segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A VIDA POR UM FIO

A ALEGRIA

Artur Castro acabava de sair da reunião mensal da Comissão Directiva da Empresa. Era a sua primeira com as funções de chefe de projectos especiais, para que fora, recentemente, escolhido.
Era um homem, com quarenta anos de idade, não conhecera outro trabalho nem outra Empresa. Aquela era a sua casa. 
Começara a trabalhar na Empresa como projectista, estudara e licenciara-se, e apesar das exigências académicas, nunca havia invocado tal facto para se eximir a deslocações de trabalho, algumas vezes mais prolongadas, quando se discutiam as propostas em concurso internacional onde a Empresa concorrera ou dirigia os ensaios dos sistemas fornecidos.
E por isso conhecia meio mundo, mas na realidade apenas as salas de reuniões onde a proposta seria negociado ou o estaleiro, quando na fase final da obra, assistia aos ensaios.
Era um dia particularmente feliz,  principalmente para alguém que subira na vida a troco de muito trabalho, estudo e aprendizagem.
Era a doutrina que costumava explicar a cada um dos colaboradores que recebera na sua divisão de projectos. Ali, naquela sala, estava o futuro da Empresa e o trabalho conjunto representava o sucesso e o bem estar dos outros trabalhadores. E eram muitos.
Quando a Administração o convidou, por breves momentos hesitou, mas acabou aceitando o desafio, confiando na equipa que com ele trabalhava.
Artur sabia que a concorrência era muito forte, designadamente a dos fabricantes asiáticos. Para a vencer, não seria pelo preço mas sim pela qualidade. Isso requeria muito trabalho de investigação e inovação.
Não era tarefa para um homem, era um desafio para uma pequena e coesa equipa de trabalho. Onde conseguira juntar o saber de experiência feito com o sabor académico em estado puro.
Dessa mescla, nasciam as ideias, as inovações, alguns erros e finalmente, os sucessos e o reconhecimento.
Estava feliz por ele e pelos colegas. Entrou na sala e foi recebido com aplausos.
Era uma manifestação espontânea, os colegas reconheceram nele as qualidades humanas. Eram colegas, amigos, competentes e solidários.
Ficou feliz e comovido ao verificar que em cima da sua secretária tinha uma oferta. Uma caixa, presumia, embrulhada em papel colorido e atada por laços que tentou desatar.
Mas estava nervoso, não tinha muito jeito com as mãos e foi Lucília uma das mais jovens engenheiras que o ajudou a desfazer o embrulho e a abrir a caixa.
Embrulhada em papel de celofane que rasgou, retirou e exibiu uma peça muito bonita de loiça da Vista Alegre. Agradeceu comovido e lembrou-se que a mulher já uma vez manifestara vontade de comprar uma taça como aquela. Mas era cara e a vida não estava mas gastos excessivos.
Agradeceu a todos, não era grande orador, as palavras saíam a conta gotas mas o sentimento estava lá e chegou ao seu destino, ao coraçãodos amigos.
Era sexta-feira e ao contrário do que era habitual, foi dos primeiros a abandonar o escritório e seguir para casa. Queria fazer uma surpresa.
Costumava esperar pelo autocarro que parava perto da porta da fábrica, mas teve sorte, um amigo ofereceu-lhe boleia, aceitou e depressa chegou ao seu destino. Morava num bom apartamento da Maia, e tinha três filhos. João bebé de berço, seis meses de vida, Filipa com irrequietos quatro anos e Joana já uma senhorita muito compenetrada no seu papel de ajudante, apesar dos nove anos de idade.
Joana era o apoio da Mãe. Apesar da idade, tinha um sentido de responsabilidade muito forte e conseguia  cuidar dos irmãos enquanto a Mãe se ocupava da cozinha.
Maria da Graça a sua companheira, fora a única paixão da sua vida e era a alegria que fazia transbordar os corações. Na verdade Maria da Graça conseguia conciliar o seu trabalho numa agência bancária de um pequeno Banco, com a responsabilidade de gerir aquela família. E fazia-o com um sorriso de felicidade.
Antes de ir para casa, olhou para o relógio, dava tempo, foi comprar umas flores simples, como simples era a mulher, uns brinquedos para os mais novos e um livro para a Joaninha. Ele chama-a assim, mas ela não gostava, já era muito crescida para o diminutivo.
Chegou a casa e ficou na janela para assistir à chegada do automóvel de família, que Maria da Graça conduzia.
E esperou.



