11 – MUDANÇAS
Um contínuo veio chamá-lo. O senhor director acabara de chegar e mandara avisar que o esperava no gabinete.
Fazendo das fraquezas forças, Felizberto entrou no gabinete e cumprimentou o Director com um esgar, que pretendia ser um sorriso. Este levantou os olhos dum papel que estava lendo, olhou para Felizberto e assustou-se.
- Meu caro amigo, você está doente ou é cansaço? Nunca pensei que o viria encontrar tão abatido, logo hoje, que tenho tantas novidades para lhe contar! Talvez o melhor seja deixar para amanhã. Vá descansar, passe pelo médico para lhe receitar umas vitaminas ou uns tónicos, durma uma noite bem dormida e amanhã ou depois falamos. Não se preocupe com o serviço porque eu estou de volta e posso dirigi-lo.
Felizberto nem sentiu coragem para responder. Saiu do gabinete, curvado como um velho e voltou para casa. Deitou-se em cima da cama, teve um ou outro espasmo mas deixou-se vencer e dormiu horas seguidas. Acordou já era bem tarde. Saiu foi tentar jantar, conseguiu comer qualquer coisa leve, voltou para o quarto e continuou a dormir.
No dia seguinte sentiu-se um pouco melhor, ao fazer a barba ainda tremia de olhar o espelho mas já deixara de ver aquela imagem que o havia transtornado.
Entrou cedo no trabalho e começou a dar seguimento às inúmeras cartas que tinha pendentes na sua secretária.
Mas o destino perseguia-o como uma maldição. Ao tocar numa das cartas, sentiu que ali estava mais uma carta de amor e de desespero. Ficou muito tempo com ela nas mãos, hesitando em abrir ou deixar seguir. Não sabia o que mais o faria sofrer. A angústia de um desenlace ou a persistência da dúvida.
Mas abriu. O endereço seguia o padrão habitual e o remetente também. Já nem perdia tempo com estes pormenores.
O texto era um lamento e um raio de esperança.
“Minha vida,
Agora,o nosso encontro está mais próximo. Tu és a réstea de sol que me alumia. Não ma tires, não me condenes à escuridão eu que só já vejo o mundo nos teus olhos.
Em breve, muito em breve estaremos juntos e beberemos as nossas lágrimas.
IR BEBER-TE
Ir beber-te num navio de altos mastros
No mal alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.
Para ti sobre a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
(Sophia de Mello Breyner)
Que o vento suão te traga, como de mim te levou.
Quando voltares, olha bem para o cais, pois vais ver-me de branco vestida, como uma noiva em dia de casamento.
Sim, conseguimos.
Ao fim de tantos anos de dor e ausência, vou para Paris e estarei no cais alvoroçada e fremente à tua espera.
Então, como dois jovens de rosto feliz e de lamentos contidos, com o sorriso das madrugadas, com o cantar das ondas do nosso mar, perder-nos-emos nos braços um do outro. E assim ficaremos, até que algo mais forte do que a morte nos separe.
Acredita no amor que me consome. Na saudade que me fere. Não troco as nossas vidas feitas de dor e regadas com lágrimas. Somos o que somos e este foi o nosso fado.
Volta, meu amor, volta depressa.
Amo-te tanto.
M
Porto, 8 de Setembro de 1954
Fechou o envelope e colocou-o pronto para seguir. Tinha acabado de o fazer quando o Director o mandou chamar.
Estava à porta procurando mais forças para entrar no gabinete, quando a porta se abriu e o Director lhe lançou um braço pelo ombro dizendo:
- Venha meu amigo, sente-se aqui, pois vejo que está com melhor aspecto e as notícias que lhe vou dar ainda o vão fazer sorrir de alegria. E começou a contar as novidades:
- Estas férias trouxeram grandes modificações na vida deste seu amigo. Primeiro, fui requisitado pelo Ministro da Informação para seu assessor, com início no primeiro dia de Outubro. Isso implica uma mudança residência e a Dona Leocádia, entusiasmada, já ficou em Liboa para escolher a nossa futura casa;
Depois, a minha filha a Maria da Cruz, casou-se no último fim de semana. Foi uma festa simples, por vontade expressa dos noivos, e reservada à família mais chegada. O meu compadre, Comendador Moreira e a Esposa ficaram desgostosos, mas eu entendi o desejo da minha filha. Bem a conheço e sei quão simples ela é.
Ainda mais, a minha filha mais velha a Maria Madalena, quando esteve na quinta do Douro com o casal nosso amigo, recebeu o convite para ir trabalhar para a Embaixada em França como assistente do adido cultural .Ficou naturalmente feliz. O Dr. Alexandre de Freitas, acaba de ser nomeado Embaixador e vai apresentar credenciais na próxima sexta-feira. Nesta altura a minha filha já está em Paris para acompanhar a transferência dos dossiers.
Então meu amigo, o que me diz? Não me parece ter ficado contente?
- Desculpe senhor Director, estava a pensar nas voltas que o mundo dá, em menos de um mês. Mas, claro que fico muito feliz com o que ouvi e desejo a todos o melhor. Ficarei triste, é claro, por o ver partir, mas como vou agora de férias terei tempo de recuperar.
-Sim eu compreendo a sua tristeza, mas são oportunidades que não devemos deixar fugir. Você meu caro amigo, trate de aproveitar as férias para descansar. Que bem precisa, isso eu vejo. Até porque ao voltar terá novas funções à sua espera. Irá ser adjunto do novo director, pois ele, coitado, é novo nestas coisas e não tem experiência. E a sua promoção, e é disso que se trata, será efectiva a partir do dia 1 de Outubro próximo. Fui eu mesmo que a redigi e obtive o acordo do senhor Ministro.
- Vejo que já ficou com melhor cara, Felizberto. Agora saia e vá preparar as suas coisas para as férias. Não se esqueça que no último dia de Setembro deve estar aqui para a transferência de poderes. Tenha umas boas férias que bem merece.
sábado, 30 de outubro de 2010
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
O Carteiro que gostava de cartas de amor
10 - À BEIRA DO ABISMO
Mais uma carta para juntar aos seus receios. E que ele iria sentir de forma tão intensa, sofrendo como nunca pensou ser possível.
Meu amor,
Hoje quero estar mais tempo perto de ti. Hoje a noite em que te escrevo vai ser de martírio.
Hoje vão desfilar pela minha memória todos os horrores por que passei. As desilusões que sofri, o sofrimento que testemunhei e a barbárie de que o homem foi capaz. Hoje sinto o cheiro a morte que se me agarrou ao corpo. E que teima em não me libertar. E é com os olhos rasos de lágrimas que penso em ti.
E sinto-te, partilhar dos meus momentos. Aqueles que vivemos juntos, e tão poucos eles foram, e aqueles que vivemos, cada um em seu mar, mantidos afastados como dois proscritos.
Hoje preciso de reviver o nosso passado, porque tenho medo do futuro.
Sinto-me morrer um pouco e tenho medo de fechar os olhos.
Vem nas asas aladas do pensamento fazer-me companhia. Vamos beber do mesmo copo o fel das nossas vidas. Brindemos ao amor à vida e à morte. Mas brindemos juntos, dois corpos numa mente.
É de noite. Faz calor e as ruas estão cheias de gente que ri enquanto sorve bebidas geladas. Gente que ri, porque meu Amor ainda há gente que ri e que é feliz.
Chego à janela e apetece-me pedir silêncio em nome dos que estão tristes e sós. Mas que adianta, ninguém me vai ouvir.
Sabes, amanhã vou embarcar para Marselha e dali sigo para Argel. Vou para uma cidade linda e branca, mas carregada de ódio e pronta a rebentar em pólvora e em sangue.
Eu já vi sangue demais. Já não sei se suporto nova provação. E meu Amor, desta vez sinto o medo. Quando cerro os olhos, vejo corpos caídos, exangues, mas sem rosto. É um medo que me arrepia como se fosse um pressentimento.
Não sei que fazer. Estou perdido a meio caminho, sem bússola sem guia e sem vontade de caminhar. E a noite que não passa e leva os meus fantasmas. Sinto-me à beira de um precipício e uma sombra que ri, segreda-me: anda em frente, segue, dá o passo que te falta!
E eu recuo, agarrando-me ao vazio, pedindo e gritando, agora não, ainda não.
BALADA
Depois do sangue misturado,
depois dos dentes, dos lamentos,
estamos deitados lado a lado,
e desfolhamos sofrimentos.
Temos trint’anos, mais trezentos
de sofredora exaltação.
É este o cabo dos tormentos?
Ai, não e não! Ainda não.
