sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – XII – NOVA YORK

Determinada a levar em frente o seu projecto, arranjou uma colega para a substituir no apoio às crianças institucionalizadas e foi à Agência de Viagens tratar do bilhete de avião e da reserva de hotel.
Sabia que o podia fazer via internet, mas preferia o contacto pessoal com gente que já conhecia e com quem simpatizava.
Decidiu seguir no voo Tap Lisboa/Newark com saída a 31 de Maio e regresso a 27 de Junho. Parecia-lhe que quatro semanas seriam suficientes para qualquer que fosse o resultado da sua procura, poder esclarecer a questão que a preocupava.Naturalmente, escolheu classe executiva para ter maior conforto, fundamental para quem, como ela, não gostava de se sentir fechada num espaço reduzido. A Agência ficou de tratar da obtenção do visto para os Estados Unidos e fazer a reserva para o hotel que ela escolheu, um hotel clássico, o New York Palace Hotel perto da E,50 street. Ficava, assim perto dos grandes estabelecimentos de moda, admitindo ser-lhe mais fácil a busca de Marjorie.
Marcou uma consulta para o médico assistente, pedindo um check up e os medicamentos que lhe permitissem combater a ansiedade do primeiro voo. O médico recomendou-lhe o medicamento aconselhável, mais um calmante para qualquer situação de emergência. Garantiu que ela gozava de excelente saúde. De resto, desejou-lhe boa viajem, dizendo ter a certeza que ela se não iria esquecer das férias naquela cidade.
Os preparativos para a viajem incluíram também uma revisão do guarda roupa, renovando quer nas cores quer no estilo. Ousou mudar e sentiu-se bem. Teve particular atenção com o calçado, prevendo longas caminhadas. Mas não esqueceu sapatos para utilizar com a roupa mais elegante.
E lá partiu, contando às amigas que ia passar um mês em casa de velhas amizades, evitando dizer o local.
O dia da viajem chegou. Glória sentiu a ansiedade do momento e o stress das formalidades de embarque, a inspecção à bagagem de mão, etc .Porém, logo que a hospedeira a acompanhou ao lugar, a ansiedade e o nervosismo diminuíram. Cómodamente instalada no seu lugar, que considerou óptimo, bebendo uma taça de champanhe, que a chefe de cabine lhe tinha oferecido, até esqueceu o medo de voar e nem tomou o medicamento para o enjoo. Estava calma e ao mesmo tempo entusiasmada, como se fosse partir numa aventura e isso era mesmo aquilo que ela precisava para dissipar as nuvens que ainda pairavam sobre a sua memória. E depois, tanta gente lhe dissera que Nova York era uma cidade especial, que quer se goste ou não, nunca se esquece.
Quando o avião descolou, sentiu afinal, algum receio e desconforto. Fechou os olhos, apertou com força os braços do cadeirão, recostou a cabeça e pouco a pouco foi relaxando até se sentir mais tranquila.
Depois de servida a refeição a bordo, que tinha uma qualidade bastante aceitável, e como não conseguisse dormir, distraiu-se um pouco com um dos filmes projectados, e foi observando os companheiros de viajem. O do lado oposto, principalmente, mereceu-lhe mais atenção. Era um homem, de meia idade, algo calvo, óculos bifocais que lhe davam um ar de professor. Olhava para o vazio, semicerrava os olhos e de repente escrevia furiosamente, martelando as teclas de um computador portátil. Depois fazia uma pausa, e parecia apagar o que antes tinha escrito. Quando o observava, ele levantou o olhar das teclas, encarou-a, com um sorriso, dizendo:
- Já escrevi e reescrevi o texto um sem número de vezes e ainda não me sinto satisfeito. Apanhada em flagrante Maria da Glória, sorriu envergonhada, dizendo:
- Desculpe, mas sei por experiência própria que por vezes, mais vale esquecer o que se escreveu, e só voltar a ler passado um tempo. Dizem que assim o texto fica mais claro e consistente.