                                                              Virgem e o Menino                                                   Hans Memling (c. 1430/40–149
                                                  Óleo sobre madeira de carvalho
                                                    Convento de Jesus, Setúbal
                                                 Museu Nacional de Arte Antiga
                                                       LISBOA/PORTUGAL



 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

SEM DESTINO


NAVEGAR À BOLINA

Para mim, escrever está a ser tão difícil como é para os veleiros navegar contra o vento.
Nunca me tinha apercebido do cansaço que ao longo de tantos textos e histórias deixei acumular.
Costumava fazer um desafio. Bastava-me encontrar um título, a partir dele começar a construir uma história que ia desenvolvendo ao sabor do vento.
Sentia-me bem, ao enfrentar um desafio que colocava a mim mesmo. Escrevia o primeiro capítulo, depois um segundo e por diante, raramente lia o que tinha escrito anteriormente e com tropeções e remendos apressados lá ia conseguindo dar corpo a uma história, feita peça a peça.
Depois fui aumentando a exigência. Não na qualidade, pois apesar do entusiasmo conheço as minhas limitações e respeito as palavras, mas apenas pelo número de capítulos que conseguia esticar a história.
O marinheiro precisa de técnica apurada para navegar à bolina. Eu quis seguir escrevendo contra o vento, sem ter aprendido a utilizar as técnicas necessárias.
Mas cada um é como é e eu sou assim. Teimoso, independente e desalinhado. E gosto.
Escrever é como enfrentar o desconhecido. Pode-se começar com uma ideia boa, que se vai mostrando ser ingénua, não haverá mal nisso, sem conteúdo, a maior das vezes será assim, mas sempre avançando, até que a memória nos atraiçoe, roubando-nos o prazer de permanecer vivos e despertos.
Penso que já ouvi na rua uma frase, uma palavra que me despertou a vontade de construir outra história. Construir como um puzzle onde por vezes as peças não se encaixam. Mas não importa, na próxima semana aqui estarei.
Entretanto, quero dedicar-vos um momento de beleza., onde se conjuga a música inesquecível do compositor francês, Camille Saint-Saens, a coreografia genial de Mikhail Fokine e a beleza da bailarina Ulyana Lobatkina.
O bailado é a Morte do Cisne.
Serão apenas alguns minutos mas acredito irão ver e rever. Como eu.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