Saboreamos o passado
por entre os beijos mais violentos
e mais subtis que temos dado.
E o monumento dos momentos
oscila, desde os fundamentos,
a tão febril consagração.
Mas estacamos, sonolentos.
Agora, não. Ainda não...
Tudo se torna esbranquiçado:
eram azuis, são já cinzentos
os horizontes do pecado ...
Há nos teus ombros turbulentos
cintilações, pressentimentos ...
Os nossos corpos descerão
para que abismos lamacentos?
Ah! não, e não! Ainda não!
Eis-vos, de novo, movimentos
que apunhalais a inquietação!
E assim unidos gritaremos
que não e não! que ainda não!
(David Mourão-Ferreira)
O sol despontou. A noite escura foi-se desvanecendo e um dia radioso se anuncia. Vou até à janela, já não oiço a voz que me atormentou. A cor do sol ao amanhecer é viva, cheia de esperanças. Assim como eu fico. Mas são horas de partir.
É só descer as escadas, puxar uma pequena mala e tomar um táxi que me espera. O condutor guiará que nem um louco na direcção da estação de Austerlitz. A hora do comboio aproxima-se. Não posso tardar.
Voltarei?
Vai à nossa praia, procura o lugar onde enterramos os sonhos e os desejos e junta mais este. Quem sabe, um dia os iremos reviver.
Adeus, adeus adeus
A
Paris, 31 de agosto de 1954
Felizberto leu este pedido de ajuda, este grito de medo. Também eu tenho medo meu irmão, murmurava enquanto um espasmo de dor lhe perpassava pelo corpo.
Oh como agora se lembrava do que lhe custarara, jovem e ingénuo seminarista, ter de inventar segredos, pecados e luxúrias, que nem sabia o que eram, para deleite de alguns Padres que o ouviam no confessionário. E agora, tantos anos já vividos, tinha sido ele a espreitar os segredos de um par de amantes e também para seu único prazer. Afinal, pensava para si, qual era a diferença?
Olhava em redor, perdido. Procurava uma mão amiga a quem pedisse ajuda. Mas não tinha. Tudo perdera porque tudo quisera e esquecera as pessoas.
Tinha o olhar turvo e pesado. Precisava de refrescar a cabeça. Foi a um lavatório, olhou-se num espelho e recuou num salto. Também ele vira jovens da sua idade tombados, erguendo as mãos implorando ajuda, mas não tinham rosto. Eram mortos vivos, eram a sua assombração. Saiu a correr para casa. Sem parar, ouvia passos que o perseguiam mas não via ninguém. As ruas estavam vazias e só ele corria fugindo do destino que imaginara ver.
Parou numa taberna a meio do caminho, escura e quase vazia, comprou uma garrafa de vinho, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos. Pagou e sem olhar para trás correu e encerrou-se no quarto. Estava quente e o suor escorria em bica pelas fontes. Abriu a janela, e começou a beber pela garrafa grandes tragos de vinho. Era áspero e parecia queimar a garganta e o peito. Acendeu um cigarro, outro, e mais outro e inalando tanto fumo e sorvendo tanto alcool, começou a sentir uma névoa sobre os olhos que se fecharam de cansaço. Acordou com os primeiros raios de sol. Lavou-se, vestiu-se sem nunca olhar o espelho. Tinha medo de se ver.
Entrou no serviço e seguiu logo para o seu lugar. Remexeu uns papéis,
segurou a cabeça entre as mãos. Estava esgotado. Consumira-se naquela loucura que vivia, como se fosse uma vida paralela. Ele era parte da tragédia e, era dela, que o seu espírito se alimentava.
Mais uma carta para juntar aos seus receios. E que ele iria sentir de forma tão intensa, sofrendo como nunca pensou ser possível.
Meu amor,
Hoje quero estar mais tempo perto de ti. Hoje a noite em que te escrevo vai ser de martírio.
Hoje vão desfilar pela minha memória todos os horrores por que passei. As desilusões que sofri, o sofrimento que testemunhei e a barbárie de que o homem foi capaz. Hoje sinto o cheiro a morte que se me agarrou ao corpo. E que teima em não me libertar. E é com os olhos rasos de lágrimas que penso em ti.
E sinto-te, partilhar dos meus momentos. Aqueles que vivemos juntos, e tão poucos eles foram, e aqueles que vivemos, cada um em seu mar, mantidos afastados como dois proscritos.
Hoje preciso de reviver o nosso passado, porque tenho medo do futuro.
Sinto-me morrer um pouco e tenho medo de fechar os olhos.
Vem nas asas aladas do pensamento fazer-me companhia. Vamos beber do mesmo copo o fel das nossas vidas. Brindemos ao amor à vida e à morte. Mas brindemos juntos, dois corpos numa mente.
É de noite. Faz calor e as ruas estão cheias de gente que ri enquanto sorve bebidas geladas. Gente que ri, porque meu Amor ainda há gente que ri e que é feliz.
Chego à janela e apetece-me pedir silêncio em nome dos que estão tristes e sós. Mas que adianta, ninguém me vai ouvir.
Sabes, amanhã vou embarcar para Marselha e dali sigo para Argel. Vou para uma cidade linda e branca, mas carregada de ódio e pronta a rebentar em pólvora e em sangue.
Eu já vi sangue demais. Já não sei se suporto nova provação. E meu Amor, desta vez sinto o medo. Quando cerro os olhos, vejo corpos caídos, exangues, mas sem rosto. É um medo que me arrepia como se fosse um pressentimento.
Não sei que fazer. Estou perdido a meio caminho, sem bússola sem guia e sem vontade de caminhar. E a noite que não passa e leva os meus fantasmas. Sinto-me à beira de um precipício e uma sombra que ri, segreda-me: anda em frente, segue, dá o passo que te falta!
E eu recuo, agarrando-me ao vazio, pedindo e gritando, agora não, ainda não.
BALADA
Depois do sangue misturado,
depois dos dentes, dos lamentos,
estamos deitados lado a lado,
e desfolhamos sofrimentos.
Temos trint’anos, mais trezentos
de sofredora exaltação.
É este o cabo dos tormentos?
Ai, não e não! Ainda não.
Saboreamos o passado
por entre os beijos mais violentos
e mais subtis que temos dado.
E o monumento dos momentos
oscila, desde os fundamentos,
a tão febril consagração.
Mas estacamos, sonolentos.
Agora, não. Ainda não...
Tudo se torna esbranquiçado:
eram azuis, são já cinzentos
os horizontes do pecado ...
Há nos teus ombros turbulentos
cintilações, pressentimentos ...
Os nossos corpos descerão
para que abismos lamacentos?
Ah! não, e não! Ainda não!
Eis-vos, de novo, movimentos
que apunhalais a inquietação!
E assim unidos gritaremos
que não e não! que ainda não!
(David Mourão-Ferreira)
O sol despontou. A noite escura foi-se desvanecendo e um dia radioso se anuncia. Vou até à janela, já não oiço a voz que me atormentou. A cor do sol ao amanhecer é viva, cheia de esperanças. Assim como eu fico. Mas são horas de partir.
É só descer as escadas, puxar uma pequena mala e tomar um táxi que me espera. O condutor guiará que nem um louco na direcção da estação de Austerlitz. A hora do comboio aproxima-se. Não posso tardar.
Voltarei?
Vai à nossa praia, procura o lugar onde enterramos os sonhos e os desejos e junta mais este. Quem sabe, um dia os iremos reviver.
Adeus, adeus adeus
A
Paris, 31 de agosto de 1954
Felizberto leu este pedido de ajuda, este grito de medo. Também eu tenho medo meu irmão, murmurava enquanto um espasmo de dor lhe perpassava pelo corpo.
Oh como agora se lembrava do que lhe custarara, jovem e ingénuo seminarista, ter de inventar segredos, pecados e luxúrias, que nem sabia o que eram, para deleite de alguns Padres que o ouviam no confessionário. E agora, tantos anos já vividos, tinha sido ele a espreitar os segredos de um par de amantes e também para seu único prazer. Afinal, pensava para si, qual era a diferença?
Olhava em redor, perdido. Procurava uma mão amiga a quem pedisse ajuda. Mas não tinha. Tudo perdera porque tudo quisera e esquecera as pessoas.
Tinha o olhar turvo e pesado. Precisava de refrescar a cabeça. Foi a um lavatório, olhou-se num espelho e recuou num salto. Também ele vira jovens da sua idade tombados, erguendo as mãos implorando ajuda, mas não tinham rosto. Eram mortos vivos, eram a sua assombração. Saiu a correr para casa. Sem parar, ouvia passos que o perseguiam mas não via ninguém. As ruas estavam vazias e só ele corria fugindo do destino que imaginara ver.