- É capaz de ter razão, respondeu o companheiro de viajem. Na verdade, já fiz tantas correcções e alterações que a introdução está, cada vez mais, sem sentido. Mas, sabe isto é fruto do nervoso e da ansiedade. O trabalho é uma comunicação que fui convidado a fazer, e logo na Universidade de Harvard. Tenho medo de falhar, confesso.
- Olhe, respondeu Glória, eu cursei medicina e também tive a oportunidade de apresentar trabalhos sobre a minha área, Pediatria. Também tive medo de falhar e por isso fui recusando os convites. A certa altura, porém, convenci-me que só falha quem não tenta. Tentei e o trabalho foi reconhecido e publicado numa prestigiada revista médica. Esta é a minha primeira viajem de avião, porque tinha medo de me sentir enclausurada e ficar doente. Apesar das insistências, nunca o fiz antes, e a vida ensinou-me que não devia ter desistido. Faço-a agora, por motivos pessoais, e, afinal sinto-me tranquila, mas revoltada por o não ter tentado, em vida do meu marido. Venho em turismo, é certo, mas também à procura do tempo perdido e das ilusões desfeitas.
- Quer dizer que vai ficar na cidade por algum tempo. Sem querer ser mal interpretado e como depois da conferência ficarei algum tempo em Nova Iorque, sem programa e sem obrigações, gostaria de a voltar a ver e de lhe contar como correu a minha conferência. Poderemos conhecer-nos melhor, tomar uma bebida e passear pela cidade. O que me diz?
- Aceito com prazer, aqui tem o meu cartão com o número de telefone. Ligue-me se e quando puder e logo veremos, respondeu Glória.
O companheiro de viajem, feliz mas um pouco envergonhado com a sua ousadia, procurou nervosamente na carteira até encontrar o seu cartão pessoal que estendeu, de forma algo tímida a Maria da Glória. Respirou fundo quando esta o aceitou, lhe deu uma espreitadela e o guardou, com um sorriso.
Glória aproveitou para fechar os olhos e descansar e assim o tempo de voo pareceu mais curto.
A chefe de cabine, anunciou pelo sistema de comunicações que o avião ia iniciar a descida para o Aeroporto de Newark. Pedia por isso que se mantivessem no lugar e apertassem os cintos de segurança.
A descida, demorou tempo demais, pensava Maria da Glória, tensa até sentir o momento do encontro das rodas, com a pista. Quase não se apercebeu do impacto, pois logo ouviu a informação de que haviam aterrado, pedindo se conservassem no lugar até que a aeronave se imobilizasse. Deu também informações sobre a hora local, temperatura, etc.
As formalidades de desembarque levaram o seu tempo, esperou a chegada da bagagem e ficou preocupada a olhar para as duas malas que teria de transportar até ao controlo alfandegário. O companheiro de viajem, com quem conversara a bordo, aproximou-se empurrando um trolley que lhe entregou.
- Desculpe, mas acho que vai precisar deste carrinho para as suas malas. A mim não me faz falta, pois viajo com pouca bagagem. Digo-lhe que estou confiante que a comunicação vai ser bem aceite. O que escrevi, está escrito e não tenciono rever o texto, para que a minha insegurança, não me impeça de arriscar. Isto aprendi consigo Maria da Glória.
-Guilherme, fico obrigada pela sua gentileza e
não se esqueça, quando não arriscamos uma vez, pode não haver outra oportunidade. Agarre a sua e vai sair-se bem. Entretanto fico à espera de, como prometido, nos voltarmos a encontrar.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO - XI - RECOMEÇAR

Maria da Glória sentia-se numa encruzilhada. Parar e esquecer era o caminho que o bom senso ditava. Já conhecia a paixão de Francisco e as suas consequências
Mas, ela queria ir além. Não conseguiria recomeçar a sua vida sem encerrar este assunto, porque sentia culpa por não se ter apercebido do sofrimento do marido, desde que recebeu a notícia de que era Pai e até à sua morte. E agora até admitia, como teria sido fácil para ela, levá-lo a confessar o segredo e a pedir ajuda. Acreditava que fora isso que Francisco tentara fazer antes de morrer.