SEM DESTINO

   COINCIDÊNCIAS

A semana passada terminou com um número de circo.
Ainda os aplausos, tímidos e alguns assobios estavam bem presentes e quatro dias passados, já a exibição se repetia. Desta vez ouvimos palmas, demos abraços o que sempre conforta.
Algo me diz que comecei mal este texto. Eu não estava a falar do que podem pensar. A minha arte favorita não será o circo, excepção para os palhaços quando ainda têm alma.
Foi uma rasteira que a mente me pregou. Eu nem me teria apercebido de tal. Mas hoje li como sempre faço, um pequeno cartoon impresso numa das páginas do jornal que costumo comprar. O diário é o Público e o cartoon comentava a estranha coincidência ou não, de os inteligentes assessores do governo, terem escolhido os dias em que a selecção de futebol jogava, partidas muito difíceis perante adversários de primeira ordem para se dirigirem ao Povo. O boneco, com o humor com que autor lhe dá vida, perguntava era quando é que a selecção voltaria a jogar.
E foi assim que numas tardes inesquecíveis os iluminados falaram, prometendo o leite e o mel aos ricos, porque o merecem, e a cicuta aos malandros, que ainda teimam em sobreviver.
Posso garantir que eu só estava a pensar no futebol e nas alegrias que se adivinham num futuro não muito distante. Cinco ou vinte anos não interessa, há que ter esperança.
Porém, mesmo não dando importância às conversas dos iluminados que cumprem o seu papel, eles lá saberão qual é, eu não sei nem quero saber, o gosto a fel fez-me desviar do tema escolhido. O futebol é matéria que domino quase tanto, como os oradores sabem de economia.
Acabei por deitar fora a água com que limpei o sabor amargo e com ela mandei passear o futebol.
Vou falar de cinema, publicando imagens de um filme que poderá ser entendido como uma premonição do que nos espera, a pobreza e a miséria. E sem esperança, que é o que dói mais.
O filme, Ladrões de Bicicletas foi dirigido em 1948, por Vittorio de Sica.
Esqueçam por momentos o triste espectáculo a que assistiram, os jogos e as conversas em família, por coincidência, nos mesmos dias.
Ganhem vontade de ver ou rever um grande filme. Não se arrependerão

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

SEM DESTINO

SERENATA

Acabei quase de um momento para o outro, a história a que chamei “OS DIAS DO FIM”
Estava cansado,  estou cansado.
Comecei com uma ideia e como muitas vezes me acontece, fui mudando à procura do rumo.
O meu objectivo era de articular a narrativa com música de que gostava.
No final acabou por sair uma mistura de tudo e no final prevaleceu a música.
De tentativa em tentativa, passando pelo cinema e por uma canção da minha juventude, acabei por escolher canções de espectáculos musicais.
Foi uma coincidência, assistira há pouco tempo a um espectáculo que os irmãos Feist apresentaram no teatro Mário Viegas. O tema do espectáculo era o caminho do musical, desde o seu início da Broadway, revivendo êxitos do Cole Porter, do George Gershwin, do Jerome Kern, do Richard Rodgers e do Óscar Hammerstein, até às super produções inglesas do Andrew Lloyd Weber.
Gostei, o Henrique Feist tem uma voz trabalhada e só assim se permitiu a enfrentar tal desafio. Revivi muitas canções que mentalmente trauteei e, senti-me bem. Há tanto tempo que não íamos ao teatro. Obrigado, para as duas pessoas que nos ofereceram aquela noite.
Escolhera para ilustrar alguns capítulos da história, músicas que têm um significado especial.
Escolhi o tema de Stephen Sondheim, ”Send in the clowns”, porque é uma das minhas canções favoritas, canção que mexe com a minha sensibilidade.
Por sua vez o tema “Sunset Boulevard” do musical com o mesmo nome, era a minha memória do cinema. Na realidade como a história que fui orientando, Sunset Boulevard é um filme extraordinário, sobre o fim de  uma diva do cinema, Gloria Swanson, interpretada pela própria acriz e dirigido pelo grande mestre, Billy Wilder.
Agora, antes de tentar escrever uma nova historieta, preciso de pôr a cabeça em ordem.
No meio de tantos desafios que me assustaram, acabei escolhendo uma música que me traz a paz de espírito. Fecho os olhos e oiço o piano que me embala com uma serenata de Beethoven.
E assim faço as pazes comigo mesmo e, talvez, até com outros.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