Parou numa taberna a meio do caminho, escura e quase vazia, comprou uma garrafa de vinho, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos. Pagou e sem olhar para trás correu e encerrou-se no quarto. Estava quente e o suor escorria em bica pelas fontes. Abriu a janela, e começou a beber pela garrafa grandes tragos de vinho. Era áspero e parecia queimar a garganta e o peito. Acendeu um cigarro, outro, e mais outro e inalando tanto fumo e sorvendo tanto alcool, começou a sentir uma névoa sobre os olhos que se fecharam de cansaço. Acordou com os primeiros raios de sol. Lavou-se, vestiu-se sem nunca olhar o espelho. Tinha medo de se ver.
Entrou no serviço e seguiu logo para o seu lugar. Remexeu uns papéis,
segurou a cabeça entre as mãos. Estava esgotado. Consumira-se naquela loucura que vivia, como se fosse uma vida paralela. Ele era parte da tragédia e, era dela, que o seu espírito se alimentava.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
O Carteiro que gostava de cartas de amor
9 - SINAIS
E a procura, desesperada, das cartas que tanto o impressionavam, tornou-se doentia. Ficava eufórico e perturbado ao mesmo tempo. Estava a perder o controlo das suas emoções. Para isso contribuiu mais esta carta dirigida a Louis Aragon, rue de Montparnasse, 36 – Paris. A remetente era Sofia Melo, da Rua sá da Bandeira, sem número, na cidade do Porto.
Meu amor,
Estou só, mas estes são os melhores momentos da minha vida. Os meus Pais e a minha irmã foram de férias, eu fiquei. Só irei passar uma semana a casa de uns amigos no Douro pois para além da paisagem fazer bem à minha alma, estarei com uma senhora muito simpática, que sempre me tratou com carinho. Ela conhece um pouco da história do nosso jovem amor e prometeu ir tentar ajudar ao nosso reencontro. E eu acredito.
Na noite passada fui passear à nossa praia. Estive sentada a ouvir o bramir das ondas, tentando destruir os blocos de pedra que colocaram como obstáculo.
O mar luta para seguir o seu caminho. Não desiste e tanto porfia que sempre alcança. Tomara eu ter feito o mesmo e ter galgado os muros com que me cercaram.
A noite está escura. No céu brilham as estrelas. São as mesmas que testemunharam o nosso amor e selaram as nossas promessas. Lá do alto, vigiam a cova de areia onde enterrámos os nossos sonhos. Noite, minha amiga e companheira, leva-me para junto de quem amo.
Noite
Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que eu julguei perdida.
Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,
Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,
Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.
Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem
Tristeza das cigarras a cantar.
Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
(Sophia de Mello Breyner)
Recebi, pelo portador do costume, a encomenda com livros e o exemplar da revista com as tuas reportagens. Fiquei feliz de ver a tua foto no jornal, com o teu cabelo revolto e já grisalho, as rugas da vida talhadas no teu rosto. Mas fiquei muito preocupada com a força dos teus artigos. Vi neles uma denúncia mais do que uma reportagem; uma acusação mais do que um relato mas sobretudo uma revolta e um grito de alerta. Que, meu amor, como bem sabes, ecoará no vazio dos que se recusam a olhar o futuro.
Guarda para ti esse sentimento, não deixes que ele vá corroendo a tua alma. Vê o futuro como sonhámos, naquelas noites intemporais. Para que um dia possamos caminhar através do mistério que se embala nos pinhais e no mar.
No nosso mar.
Vivo com uma réstea de esperança na promessa que me fizeram. Quem sabe dá certo e um dia estaremos juntos, finalmente juntos.
Até lá espera por mim. Não vou tardar.
UM DIA
Um dia mortos, gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
(Sophia de Mello Breyner)
M.
Porto, 25 de agosto de 1954
Felizberto sentia-se, carta a carta, mais perdido. A realidade e a ficção não as distinguia, porque dentro de si, havia o conflito entre o bem e o mal. Um, era o jovem idealista e natural que um deixara a sua terra para encontrar um mundo melhor; outro era o adulto que abandonara os ideais, e se perdera.
O primeiro queria acabar de vez com a doença que o infectara. O segundo precisava de mais tragédia e dor para se alimentar.
Cada carta que abria, cada texto que lia, cada poesia que gritava, iam alargando a ferida sangrenta que já sentia. O sofrer era como um fogo interior, um tormento que se cumpria na solidão da sua existência.
Não se conseguira libertar do vício, mas, pouco a pouco, ia tentando colocar mais distância.
Mas quantas vezes o destino determina o caminho. Já não perdia tempo a procurar as cartas. Nem era preciso, parecia que alguém as colocava à sua frente e lhe segredava” porque esperas abre e lê”.
E a procura, desesperada, das cartas que tanto o impressionavam, tornou-se doentia. Ficava eufórico e perturbado ao mesmo tempo. Estava a perder o controlo das suas emoções. Para isso contribuiu mais esta carta dirigida a Louis Aragon, rue de Montparnasse, 36 – Paris. A remetente era Sofia Melo, da Rua sá da Bandeira, sem número, na cidade do Porto.
Meu amor,
Estou só, mas estes são os melhores momentos da minha vida. Os meus Pais e a minha irmã foram de férias, eu fiquei. Só irei passar uma semana a casa de uns amigos no Douro pois para além da paisagem fazer bem à minha alma, estarei com uma senhora muito simpática, que sempre me tratou com carinho. Ela conhece um pouco da história do nosso jovem amor e prometeu ir tentar ajudar ao nosso reencontro. E eu acredito.
Na noite passada fui passear à nossa praia. Estive sentada a ouvir o bramir das ondas, tentando destruir os blocos de pedra que colocaram como obstáculo.
O mar luta para seguir o seu caminho. Não desiste e tanto porfia que sempre alcança. Tomara eu ter feito o mesmo e ter galgado os muros com que me cercaram.
A noite está escura. No céu brilham as estrelas. São as mesmas que testemunharam o nosso amor e selaram as nossas promessas. Lá do alto, vigiam a cova de areia onde enterrámos os nossos sonhos. Noite, minha amiga e companheira, leva-me para junto de quem amo.
Noite
Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que eu julguei perdida.
Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,
Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,
Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.
Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem
Tristeza das cigarras a cantar.
Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
(Sophia de Mello Breyner)
Recebi, pelo portador do costume, a encomenda com livros e o exemplar da revista com as tuas reportagens. Fiquei feliz de ver a tua foto no jornal, com o teu cabelo revolto e já grisalho, as rugas da vida talhadas no teu rosto. Mas fiquei muito preocupada com a força dos teus artigos. Vi neles uma denúncia mais do que uma reportagem; uma acusação mais do que um relato mas sobretudo uma revolta e um grito de alerta. Que, meu amor, como bem sabes, ecoará no vazio dos que se recusam a olhar o futuro.
Guarda para ti esse sentimento, não deixes que ele vá corroendo a tua alma. Vê o futuro como sonhámos, naquelas noites intemporais. Para que um dia possamos caminhar através do mistério que se embala nos pinhais e no mar.
No nosso mar.
Vivo com uma réstea de esperança na promessa que me fizeram. Quem sabe dá certo e um dia estaremos juntos, finalmente juntos.
Até lá espera por mim. Não vou tardar.
UM DIA
Um dia mortos, gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
(Sophia de Mello Breyner)
M.
Porto, 25 de agosto de 1954
Felizberto sentia-se, carta a carta, mais perdido. A realidade e a ficção não as distinguia, porque dentro de si, havia o conflito entre o bem e o mal. Um, era o jovem idealista e natural que um deixara a sua terra para encontrar um mundo melhor; outro era o adulto que abandonara os ideais, e se perdera.
O primeiro queria acabar de vez com a doença que o infectara. O segundo precisava de mais tragédia e dor para se alimentar.
Cada carta que abria, cada texto que lia, cada poesia que gritava, iam alargando a ferida sangrenta que já sentia. O sofrer era como um fogo interior, um tormento que se cumpria na solidão da sua existência.
Não se conseguira libertar do vício, mas, pouco a pouco, ia tentando colocar mais distância.
Mas quantas vezes o destino determina o caminho. Já não perdia tempo a procurar as cartas. Nem era preciso, parecia que alguém as colocava à sua frente e lhe segredava” porque esperas abre e lê”.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
O Carteiro que gostava de cartas de amor
8 - O COMEÇO DO FIM
Entretanto Agosto chegou de mansinho. As pessoas saíras para férias e a cidade ficou mais vazia e calma.