Tirou o sobrescrito seguinte, não tinha qualquer indicação. Abriu com cuidado e encontrou duas fotografias de uma mulher jovem e bela uma de perfil outra de frente. Notava-se que estariam emolduradas, pelas marcas nas margens. Eram as que ele tinha trazido de casa. Tinham ambas uma dedicatória “Para o amor da minha vida” – e “ Deus como te amo” e a data de 20/12/1996.
As fotos tinham sido o presente pois o dia era o aniversário de Francisco.
Eram fotos de estúdio mas, já não se percebia bem o nome. Só que ficaria na E, 45.
Abriu mais um envelope. Protegida com papel à sua volta, outra fotografia. A mesma mulher desta vez com o marido, olhando-se com um sorriso de felicidade. No verso estava escrita a data,”Cape Cod – Fall 1997.”
O último envelope continha ainda mais fotografias, mas de recortes de revista, mostrando Marjorie, desfilando durante a semana da moda em Nova York, apresentando criações de um costureiro muito conhecido. A revista era a Vogue.
Guardou os envelopes com as fotos, e o sobrescrito com as cartas que fora lendo, numa gaveta da secretária que fechou à chave.
Ouviu o telefone tocar na sala. A empregada atendeu, e passado um momento, bateu à porta do escritório perguntando se podia entrar. Minha Senhora é o Dr. Leandro que lhe quer falar. O que lhe digo?
- Diga-lhe por favor que eu já vou atender. Peça só dois minutos.
Limpou o rosto, ajeitou o cabelo respirou fundo e foi atender na sala.
- Leandro, as minhas desculpas por tê-lo feito esperar, mas estava entretida a ler e devo ter adormecido, por breves momentos.
- Por quem é Maria da Glória, não é preciso desculpar-se.
Olhe minha amiga, telefono para lhe perguntar se ainda está interessada naquele assunto, que falamos na última vez ou se decidiu, espero sinceramente que sim, esquecê-lo de vez?
-Não esqueci, Leandro, continuo a minha busca da verdade.
- Então se estiver disponível, podíamos combinar um encontro para amanhã, por volta das quinze horas. Veja, se o dia e a hora são do seu agrado ou se prefere que eu passe pela sua casa.
- Leandro para mim está óptimo, às quinze horas de amanhã no seu escritório. Sabe, também me faz bem sair.
– Fica então combinado, respondeu o Advogado:
- Até amanhã, os meus cumprimentos.
Passou mais uma noite difícil, assaltada por pesadelos. Neles aparecia Francisco sangrando e ouvia o choro de uma criança, pedindo ajuda. Levantou-se cedo, disposta a dar um rumo novo à sua vida. A continuar assim, reconhecia, caminharia para a depressão e a loucura.
A transformação começou logo no vestir. Abandonou as cores escuras, voltou a preocupar-se com o aspecto exterior e marcou uma sessão com a esteticista do costume.
Quando reentrou em casa, olhou-se no espelho e sentiu que o primeiro passo estava dado. Estava diferente, reconhecia, e uma forte determinação era já visível no seu olhar. Tratar do corpo e depois da mente, foi o caminho que escolheu.
Voltou a sair de casa para tomar o táxi, e seguir para o escritório do Advogado, de certo modo intrigada com o que este lhe iria dizer. Provávelmente, vai-me contar algo que eu já sei mas, pensou, não fará mal ouvir até para constatar a sua sinceridade quando me disse pouco conhecer sobre a vida do Francisco em Nova Iorque.
Depois dos cumprimentos Maria da Glória, sentou-se na cadeira, respirou fundo e olhando de frente para o Advogado disse:
- Pronto aqui estou para ouvir o que tem para me dizer!
O Advogado hesitou um momento, mas percebeu pela tranquilidade que Maria da Glória aparentava, que ela já devia conhecer o segredo. Evitou perder tempo e foi directo ao assunto.