OS DIAS DO FIM

OS DIAS DO FIM

Apesar de algum nervosismo Catarina tentava contar ao Advogado tudo o que se lembrava.
- Comece pelo princípio, pediu o Advogado. Por exemplo, como é que conheceu o casal que a convidou para passar as férias de verão? Pelo que ouvi da sua vida e que registei, a Catarina não é acessível a qualquer pessoa  e que quase nunca vira. Então esse encontro foi arranjado. Se sim, por quem?
- Catarina caiu das nuvens, lembrava-se que sentira qualquer coisa estranha no convite ,feito por gente que mal conhecia, mas com o correr dos dias, fora esquecendo as dúvidas. Olhava para o Advogado, sentia que as palavras lhe fugiam, havia qualquer coisa importante que sentia necessidade de contar, mas estava bloqueada. Gaguejava, perdia-se com os pormenores, voltava ao início, mas cada vez ficava mais confusa. A memória não lhe obedecia. Nada a fazer, parou, escondeu o rosto, fechaando as mãos como se quisesse vencer o bloqueio e a memória não respondia.
Ficou assustada e desistiu, ficando com o olhar fixo do chão, ausente e perdida.
O Advogado quis parar com o sofrimento daquela mulher tão segura de si, que conhecera daquele dia, e que agora estava esgotada e sem confiança. E disse:
- Minha senhora, vamos ficar por aqui, não se massacre mais, a pergunta que lhe fiz, foi talvez demasiado directa. Peço desculpa. Esqueça, os porquês não serão importantes para a sua defesa.
Pelo que sei, admito que o Ministério Público retire a acusação. Não me admirava nada, mas se o não fizer iremos com calma desmontar a armadilha, em que se deixou apanhar. Porque foi uma armadilha, tem consciência disso não tem?
 Acenou que sim, mas não procurou saber mais nada. Naquele momento o que desejava era respirar o ar da rua, deixar que o vento lhe levasse os temores e encontrasse a paz que precisava.
Saiu amparada ao braço da amiga. O pequeno automóvel de Valéria estava estacionado na garagem do edifício, entrou e quando o automóvel encontrou a rua e o caminho de casa, abriu a janela e uma chuva leve fez-lhe bem. Recuperara do mau momento. Catarina entrou em casa, abriu a caixa de correio e voltou a ficar agitada.
- O que é que se passa, pergunta Valéria, estavas tão bem e voltaste a tremer?
- Sim mas de excitação. Esta carta é da editora a quem entreguei o livro de que te falei. Tenho medo de abrir, receio a resposta..
Valéria pegou no subscrito, abriu, retirou uma carta em papel timbrado e começou a ler em voz alta:
“- Cara Senhora,
Recebemos o seu romance “Os dias do Fim”.
A Direcção vem por este meio comunicar-lhe o nosso interesse em proceder à publicação do romance, com uma tiragem que consta do contrato que lhe submetemos em anexo.
Gostamos do seu livro e achamos que terá êxito. No nosso projecto será considerada também a sua adaptação para o cinema. Convidamo-la a analisar com cuidado os termos e as condições que lhe propomos e que serão certamente do seu agrado.
Ficamos aguardando a sua visita breve, para se assinar o contrato e se acordarem eventuais colaborações na revisão do texto, escolha da capa e da contra-capa, prefácio e ou dedicatória se for sua intenção.
Acredite, o seu livro será objecto de um lançamento que a sua qualidade justifica. Os intervenientes ficarão sujeitos à sua aprovação.
Apresentamos os nossos melhores cumprimentos”
- Catarina acorda, és uma escritora e esse vai ser o teu caminho. Fico tão feliz porque tu mereces esta notícia, ainda mais depois de uns momentos difíceis.
-Valéria, sabes que o livro se baseia numa história real. A ascensão de uma mulher ao estrelato e a sua queda no ocaso. Não assinarei o contrato sem primeiro ter um encontro com a mulher que me incentivou a contar a sua história, mas sem nomes nem datas.
Encontrei-a, há mais de vinte anos. Era eu uma jovem jornalista a dar os primeiros passos nesta vida e, ela uma estrela adorada pelos admiradores e disputada pelos produtores. Era uma mulher muito bela, muito elegante, os homens andavam loucos por um sorriso. Foi muito simpática ao falar comigo. Lembro que ao contrário do que diziam, não era uma cabeça vazia.
Quinze anos depois voltei a vê-la. Estava só, os anos não tinham sido generosos e o seu rosto, outrora luminoso e atraente, estava agora carregado de maquilhagem. Estava magra, perdera a elegância e disfarçava o perfil,  envolta em vestidos vaporosos que já não se usavam.
Fiquei triste. Já não era uma estrela, as paixões tinham desaparecido e o último homem da sua vida, fora um oportunista sem eira nem beira que lhe extorquiu o pouco amor próprio, que ela ainda tinha.
Foi na solidão de um banco de um bar, que ela me incentivou a escrever. Ela, a Margarida do livro, nome falso é claro, estava a aproximar-se dos dias do fim. Eu fui testemunha da decadência e por isso o livro terá de lhe ser dedicado.
FIM