Mas Felizberto nem disso se dava conta. O seu dia a dia continuava a ser o mesmo. A sua vida ficava cada dia mais distante e sem sentido, que não fosse prestar atenção redobrada à correspondência, com medo de perder o desenrolar da história de amor e sofrimento. Nada mais o interessava. Como não tinha amigos nem pessoas para conversar, fechava-se cada vez mais no seu casulo, como se ele também fosse parte da história.
Desta vez estava perturbado pois havia mais de um mês que não encontrava a resposta e chegou a pensar que tudo tivesse chegado ao fim. Mas, finalmente, localizou uma carta vinda de Paris. O nome do destinatário era agora Flobela Lobo, na Rua de Santa Catarina, 420 – 4º. Esq. Porto. O remetente era A. Botto, Rue des Tuilleries – Paris. Ele já percebera que os nomes estavam ligados aos autores dos poemas e por isso não eram importantes.
Voltou a abrir e mais uma vez, acertou. A carta também começava com um poema.
“Chora a amante esquecida,
Chora quem vai barra fora;
-Quem não chorou nesta vida
Se o próprio mar também chora?
Sim; tudo acaba num ai,
Num silêncio, num olhar,
Ou numa lágrima triste!
-Nem já sei se te beijei,
Nem me lembro se me viste...
É isto, apenas. O mais
É mentira e fantasia...
-Se a vida não fosse choro,
O que é que a vida seria?
(António Botto)
Meu amor,
Demorei mais tempo a escrever. De repente o Editor da revista mandou-me a mim e ao Yves fazer a reportagem da libertação dos soldados franceses presos após o desastre de Dien Bien Phu na Indochina.
A viajem era longa e como não queríamos perder o momento arrancámos de imediato. Regressei hoje, e só hoje pude ler a tua carta.
Não vai ser tão depressa que vou conseguir esquecer o momento em que soldados treinados, combatentes da Legião Estrangeira e das Tropas Paraquedistas de elite, homens feitos, choravam de dor e raiva depois de terem sido humilhados por um exército de homens descalços, mas de vontade indómita, que durante cinquenta e seis longos dias, os haviam combatido en Die Bien Phu, a fortaleza inexpugnável na opinião dos generais franceses.
Gritavam de raiva, nunca mais, e atiravam os bonés ao estuário do rio. Sentiam que a França tinha abandonado os seus centuriões, que ali tinham estado a combater para defesa dos ricos fazendeiros franceses e dos seus aliados.
Ouvi, e o Yves fotografou, um tenente coronel Paraquedista,a soluçar como um pai a quem tivessem morto um filho. Mas como podes reparar tem um brilho muito estranho no olhar.
Não auguro nada de bom. Estes homens vão voltar e desembarcar derrotados, e por isso escondidos do povo para sua maior humilhação. O que farão a seguir, não sei.
Ouvi dizer, e não pela primeira vez, que esta apenas foi a continuação das guerras anteriores e a primeira pelalibertação de povos colonizados. Outras se seguirão.
Pelo portador habitual vais receber um exemplar da revista onde foram publicados os meus artigos e as fotos do Yves.
Estou muito cansado. Viver, começa a pesar. A solidão mata.
Penso em ti, nos momentos que não vivemos, nas ternuras que não tivemos. Penso em ti. Vem, vem depressa.
DIES IRAE
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grandes cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
(Miguel Torga)
Paris, 18 de Agosto de 1954
A.
Bem, pensou Felizberto, agora não sou capaz de parar, ainda que queira.
Já não tenho vontade própria. Este ser que chora as desventuras dos outros, não que lhas contem, mas que espia pelo buraco da fechadura, já se perdeu.
Não tem mais nada, nada o prende salvo as cartas de amor que anda lendo às escondidas. Se terminarem as cartas também termina a sua razão de ser. Como é que a solidão me causou tanto mal? O que eu ando a fazer não tem perdão e nem eu a mim próprio posso perdoar. Pudera eu voltar atrás, ter seguido os conselhos que me deram e tudo poderia ser diferente. O mal dentro de mim não existia, ele cresceu alimentando-se da minha própria carne e bebendo do meu sangue.
Ficou doente e em estado febril. A tia chamou um médico que o medicamentou, tratou dos efeitos mas as causas ficaram. Mesmo assim voltou ao trabalho já que aos exames havia dispensado. Os tios ficaram naturalmente preocupados mas a pedido não contaram nada à Mãe. Atribuíam o estado do Felizberto a cansaço com os estudos e que se agravou na época de exames. Até Felizberto fez por acreditar.
Entretanto Agosto chegou de mansinho. As pessoas saíras para férias e a cidade ficou mais vazia e calma.
Mas Felizberto nem disso se dava conta. O seu dia a dia continuava a ser o mesmo. A sua vida ficava cada dia mais distante e sem sentido, que não fosse prestar atenção redobrada à correspondência, com medo de perder o desenrolar da história de amor e sofrimento. Nada mais o interessava. Como não tinha amigos nem pessoas para conversar, fechava-se cada vez mais no seu casulo, como se ele também fosse parte da história.
Desta vez estava perturbado pois havia mais de um mês que não encontrava a resposta e chegou a pensar que tudo tivesse chegado ao fim. Mas, finalmente, localizou uma carta vinda de Paris. O nome do destinatário era agora Flobela Lobo, na Rua de Santa Catarina, 420 – 4º. Esq. Porto. O remetente era A. Botto, Rue des Tuilleries – Paris. Ele já percebera que os nomes estavam ligados aos autores dos poemas e por isso não eram importantes.
Voltou a abrir e mais uma vez, acertou. A carta também começava com um poema.
“Chora a amante esquecida,
Chora quem vai barra fora;
-Quem não chorou nesta vida
Se o próprio mar também chora?
Sim; tudo acaba num ai,
Num silêncio, num olhar,
Ou numa lágrima triste!
-Nem já sei se te beijei,
Nem me lembro se me viste...
É isto, apenas. O mais
É mentira e fantasia...
-Se a vida não fosse choro,
O que é que a vida seria?
(António Botto)
Meu amor,
Demorei mais tempo a escrever. De repente o Editor da revista mandou-me a mim e ao Yves fazer a reportagem da libertação dos soldados franceses presos após o desastre de Dien Bien Phu na Indochina.
A viajem era longa e como não queríamos perder o momento arrancámos de imediato. Regressei hoje, e só hoje pude ler a tua carta.
Não vai ser tão depressa que vou conseguir esquecer o momento em que soldados treinados, combatentes da Legião Estrangeira e das Tropas Paraquedistas de elite, homens feitos, choravam de dor e raiva depois de terem sido humilhados por um exército de homens descalços, mas de vontade indómita, que durante cinquenta e seis longos dias, os haviam combatido en Die Bien Phu, a fortaleza inexpugnável na opinião dos generais franceses.
Gritavam de raiva, nunca mais, e atiravam os bonés ao estuário do rio. Sentiam que a França tinha abandonado os seus centuriões, que ali tinham estado a combater para defesa dos ricos fazendeiros franceses e dos seus aliados.
Ouvi, e o Yves fotografou, um tenente coronel Paraquedista,a soluçar como um pai a quem tivessem morto um filho. Mas como podes reparar tem um brilho muito estranho no olhar.
Não auguro nada de bom. Estes homens vão voltar e desembarcar derrotados, e por isso escondidos do povo para sua maior humilhação. O que farão a seguir, não sei.
Ouvi dizer, e não pela primeira vez, que esta apenas foi a continuação das guerras anteriores e a primeira pelalibertação de povos colonizados. Outras se seguirão.
Pelo portador habitual vais receber um exemplar da revista onde foram publicados os meus artigos e as fotos do Yves.
Estou muito cansado. Viver, começa a pesar. A solidão mata.
Penso em ti, nos momentos que não vivemos, nas ternuras que não tivemos. Penso em ti. Vem, vem depressa.
DIES IRAE
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grandes cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
(Miguel Torga)
Paris, 18 de Agosto de 1954
A.
Bem, pensou Felizberto, agora não sou capaz de parar, ainda que queira.
Já não tenho vontade própria. Este ser que chora as desventuras dos outros, não que lhas contem, mas que espia pelo buraco da fechadura, já se perdeu.
Não tem mais nada, nada o prende salvo as cartas de amor que anda lendo às escondidas. Se terminarem as cartas também termina a sua razão de ser. Como é que a solidão me causou tanto mal? O que eu ando a fazer não tem perdão e nem eu a mim próprio posso perdoar. Pudera eu voltar atrás, ter seguido os conselhos que me deram e tudo poderia ser diferente. O mal dentro de mim não existia, ele cresceu alimentando-se da minha própria carne e bebendo do meu sangue.
