tudo indicava que sim, ou então sentia-se comprometido e não pelas melhores razões.
Carlos entrou no quarto, estava visivelmente satisfeito e deixou-se cair no sofá.
Chefe, esta vida é na verdade cheia de surpresas, e a sorte também conta.
- Vá lá, já percebi que descobriste algo importante. Sou todo ouvidos.
- Sabe Inspector cada vez mais me convenço da sua razão, quando me falou que a nossa investigação poderia ser incómoda para muita gente. Eu tinha alguma dúvida que só há pouco tempo desapareceu.
Foi assim:
- Quando fui investigar o escritório do Dr. Bernardo dei com a porta fechada mas a caixa de correio, que eu consegui espreitar, estava vazia. Alguém se encarregava de retirar o correio. O prédio tem portaria e o porteiro é esperto e nada lhe escapa. Assim que me viu descer pelas escadas desde o quarto andar, perguntou-me se tinha encontrado o Dr. Bernardo.
Não me mostrei surpreendido mas sim algo desconfiado. E o Senhor Aurélio, assim se chama o porteiro, continuou, dizendo que eu já tinha visto muita gente a bater com o nariz na porta. E sem me dar tempo de dizer algo, precisou:
- O Doutor Bernardo, deixou o gabinete há mais de quinze dias. Na semana passada eu vi três indivíduos que não conhecia, a subirem ao quarto andar. Subi pelo elevador de serviço e vi que eles estavam a entrar no escritório do Dr. Bernardo. Fiquei de atalaia e dei por eles a descerem carregando umas malas que me pareciam cheias de papéis e cada um levava também um daqueles computadores portáteis. Voltaram de novo, demoraram mais tempo e quando desceram apenas levavam uma pasta de cabedal. Os indivíduos que fizeram a limpeza do escritório eram profissionais, mas não do serviço de mudanças. Estavam bem vestidos e não pareciam Portugueses, pelas poucas palavras que os ouvir dizer. Na rua transversal pude ver um Mercedes parado, com o sinal de stop aceso e ao volante uma loira que dava as ordens. Depois de carregado o Mercedes arrancou e rapidamente deixei de o ver. Era um carro grande e preto. a matrícula não reparei nela,  mas até me pareceu estrangeira.
Chamei a Polícia mas como a porta não tinha sido arrombada o Agente não deu muita importância.
O porteiro ficou a olhar para mim e eu tomei uma decisão. Mostrei-lhe a minha identificação dizendo:
- Senhor Aurélio, o outro Polícia não deu grande importância ao que me acabou de contar, mas eu dou, porque procuro os amigos do Dr. Bernardo, já que ele foi encontrado morto numa praia perto de Lisboa.
O porteiro lamentou a morte do inquilino:
- Ele era um senhor muito educado e generoso, eu sabia que ele tinha muito movimento no escritório e tinha uma secretária loira que se não era a condutora do Mercedes era uma sósia.
Senhor Inspector, eu gostaria que as pessoas que mataram o Dr. Bernardo fossem condenadas e se me prometer que eu não serei envolvido no inquérito, posso ajudar a Polícia.
- Fique descansado, nós sabemos proteger as nossas fontes.
- Então aguarde só um bocado que eu vou a casa e já volto.
O porteiro sabia o que fazia, admito até que ele conheceria visitantes, mas tive a maior das surpresas quando ele me entregou, disfarçadamente um pequeno embrulho, dizendo que sempre tivera o prazer da fotografia.
- Carlos deixa os pormenores, vamos é abrir o embrulho.
Não foi uma surpresa, lá dentro de um envelope castanho, havia algumas fotografias já reveladas e uma disquete de máquina fotográfica digital.
Das fotos reveladas duas sobressaíram à vista dos dois Polícias. Uma era o do Inspector Florindo a outra era do desconhecido que estava no restaurante e que o Carlos havia seguido.
- Carlos onde é que este cavalheiro foi parar? - Esta é a outra surpresa. O cavalheiro é quadro de uma Sociedade Financeira. Tenho anotado o nome e a morada.Carlos, foi óptimo. Confesso que depois de ter ouvido o Dr. Florindo falar tanto e não dizer nada, quando percebi que o amigo que ele cumprimentou no restaurante era uma pessoa importante, eu senti como uma força que empurrava uma nuvem negra para nos esconder o caminho. Amanhã eu vou tomar o comboio para Lisboa, desço em Aveiro e regresso ao Porto para outro hotel. Tu ficas e esperas que eu te ligue pelo telefone fixo. Nada de telemóveis. Temos que encontrar o cacifo a que esta chave corresponde. Quem sabe, lá estará parte mais importante desta história.