quarta-feira, 5 de setembro de 2012

OS DIAS DO FIM

MUDAR DE VIDA

O Editor da revista telefonou-lhe pedindo para se apresentar na redacção. Ela era apenas uma avençada, não devia satisfações mas a sua colaboração num dos cadernos era uma parte substancial do seu rendimento.
Foi e enfrentou o homem de quem não gostava, tendo tido alguns problemas de relacionamento que nunca sararam. Edmundo receava Catarina, sabia que ela tinha uma agenda muito detalhada e documentada e portanto seria uma inimiga perigosa. Mas desta vez era ele que lhe apresentou fotografias dela a ser conduzida no carro celular acusada de traficar cocaína. O seu rosto abriu-se num sorriso alarve comentando:
- Minha pobre amiga como é que você se deixou apanhar nas teias da Lei e logo suspeita de traficante de drogas duras?
Catarina ia responder mas Edmundo não lhe deu tempo e continuou:
- A sua colaboração nesta revista acabou, a Administração mandatou os serviços Jurídicos para defenderem o bom nome desta revista que não pode ser ferido pelo seu comportamento irresponsável e que pode arrastar a Revista para um processo Judicial, que fará as delícias dos nossos concorrentes.
Fica por isso suspensa a sua colaboração, mande os recibos referente a trabalhos ainda não liquidados, receberá o seu valor e nunca mais, repare bem, nunca mais a quero encontrar na redacção.
Adeus e lembre o meu último aviso. Tenha cautela, não solte o seu conhecido mau génio. Arranjarás mais problemas, isso será garantido.
Catarina levantou-se e aproximando-se cara a cara do Edmundo, replicou:
- Ri melhor quem ri por último. O mundo dá muitas voltas e um dia alguém poderá contar as tuas manobras, as tuas mentiras, a tua chafurdice que levaram um homem, desculpa se te ofendi, um indivíduo medíocre a atingir uma posição para a qual não tens o mínimo de preparação.
A tua história dará um livro. O título até poderá ser” como subir na vida corrompendo os outros e vendendo-se a si mesmo.”
Não será propriamente um livro recomendável mas adivinho terá sucesso garantido. Ainda irei pensar nisso.
 Virou-lhe as costas e saiu batendo com estrondo a porta do gabinete, deixando Edmundo exposto ao riso dos colaboradores que tinham assistido à cena.
Respirou de alívio logo que abandonou a revista. Agora teria de procurar trabalho.
Ela sabia que tinha mercado, já rejeitara muitas ofertas de trabalho porque lhe exigiam a exclusividade.
Agora livre poderia escolher.
Podia mas não foi. Fez inúmeros contactos, foi sempre recebida com atenção mas as pessoas culpavam a crise traduzida na diminuição das tiragens, nos cortes de publicidade, na dificuldade de arranjar patrocínios. E todos acabavam por dizer que lamentavam, mas não tinham verba disponível para contratar uma especialista. Faziam as revistas com fotografias, meia dúzia de notícias mal alinhavadas, mais umas fotografias com alguma carga erótica e pronto. Fecha e sai para as vendas.