Ficou doente e em estado febril. A tia chamou um médico que o medicamentou, tratou dos efeitos mas as causas ficaram. Mesmo assim voltou ao trabalho já que aos exames havia dispensado. Os tios ficaram naturalmente preocupados mas a pedido não contaram nada à Mãe. Atribuíam o estado do Felizberto a cansaço com os estudos e que se agravou na época de exames. Até Felizberto fez por acreditar.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
O Carteiro que gostava de cartas de amor
7 – A TERCEIRA CARTA
Felizberto, embora tivesse poucas dúvidas sobre a autora da primeira carta, não resistiu e foi à Rua do Bolhão espreitar o número 208 r/c Esq. O número existia de facto, mas a casa só tinha primeiro e segundo andar.
Andou por ali a cirandar, procurando passar despercebido, mas viu num relance uma mulher que iria jurar, era a Maria Madalena.
Mudou logo de caminho porque não queria que ela o visse a rondar aqueles sítios. Deixou de ter dúvidas. O casal de apaixonados utilizava nomes e endereços falsos.
Passou algum tempo sem localizar a resposta. Ficou preocupado pois pensou que Maria Madalena, afinal o tivesse visto e tivesse mudado a estratégia. Mas não desistiu procurando cada dia com mais afinco.
Sem nada de especial, mas como se fora um prenúncio, olhou algumas vezes para uma carta também para Paris. O nome do remetente não conseguia ler mas a morada era na Rua de Santa Catarina, nem número. O destinatário em Paris era Ricardo E. Basoalto, Rue de Rivoli, 309 – 1º. Esq. Bem esta não tem nada de suspeito, pensou, todavia vou abrir.
Ficou surpreendido porque esta carta começava com um poema. Começou a ler e logo adiante rejubilou, afinal era mesmo o que procurava.
FANATISMO
“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa ...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...”
(Florbela Espanca)
Amor, meu Amor, minha Vida
Estava a ler poemas de amor e de saudade quando recebi a tua carta. Deles escolhi este, porque para mim já nada importa na vida. Tu, só tu és o meu Deus “ Princípio e Fim”.
O tanto que chorei, secou a minha alma. Nem uma lágrima restou.
Li as tuas desditas a tua dor o sofrimento a desesperança. Doeu-me muito, tanto que nem sei como te dizer.
Guardo tudo no mais fundo do meu pobre coração. Que apesar da dor e da saudade, ainda vai batendo, batendo até que se canse de esperar.
Estou perdida, sem rumo, sem destino, no meio da tempestade. “Tudo em mim foi naufrágio”.
De tanto te querer já nem sei se te quero. Receio que para ti eu seja apenas uma miragem, reflectida num espelho estilhaçado pelos desgostos da vida.
E eu, aqui fico, onde sempre estive, deste lado do muro que não caiu e já sem forças para abrir os meus braços e te acolher, invejando as aves que passam de regresso aos ninhos. “Tudo em mim foi naufrágio”.
Quero acreditar, sim ainda quero, que neste mundo ou no outro havemos de nos encontrar e, e depois, até em teus braços morrerei.
Pois tu és “Princípio e Fim”.
Porto, 7 de Julho de 1954
M.
Felizberto respirou fundo. Estava tão feliz. Nem se dava conta de que a sua vida se limitava a espreitar a vida dos outros. A tragédia e a dor daqueles dois seres eram o seu alimento. Como um vampiro. Pobre Felizberto.
O Director chamou-o ao gabinete, para lhe dizer que o mês de Agosto se avizinhava e logo o seu habitual período de férias. O Felizberto deveria aguardar pelo seu regresso já que queria que fosse ele a desempenhar as funções.
- Sabe Felizberto eu vou passar a primeira quinzena nas termas do Buçaco. Fazem muito bem à saúde de Dona Leocádia. Mas vamos só os dois. A Maria da Graça vai para Lisboa, mais própriamente para o Estoril, passar todo o período em casa de uns amigos em quem temos toda a confiança. Só assim poderia ser, como calcula. A Maria Madalena, prefere ficar na nossa casa no Porto e só irá por uma semana juntar-se a nós, numa quinta no Douro, para onde me fomos convidados por amigos, com altas funções no Governo. Mas eu só me sentirei tranquilo se você assumir as minhas responsabilidades.
Felizberto respirou fundo e garantiu ao Director que ele não se ausentaria para férias sem o seu regresso.
Na verdade nem lhe apetecia ir de férias. Tinha vontade de ver a Mãe mas receava que ela, com a argúcia de quem tão bem o conhecia, visse um filho diferente do que partira. Escreveu, dizendo que provávelmente só poderia ir de férias em finais de Setembro, por razões de trabalho e de estudo. E continuou à espera de correio que alimentasse o seu viver.
Felizberto, embora tivesse poucas dúvidas sobre a autora da primeira carta, não resistiu e foi à Rua do Bolhão espreitar o número 208 r/c Esq. O número existia de facto, mas a casa só tinha primeiro e segundo andar.
Andou por ali a cirandar, procurando passar despercebido, mas viu num relance uma mulher que iria jurar, era a Maria Madalena.
Mudou logo de caminho porque não queria que ela o visse a rondar aqueles sítios. Deixou de ter dúvidas. O casal de apaixonados utilizava nomes e endereços falsos.
Passou algum tempo sem localizar a resposta. Ficou preocupado pois pensou que Maria Madalena, afinal o tivesse visto e tivesse mudado a estratégia. Mas não desistiu procurando cada dia com mais afinco.
Sem nada de especial, mas como se fora um prenúncio, olhou algumas vezes para uma carta também para Paris. O nome do remetente não conseguia ler mas a morada era na Rua de Santa Catarina, nem número. O destinatário em Paris era Ricardo E. Basoalto, Rue de Rivoli, 309 – 1º. Esq. Bem esta não tem nada de suspeito, pensou, todavia vou abrir.
Ficou surpreendido porque esta carta começava com um poema. Começou a ler e logo adiante rejubilou, afinal era mesmo o que procurava.
FANATISMO
“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa ...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...”
(Florbela Espanca)
Amor, meu Amor, minha Vida
Estava a ler poemas de amor e de saudade quando recebi a tua carta. Deles escolhi este, porque para mim já nada importa na vida. Tu, só tu és o meu Deus “ Princípio e Fim”.
O tanto que chorei, secou a minha alma. Nem uma lágrima restou.
Li as tuas desditas a tua dor o sofrimento a desesperança. Doeu-me muito, tanto que nem sei como te dizer.
Guardo tudo no mais fundo do meu pobre coração. Que apesar da dor e da saudade, ainda vai batendo, batendo até que se canse de esperar.
Estou perdida, sem rumo, sem destino, no meio da tempestade. “Tudo em mim foi naufrágio”.
De tanto te querer já nem sei se te quero. Receio que para ti eu seja apenas uma miragem, reflectida num espelho estilhaçado pelos desgostos da vida.
E eu, aqui fico, onde sempre estive, deste lado do muro que não caiu e já sem forças para abrir os meus braços e te acolher, invejando as aves que passam de regresso aos ninhos. “Tudo em mim foi naufrágio”.
Quero acreditar, sim ainda quero, que neste mundo ou no outro havemos de nos encontrar e, e depois, até em teus braços morrerei.
Pois tu és “Princípio e Fim”.
Porto, 7 de Julho de 1954
M.
Felizberto respirou fundo. Estava tão feliz. Nem se dava conta de que a sua vida se limitava a espreitar a vida dos outros. A tragédia e a dor daqueles dois seres eram o seu alimento. Como um vampiro. Pobre Felizberto.
O Director chamou-o ao gabinete, para lhe dizer que o mês de Agosto se avizinhava e logo o seu habitual período de férias. O Felizberto deveria aguardar pelo seu regresso já que queria que fosse ele a desempenhar as funções.
- Sabe Felizberto eu vou passar a primeira quinzena nas termas do Buçaco. Fazem muito bem à saúde de Dona Leocádia. Mas vamos só os dois. A Maria da Graça vai para Lisboa, mais própriamente para o Estoril, passar todo o período em casa de uns amigos em quem temos toda a confiança. Só assim poderia ser, como calcula. A Maria Madalena, prefere ficar na nossa casa no Porto e só irá por uma semana juntar-se a nós, numa quinta no Douro, para onde me fomos convidados por amigos, com altas funções no Governo. Mas eu só me sentirei tranquilo se você assumir as minhas responsabilidades.