Na realidade, Catarina andara muito tempo afastada das realidades do dia a dia. O seu trabalho era com outra qualidade, razoavelmente pago, ganhara nome e experiência mas agora nada lhe iria servir.
Tinha algumas reservas financeiras, não tinha encargos avultados mas os recursos não eram inesgotáveis.
Enquanto no sossego da casa ia pensando no futuro o passado estava a bater-lhe à porta. E foi-lhe levado por um agente da Autoridade sob a forma de uma notificação para comparecer no julgamento sobre a rede de tráfico de droga onde se vira envolvida.
Ficou abalada com a notificação, sentiu  que um tremor que percorria o corpo. Esquecera-se que tinha contas a prestar e nem procurara um advogado. Não valerá a pena, pensava, não cometi nenhum crime, ninguém me vai condenar por algo que eu não fiz. Pelo menos não me lembro de ter guardado os malditos envelopes.
Estendeu-se no sofá, fechou os olhos e reviveu a sua vida, à procura daquela jovem, cheia de projectos, capaz de transformar o mundo, sonhos que pouco a pouco fora perdendo.
Era ainda jovem quando perdera os Pais num acidente de automóvel. Fora o seu primeiro contacto com a realidade da vida. Como tudo lhe parecia agora distante. Perdera afectos, faltou-lhe o ombro amigo mas não se deixou vencer.  Todavia os sonhos pedidos nunca mais foram encontrados.
Apaixonou-se, mas foi um amor efémero,  ao menor percalço soçobrou.
Agora, a aproximar-se dos quarenta anos,  tinha  mais um desafio. Não tinha trabalho e brevemente estaria sentada no banco dos réus de um Tribunal. Que importa, se a minha vida foi desperdiçada  eu fui a culpada, devo pagar o preço.
Deixara-se envolver pelas recordações. Era como se assistisse a um filme, quer o projector transmitia a velocidade dez vezes maior. As imagens sucediam-se, os rostos eram aparições fugazes e no final ficava o vazio, o fim.
O telefone tocou. Era um som desagradável que no silêncio da noite lhe feria os ouvidos.
Atendeu, era Valéria, a amiga que lhe restava:
- Catarina perdoa, esqueci-me te dizer que amanhã pelas onzes horas temos uma reunião com o Dr. Maurício Costa, o advogado que me foi recomendado pelo meu chefe. Ele é o advogado da Agência e acedeu a organizar e conduzir a tua defesa no processo do Algarve.  Não podes faltar e eu passarei por casa para te acompanhar.
Agora descansa, vemo-nos amanhã.   
Catarina estava ausente, ouviu a amiga mas não respondeu. Sentiu-se cansada e vencida. Na sua cabeça apenas uma ideia fazia caminho. Mudar de vida e procurar fazer algo de diferente. O quê, não fazia ideia, mas voltar ao passado não, o passado eram apenas memórias.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