Felizberto respirou fundo e garantiu ao Director que ele não se ausentaria para férias sem o seu regresso.
Na verdade nem lhe apetecia ir de férias. Tinha vontade de ver a Mãe mas receava que ela, com a argúcia de quem tão bem o conhecia, visse um filho diferente do que partira. Escreveu, dizendo que provávelmente só poderia ir de férias em finais de Setembro, por razões de trabalho e de estudo. E continuou à espera de correio que alimentasse o seu viver.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O Carteiro que gostava de cartas de amor
6 – A SEGUNDA CARTA
Com crescente ansiedade foi aguardando a resposta. Redobrou de atenção e via ao pormenor toda a correspondência vinda de França e particularmente de Paris. Não era muita, naqueles anos e por isso não lhe foi difícil identificar uma carta remetida por André Breton. O mesmo endereço, e como destino Maria Carneiro, por coincidência domiciliada na Rua do Bolhão, 208 r/c esq. Porto. Era, apostava a resposta . E teve razão.
Com os mesmos cuidados abriu e leu:
Meu amor tão longe e tão perto
Já lá vai tanto tempo, é verdade. Mas eu sinto que foi ontem que me despedi de ti. Por entre lágrimas e beijos, trocámos juras de amor eterno. E é isso que eu ainda sinto. As forças que impediram o nosso amor, levaram-me ao exílio, mas tu foste sempre a minha estrela. Mesmo nos momentos trágicos por que passei, foi a pensar em ti que lutei, para sobreviver.
Quando fugindo da Polícia entrei em Espanha e, levado pelo romantismo e idealismo dos dezoito anos, me juntei aos que lutavam pela liberdade, estava bem longe de pensar que seria uma viajem tão longa. Atravessei a Espanha de caneta na mão e com a cabeça a fervilhar de ideais e de sonhos. Sonhos que morreram nos campos de refugiados em França, onde fui internado, juntamente com milhares de outros românticos, quando os fascistas tomaram a Catalunha. Passámos frio e fome, gritámos por ajuda e o mundo não ouviu os lamentos.
Fugi para Paris, a cidade dos nossos sonhos, mas cheguei só a tempo de ouvir as botas cardadas dos lobos nazis, desfilando pelos Campos Elísios.
Sem documentos, sem amigos, andei fugido dormindo ao frio e à chuva, misturado com a legião de refugiados que a guerra criara. Encontrei três amigos jovens como eu. E os quatro, dois judeus franceses, um refugiado belga e este pobre Português errante, tentamos a aventura de fugir para o País Basco, atravessando os Pirinéus. Não correu bem. Os meus companheiros ficaram enterrados nos desfiladeiros medonhos que cruzámos. Eu fui salvo por guerrilheiros bascos e remetido de novo para Paris.
Lá encontrei pessoas que me ouviram e tiveram pena de mim. Deram-me abrigo. E foi dali que, finalmente, te consegui escrever uma pequena carta, para te mostrar, que nem o sangue, nem as balas, haviam conseguido apagar a tua imagem.
Porém, e como tantos outros, naqueles dias de chumbo, acabei na prisão, ouvindo histórias de horror, gritos dos torturados, lamentos de jovens e de velhos. Recordo aqueles dias, perdido entre tantos infelizes, sem caminho, sem futuro e sem razão de viver, senão a esperança de voltar aos teus braços. Mesmo agora, e já passaram tantos anos e tantas coisas vivi e testemunhei, só guardo para além do medo, a lembrança de um velho que, sangrando das torturas cantava para os seus algozes a Marselhesa.
E mesmo ao ser fuzilado, por uma vez se levantou e gritou viva a França livre.
Quando fui libertado e voltei à casa que me abrigara, esta estava vazia. Os vizinhos contaram que era um casal de judeus franceses e que teriam viajado. Mais tarde, bastante mais tarde, soube a que viagem se referiam. Mais uma vez procurei ajuda e quando a encontrei, um simples quarto numas águas furtadas de onde quase não podia sair, escrevi a carta que mais me doeu escrever em toda a minha vida. Sentia-me tão só e abandonado que desesperadamente, admitia como único caminho, a morte redentora.
Lembrei-me da coragem do pobre homem que vi morrer cantando. Senti que como ele, teria de recomeçar a viver e a lutar pelo que acreditava. E a única coisa em que acreditava era no nosso amor, nas nossa juras e promessas, nas nossas esperanças. Foste tu que me salvaste.
Foste o bálsamo que acalmou a minha dor.
Esperei, oh como esperei que no fim da guerra, no meio do rebentar dos foguetes, surgisse o canto de uma trombeta que derrubasse o muro que ergueram à nossa volta.
Mas o muro continuou. Jericó não se repetiu.
As nossas memórias , os nossos segredos, o nosso amor sofrido, foi o que nos restou a que nos agarrámos e que nos sustenta. Essa força foi de ti que a recebi. As tuas cartas foram o meu alimento, o meu refúgio. Nelas ancorei o meu desespero.
A CANÇÃO DESESPERADA
Emerge a tua lembrança desta noite em que
(estou.
O rio junta ao mar o seu lamento obstinado.
Abandonado como os cais da madrugada.
É hora de partir, ó abandonado!
Sobre o meu coração chovem frias corolas
Ó porão de escombros, feroz caverna de
(náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti bateram as asas os pássaros do canto.
Tudo devoraste, como faz a distãncia.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi
(naufrágio!
Era a hora alegre do naufrágio e do beijo
A hora do estupor que ardia como um farol.
Ansiedade de piloto, fúria de mergulhador cego,
Turva embriaguez de amor, tudo em ti foi
(naufrágio!
Na infância de névoa a minha alma alada e
(ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Eu fiz retroceder a muralha de sombra,
caminhei para além do desejo e do acto.
Ó carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
A ti nesta hora húmida evoco e faço canto.
Como um copo albergaste a infinita ternura,
e o esquecimento infindo estilhaçou-te como um
(copo)
Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher de amor, teus braços me acolheram.
Era a sede e a fome, e tu foste uma fruta.
Era o luto e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como pudeste conter-me
Na terra da tua alma e na cruz dos teus braços!
O desejo de ti foi o mais terrível e curto,
O mais revolto e ébrio, o mais tenso e ávido.
Cemitério de beijos, ainda tens fogo nas tumbas,
Ainda as uvas ardem debicadas por pássaros.
Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos trançados.
Oh a cópula louca de esperança e de esforço
Em que nós nos juntámos e nos desesperámos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavras que quase nem nasciam nos lábios.
Foi esse o meu destino e nele viajou a vontade,
E nele caiu a vontade, tudo em ti foi naufrágio!
De tombo em tombo ainda tu ardeste e
(cantaste.
Marinheiro de pé na proa de um navio.
Ainda floresceste em cantos, ainda rompeste em
(correntes.
Ó porão de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido mergulhador cego, desventurado
(fundeiro,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
Que a noite prende a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar abraça a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.
Abandonado como o cais na madrugada.
Apenas a sombra trémula se me torce nas mãos.
Ah para além de tudo. Ah para além de tudo.
É a hora de partir. Ó abandonado.
Pablo Neruda - (Tradução de Fernando Assis Pacheco)
Andei a arrumar e a reler as tuas cartas. Aproveitei para vasculhar papéis que guardei durante estes anos. Encontrei uma revista que foi a única coisa que salvei na minha fuga. Era preciosa. Chama-se #Caballo Verde# e foi criada no breve tempo da República Espanhola. Nela tinha guardado o poema que hoje te mando.
E faço meu o grito de angústia e desespero.
É a hora de partir.
Adeus minha deusa, meu sol.
A.
Paris, 15 de Junho de 1954
Felizberto estava tão feliz que até as faces ganharam cor. Quantas vezes leu, nem sabia, mas foram muitas e algumas lágrimas reprimiu.
Voltou aos cuidados que aprendera, guardou cópia para si e deixou seguir a carta.
Com crescente ansiedade foi aguardando a resposta. Redobrou de atenção e via ao pormenor toda a correspondência vinda de França e particularmente de Paris. Não era muita, naqueles anos e por isso não lhe foi difícil identificar uma carta remetida por André Breton. O mesmo endereço, e como destino Maria Carneiro, por coincidência domiciliada na Rua do Bolhão, 208 r/c esq. Porto. Era, apostava a resposta . E teve razão.
Com os mesmos cuidados abriu e leu:
Meu amor tão longe e tão perto
Já lá vai tanto tempo, é verdade. Mas eu sinto que foi ontem que me despedi de ti. Por entre lágrimas e beijos, trocámos juras de amor eterno. E é isso que eu ainda sinto. As forças que impediram o nosso amor, levaram-me ao exílio, mas tu foste sempre a minha estrela. Mesmo nos momentos trágicos por que passei, foi a pensar em ti que lutei, para sobreviver.
Quando fugindo da Polícia entrei em Espanha e, levado pelo romantismo e idealismo dos dezoito anos, me juntei aos que lutavam pela liberdade, estava bem longe de pensar que seria uma viajem tão longa. Atravessei a Espanha de caneta na mão e com a cabeça a fervilhar de ideais e de sonhos. Sonhos que morreram nos campos de refugiados em França, onde fui internado, juntamente com milhares de outros românticos, quando os fascistas tomaram a Catalunha. Passámos frio e fome, gritámos por ajuda e o mundo não ouviu os lamentos.
Fugi para Paris, a cidade dos nossos sonhos, mas cheguei só a tempo de ouvir as botas cardadas dos lobos nazis, desfilando pelos Campos Elísios.
Sem documentos, sem amigos, andei fugido dormindo ao frio e à chuva, misturado com a legião de refugiados que a guerra criara. Encontrei três amigos jovens como eu. E os quatro, dois judeus franceses, um refugiado belga e este pobre Português errante, tentamos a aventura de fugir para o País Basco, atravessando os Pirinéus. Não correu bem. Os meus companheiros ficaram enterrados nos desfiladeiros medonhos que cruzámos. Eu fui salvo por guerrilheiros bascos e remetido de novo para Paris.
Lá encontrei pessoas que me ouviram e tiveram pena de mim. Deram-me abrigo. E foi dali que, finalmente, te consegui escrever uma pequena carta, para te mostrar, que nem o sangue, nem as balas, haviam conseguido apagar a tua imagem.
Porém, e como tantos outros, naqueles dias de chumbo, acabei na prisão, ouvindo histórias de horror, gritos dos torturados, lamentos de jovens e de velhos. Recordo aqueles dias, perdido entre tantos infelizes, sem caminho, sem futuro e sem razão de viver, senão a esperança de voltar aos teus braços. Mesmo agora, e já passaram tantos anos e tantas coisas vivi e testemunhei, só guardo para além do medo, a lembrança de um velho que, sangrando das torturas cantava para os seus algozes a Marselhesa.
E mesmo ao ser fuzilado, por uma vez se levantou e gritou viva a França livre.
Quando fui libertado e voltei à casa que me abrigara, esta estava vazia. Os vizinhos contaram que era um casal de judeus franceses e que teriam viajado. Mais tarde, bastante mais tarde, soube a que viagem se referiam. Mais uma vez procurei ajuda e quando a encontrei, um simples quarto numas águas furtadas de onde quase não podia sair, escrevi a carta que mais me doeu escrever em toda a minha vida. Sentia-me tão só e abandonado que desesperadamente, admitia como único caminho, a morte redentora.
Lembrei-me da coragem do pobre homem que vi morrer cantando. Senti que como ele, teria de recomeçar a viver e a lutar pelo que acreditava. E a única coisa em que acreditava era no nosso amor, nas nossa juras e promessas, nas nossas esperanças. Foste tu que me salvaste.
Foste o bálsamo que acalmou a minha dor.
Esperei, oh como esperei que no fim da guerra, no meio do rebentar dos foguetes, surgisse o canto de uma trombeta que derrubasse o muro que ergueram à nossa volta.
Mas o muro continuou. Jericó não se repetiu.
As nossas memórias , os nossos segredos, o nosso amor sofrido, foi o que nos restou a que nos agarrámos e que nos sustenta. Essa força foi de ti que a recebi. As tuas cartas foram o meu alimento, o meu refúgio. Nelas ancorei o meu desespero.
A CANÇÃO DESESPERADA
Emerge a tua lembrança desta noite em que
(estou.
O rio junta ao mar o seu lamento obstinado.
Abandonado como os cais da madrugada.
É hora de partir, ó abandonado!
Sobre o meu coração chovem frias corolas
Ó porão de escombros, feroz caverna de
(náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti bateram as asas os pássaros do canto.
Tudo devoraste, como faz a distãncia.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi
(naufrágio!
Era a hora alegre do naufrágio e do beijo
A hora do estupor que ardia como um farol.
Ansiedade de piloto, fúria de mergulhador cego,
Turva embriaguez de amor, tudo em ti foi
(naufrágio!
Na infância de névoa a minha alma alada e
(ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Eu fiz retroceder a muralha de sombra,
caminhei para além do desejo e do acto.
Ó carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
A ti nesta hora húmida evoco e faço canto.
Como um copo albergaste a infinita ternura,
e o esquecimento infindo estilhaçou-te como um
(copo)
Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher de amor, teus braços me acolheram.
Era a sede e a fome, e tu foste uma fruta.
Era o luto e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como pudeste conter-me
Na terra da tua alma e na cruz dos teus braços!
O desejo de ti foi o mais terrível e curto,
O mais revolto e ébrio, o mais tenso e ávido.
Cemitério de beijos, ainda tens fogo nas tumbas,
Ainda as uvas ardem debicadas por pássaros.
Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos trançados.
Oh a cópula louca de esperança e de esforço
Em que nós nos juntámos e nos desesperámos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavras que quase nem nasciam nos lábios.
Foi esse o meu destino e nele viajou a vontade,
E nele caiu a vontade, tudo em ti foi naufrágio!
De tombo em tombo ainda tu ardeste e
(cantaste.
Marinheiro de pé na proa de um navio.
Ainda floresceste em cantos, ainda rompeste em
(correntes.
Ó porão de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido mergulhador cego, desventurado
(fundeiro,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
Que a noite prende a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar abraça a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.
Abandonado como o cais na madrugada.
Apenas a sombra trémula se me torce nas mãos.
Ah para além de tudo. Ah para além de tudo.
É a hora de partir. Ó abandonado.
Pablo Neruda - (Tradução de Fernando Assis Pacheco)
Andei a arrumar e a reler as tuas cartas. Aproveitei para vasculhar papéis que guardei durante estes anos. Encontrei uma revista que foi a única coisa que salvei na minha fuga. Era preciosa. Chama-se #Caballo Verde# e foi criada no breve tempo da República Espanhola. Nela tinha guardado o poema que hoje te mando.
E faço meu o grito de angústia e desespero.
É a hora de partir.
Adeus minha deusa, meu sol.
A.
Paris, 15 de Junho de 1954
Felizberto estava tão feliz que até as faces ganharam cor. Quantas vezes leu, nem sabia, mas foram muitas e algumas lágrimas reprimiu.
Voltou aos cuidados que aprendera, guardou cópia para si e deixou seguir a carta.
domingo, 24 de outubro de 2010
O Carteiro que gostava de cartas de amor
5 – A PRIMEIRA CARTA DE AMOR
Até a Universidade não estava a corresponder ao que dela imaginara. As matérias eram banais e sem grande esforço tinha excelentes notas. Mas não tinha um amigo com quem pudesse conversar. Na verdade, sentia-se um corpo estranho e os colegas afastavam-se dele.
Tornou-se mais frio e distante. O encantamento ia desaparecendo pouco a pouco. Refugiava-se na leitura e realizava o seu trabalho de forma mecãnica e desinteressada.
E foi num desses dias mais sombrios que reparou numa carta que lhe chegara as mãos. Não tinha nada de diferente das outras mas um sexto sentido despertou-lhe a curiosidade, abriu e leu, pela primeira vez, uma carta de amor. Daí em diante a sua vida nunca mais seria a mesma.
A carta tinha como destinatário o senhor André Breton, Rue de l’Ópera, 128 – 3ème gauche Paris e como remetente R. Castro na Rua do Bolhão, 208 – r/c esquerdo – Porto.
O texto fascinou-o:
“ Meu amor distante,
É verdade, meu velho companheiro. Faz dezasseis anos que não nos vemos.
Desses, alguns, já nem sei quantos, estivemos tão longe que nem uma palavra escrita pudemos trocar.
Naqueles longos e tristes anos, sem te ler, sem saber de ti, fizeram-me duvidar da existência de Deus. Afinal, que mal teríamos nós feito para justificar tanta dor?
O nosso amor merecia um castigo tão grande?
Imagino como sofreste nesse período de escuridão. Porque sei o mal que ele me fez. Mas entre o desespero e a esperança fui aceitando o correr dos dias, dos meses, dos anos, esperando sempre uma palavra tua. A minha companhia era o nosso mar, na nossa praia. Sentada, horas e horas, ouvia o bramir das ondas contra as rochas, mas no nosso recanto, a água vinha de mansinho acariciar-me os pés. Isso fazia-me feliz.