OS DIAS DO FIM

A VIDA É UM FILME

Valéria passou a ser uma visita diária. Passava na hora de almoço e voltava depois do jantar. Ficava até tarde, ouvia Catarina falar da sua vida, do seu casamento falhado, dos seus sonhos perdidos, das amizades traídas, da vida fingida e da sua imensa solidão.
Depois uma noite resolveu contar as suas experiências os seus desenganos a vergonha por que passara, desde o dia em que acordou despida, escondida no recanto.
Sofrera a sensação de ter sido violada, objecto de jogos sexuais mas tudo fizera para esquecer. Aprendera com a lição e anos depois deixara-se conduzir para uma caminho ainda mais pedregoso. Agora tinha a certeza que fora um peão num jogo mais perigoso, O tráfico de droga. E pela primeira vez tinha medo.
Foi Valério que lhe lembrou a conveniência de contratar um advogado para preparar a sua defesa quando fosse chamada a julgamento. Não seria fácil, ninguém acreditaria que a cocaína que fora apreendida na sua mala, o que ela confirmou, não seria para consumir ou traficar.
Explicação não tinha, mais uma vez bebera e fora descuidada.
Lembrou-se que fora colega de liceu dum rapaz que voltara a encontrar mais tarde, na altura Juiz do Tribunal da Comarca. Tinham tido enquanto jovens alguma proximidade e um namorico que a vida se encarregou de afastar. Mas viam-se de vez em quando, o amigo continuava a morar perto, e com alguma frequência se encontravam sentados no bando do jardim.
Era engraçado, recordava Catarina, eu escrevia no meu portátil historietas e notícias sem relevância enquanto Alfredo procurava naquele intervalo oxigénio para respirar depois de noites a trabalhar sobre processos que tinha para despachar.
Tomou uma decisão, vou pedir-lhe que me aconselhe o Advogado digno de confiança. Não sei se será correcto mas antes ouvir uma escusa de alguém em que se acredita no que ser acompanhada por um advogado com outros interesses.
Passou a sair, era o princípio do mês de Setembro, o tempo estava muito agradável e o respirar ar puro far-lhe-ia bem.
Numa dessas saídas, de manhã bem cedo, Carlos sobraçando um livro dos pesados, um código certamente, ocupou o lugar a seu lado.
Foi uma conversa sobre férias, sobre coisas do dia a dia. A certo ponto Carlos contou que se tinha divorciado. Fora um momento difícil, um divórcio litigioso com crianças envolvidas e ele não aguentara. Uma depressão e a baixa médica foram o resultado.
Catarina ficou surpreendida, porque viu a expressão dorida no rosto do amigo e um sistema nervoso tão fragilizado que o levava a fumar cigarro atrás de cigarro. E perguntou:
- Carlos um divórcio não é nunca o fim da vida, é com mais dor ou menos dor um começo de uma nova. Mas a fumares desalmadamente como te vejo, receio pela tua saúde. Presumo que o divórcio foi há pouco tempo, verdade?
- Sim a sentença foi pronunciada faz amanhã dois anos!
- Dois anos, e tu ainda sofres dessa maneira? Meu amigo, precisas de ajuda. Porque não procuras um Psicólogo?
Carlos não respondeu, olhou para Catarina murmurando:
- Sabes o que mais me dói é que eu fui o culpado. Deixe-me arrastar por uns olhos negros, e depois caminhei para o precipício. Levantou-se e com um andar vacilante partiu.
Catarina ficou siderada. Como é que um divórcio pode levar um homem adulto, habituado a tomar decisões que envolvem a vida e a liberdade de outros, se deixa abater por um caso pessoal, cada dia mais vulgar?
Regressou a casa, não conseguia esconder a perplexidade daquele encontro. E eu que julgava que a minha vida era um romance e afinal há outras histórias por contar.
Sentou-se no seu lugar preferido, via a luz do sol que lhe iluminava a casa vazia, e de uma forma febril escreveu, e escreveu capítulos do romance inacabado. O encontro com Carlos dera-lhe inspiração para dobrar o cabo das tormentas. O livro era agora o exemplo.
O sol já há muito se escondera. Era noite quando Valéria lhe fez a visita habitual. Encontro Catarina com um ar feliz, como o de alguém que se libertara dum pesadelo.
- Não acredito, disse, estou a ver a mesma Catarina que ontem deixei chorosa e perdida?
- Catarina sorriu e mostrou as páginas impressas do seu romance dizendo:
- Hoje a senti força e inspiração para terminar o meu livro, Os Dias do Fim. Agora é preciso reler, corrigir e arranjar uma editora que aceite a sua publicação.
- Parabéns, depois gostarei de ler o livro, mas quando estiver impresso, não gostaria de influenciar a tua escrita.
Agora vamos jantar. Hoje é dia de festa. Porque venceste os teus medos, as tuas indecisões, os teus recuos e abriste um caminho novo.