Foi num desses dias que senti dentro de mim um som que nunca mais esqueci. Parecia um sussurro a dizer-me para voltar a casa. Corri cheia de esperança. Tinha um pressentimento que algo de bom iria acontecer. E foi. A tua palavra chegou. Mas tão triste e sofrida que as tuas palavras de desânimo, ficaram para sempre guardadas no meu coração.
Meu amor, sinto uma saudade tão grande que não cabe nas palavras. Deixámos fugir o que deveria ter sido o melhor período da nossa vida. “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, já dizia o Poeta e foi tudo isso.
Quando deitados na praia, na nossa praia, ouvindo o bater das ondas e do nosso coração, depois de nos termos amado até à loucura, decidimos dar corpo aos nossos sonhos, aos nossos ideais, deixamos que outros impedissem o nosso caminho. Tu seguiste, apesar de tudo, e eu fiquei nesta prisão cada dia mais sufocante.
Dezasseis anos, meu amor. Será que valeu a pena?
Afinal nada mudou, nada mudámos, apenas ficámos mais velhos.
E os nossos sonhos, que é feito deles? Estarão ainda enterrados na areia da praia onde os deixámos?
Como te disse, juntei as nossas cartas, os nossos poemas preferidos e pedi ao António que os editasse em forma de livro, mas apenas uma dezena de exemplares. Eram só para nós. Até isso se foi e até essa memória nos roubaram. O António foi preso e do livro nem encontro um sinal. Desejo, que pelo menos o tenha levado, lá para onde foi, e lhe mate as saudades destes dois amigos.
Anseio pelos teus beijos. Sinto, oh como sinto a tua ausência. Nesta vida que levo, esperando ansiosamente as tuas cartas, nada mais me resta do que ler e reler os poemas da nossa vida.
Os livros são os meus únicos amigos mas até eles tenho de manter escondidos. Passo a vida à procura de alguém que não faça perguntas e aceite emprestar o endereço para receber as tuas notícias. Os livros, agora estão guardados nas prateleiras de casa e da livraria que a Dona Elvira vai gerindo enquanto não souber nada do marido. Coitada, vive só e emprestou-me as chaves para eu me esconder enquanto leio.
Mas agora fala-me de ti, meu amor etéreo. Diz que me amas e que ainda acreditas no nosso futuro. Preciso desse amparo, pois sinto-me uma estátua falsa, sem vida e ao sabor dos ventos.
ESTÁTUA FALSA
Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh’alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar ...
(Mário de Sá-Carneiro)
Adeus, amor de uma vida. M.M.
Porto, 13 de Janeiro de 1954 Quando acabou de ler a carta e reler a poesia, Felizberto percebeu que havia ousado entrar na intimidade de duas pessoas, que não conhecia mas que sofriam. Acabara de violar um direito, ele que sempre pensara não o fazer.
Suores frios ensoparam a camisa porque, tal como um criminoso empedernido, sentira prazer com o que fizera. Arranjou maneira de copiar a carta, guardar um apontamento com os endereços, fechar e deixar seguir.Terminou a tarefa, estendeu as mãos e ao contrário do que imaginara, elas estavam firmes e sem qualquer tremor.
De repente lembrou-se de que a carta falava no Sr. António, o seu antigo patrão e que Maria Madalena também havia referido o incidente da prisão, na conversa que tinham tido. Maria Madalena claro, teria de ser a autora daquela carta.
Até a Universidade não estava a corresponder ao que dela imaginara. As matérias eram banais e sem grande esforço tinha excelentes notas. Mas não tinha um amigo com quem pudesse conversar. Na verdade, sentia-se um corpo estranho e os colegas afastavam-se dele.
Tornou-se mais frio e distante. O encantamento ia desaparecendo pouco a pouco. Refugiava-se na leitura e realizava o seu trabalho de forma mecãnica e desinteressada.
E foi num desses dias mais sombrios que reparou numa carta que lhe chegara as mãos. Não tinha nada de diferente das outras mas um sexto sentido despertou-lhe a curiosidade, abriu e leu, pela primeira vez, uma carta de amor. Daí em diante a sua vida nunca mais seria a mesma.
A carta tinha como destinatário o senhor André Breton, Rue de l’Ópera, 128 – 3ème gauche Paris e como remetente R. Castro na Rua do Bolhão, 208 – r/c esquerdo – Porto.
O texto fascinou-o:
“ Meu amor distante,
É verdade, meu velho companheiro. Faz dezasseis anos que não nos vemos.
Desses, alguns, já nem sei quantos, estivemos tão longe que nem uma palavra escrita pudemos trocar.
Naqueles longos e tristes anos, sem te ler, sem saber de ti, fizeram-me duvidar da existência de Deus. Afinal, que mal teríamos nós feito para justificar tanta dor?
O nosso amor merecia um castigo tão grande?
Imagino como sofreste nesse período de escuridão. Porque sei o mal que ele me fez. Mas entre o desespero e a esperança fui aceitando o correr dos dias, dos meses, dos anos, esperando sempre uma palavra tua. A minha companhia era o nosso mar, na nossa praia. Sentada, horas e horas, ouvia o bramir das ondas contra as rochas, mas no nosso recanto, a água vinha de mansinho acariciar-me os pés. Isso fazia-me feliz.
Foi num desses dias que senti dentro de mim um som que nunca mais esqueci. Parecia um sussurro a dizer-me para voltar a casa. Corri cheia de esperança. Tinha um pressentimento que algo de bom iria acontecer. E foi. A tua palavra chegou. Mas tão triste e sofrida que as tuas palavras de desânimo, ficaram para sempre guardadas no meu coração.
Meu amor, sinto uma saudade tão grande que não cabe nas palavras. Deixámos fugir o que deveria ter sido o melhor período da nossa vida. “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, já dizia o Poeta e foi tudo isso.
Quando deitados na praia, na nossa praia, ouvindo o bater das ondas e do nosso coração, depois de nos termos amado até à loucura, decidimos dar corpo aos nossos sonhos, aos nossos ideais, deixamos que outros impedissem o nosso caminho. Tu seguiste, apesar de tudo, e eu fiquei nesta prisão cada dia mais sufocante.
Dezasseis anos, meu amor. Será que valeu a pena?
Afinal nada mudou, nada mudámos, apenas ficámos mais velhos.
E os nossos sonhos, que é feito deles? Estarão ainda enterrados na areia da praia onde os deixámos?
Como te disse, juntei as nossas cartas, os nossos poemas preferidos e pedi ao António que os editasse em forma de livro, mas apenas uma dezena de exemplares. Eram só para nós. Até isso se foi e até essa memória nos roubaram. O António foi preso e do livro nem encontro um sinal. Desejo, que pelo menos o tenha levado, lá para onde foi, e lhe mate as saudades destes dois amigos.
Anseio pelos teus beijos. Sinto, oh como sinto a tua ausência. Nesta vida que levo, esperando ansiosamente as tuas cartas, nada mais me resta do que ler e reler os poemas da nossa vida.
Os livros são os meus únicos amigos mas até eles tenho de manter escondidos. Passo a vida à procura de alguém que não faça perguntas e aceite emprestar o endereço para receber as tuas notícias. Os livros, agora estão guardados nas prateleiras de casa e da livraria que a Dona Elvira vai gerindo enquanto não souber nada do marido. Coitada, vive só e emprestou-me as chaves para eu me esconder enquanto leio.
Mas agora fala-me de ti, meu amor etéreo. Diz que me amas e que ainda acreditas no nosso futuro. Preciso desse amparo, pois sinto-me uma estátua falsa, sem vida e ao sabor dos ventos.
ESTÁTUA FALSA
Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh’alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar ...
(Mário de Sá-Carneiro)
Adeus, amor de uma vida. M.M.
Porto, 13 de Janeiro de 1954 Quando acabou de ler a carta e reler a poesia, Felizberto percebeu que havia ousado entrar na intimidade de duas pessoas, que não conhecia mas que sofriam. Acabara de violar um direito, ele que sempre pensara não o fazer.
Suores frios ensoparam a camisa porque, tal como um criminoso empedernido, sentira prazer com o que fizera. Arranjou maneira de copiar a carta, guardar um apontamento com os endereços, fechar e deixar seguir.Terminou a tarefa, estendeu as mãos e ao contrário do que imaginara, elas estavam firmes e sem qualquer tremor.
De repente lembrou-se de que a carta falava no Sr. António, o seu antigo patrão e que Maria Madalena também havia referido o incidente da prisão, na conversa que tinham tido. Maria Madalena claro, teria de ser a autora daquela carta.
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