- Maria da Glória, eu já consegui informações, sobre o destinatário da transferência de fundos, que o seu marido vinha fazendo, de há dez anos a esta parte. Tenho um amigo nos Estados Unidos que conseguiu saber que o dinheiro é creditada numa conta em nome de Anthony Berthier. Disse-me ainda que a referida conta, tem condições especiais de levantamento. Assim, os fundos só poderão ser mobilizados pelo beneficiário, quando este atingir os dezoito anos de idade, para o pagamento da Universidade que ele vier a frequentar. Tem regras muito rígidas sobre essa mobilização. O levantamento parcial e antecipado é permitido, mas só com o acordo escrito do ordenador ou de quem o substitua, com poderes para o acto.
Era isto que eu lhe queria comunicar, mas pelo seu semblante, a informação que lhe dei não constituiu uma grande surpresa, ou estarei enganado?
- Não meu caro, não está enganado. Eu só não sabia as instruções sobre a mobilização dos fundos. Quanto ao beneficiário, já imaginava, pois é o nome do filho do meu marido, fruto de uma ligação, que ele teve com uma mulher, quando esteve aqueles dois anos em Nova York. Veja bem, eu encontrei correspondência escondida, onde a história é evidente. Toda ela. Chorei de dor, à medida que ia desvendando o mistério. Sofri muito, de tal modo que, muitas vezes, me arrependi de não ter seguido o seu conselho, e deixar o segredo, ficar como tal, para sempre. Mas hoje, já recuperei desta fase horrível porque passei, fico feliz por não ter desistido. O maior desejo do meu marido era ser Pai e eu nunca pude, por razões biológicas, dar-lhe essa felicidade. Acabou por o ser, mas de um filho que nunca lhe foi permitido conhecer.
O Francisco apaixonou-se, mas não foi capaz de assumir esse facto, perante mim. Fugiu e escondeu-se. Fez sofrer a mulher que abandonou em Nova York e fez-me sofrer a mim, quando, após a sua morte, venho a conhecer toda a verdade. Mas a dor dele também não foi pequena. O filho nasceu e cresceu sem conhecer o Pai e sem que ele, ao menos uma vez, o tivesse visto. E Francisco não resistiu. Ele não era psicologicamente muito forte, foi-se fechando e morrendo pouco a pouco. E eu não me apercebi a tempo, como agora lamento.
Eu já não sinto a raiva de uma mulher traída. Isso é passado.
Agora sei que existe um inocente envolvido neste drama, o jovem Anthony que deverá ter aproximadamente dez anos e nunca conheceu o Pai. Não sei como e onde vive, vou continuar a cumprir a ordem de pagamento, mas preciso, é imperioso mesmo, fechar este dossier para retomar a minha vida na sua plenitude. Para isso preciso de tentar encontrar a mulher por quem Francisco se apaixonou e o filho. Depois entregarei a parte da herança que lhes cabe e seguirei o meu caminho. Recomeçarei a minha vida.
- Maria da Glória, eu sempre soube que a você é dona de um coração de oiro, e juro-lhe que o Francisco, nunca me contou nada. Mesmo, quando me pediu conselho sobre o modo de enviar dinheiro, nunca me disse para quem e porquê, embora eu tivesse achado peculiar o seu pedido. Entre os homens, existe um qualquer sentido, que nos leva a perceber, quando um amigo escorregou e se deixou enredar nas teias da sedução, de uma outra mulher. Eu receava, que ao Francisco tivesse acontecido, alguma coisa no género e imaginei até, que o dinheiro fosse para pagar, uma chantagem.
Era esse o meu receio maior.
-Glória pense bem antes de se aventurar a ir a uma cidade tão grande como Nova York à procura de uma mulher que só conhece por fotografias com mais de dez anos. Admito que, com sorte, até possa encontrar a antiga companheira do seu marido, e passados estes anos, quem lhe garante que ela não refez a sua vida com outro homem?
Pode acontecer que a Glória, com a sua generosidade, possa vir a criar uma situação embaraçosa. Pense melhor, fique por aqui, não se esqueça que o tempo tudo cura. Viva a sua vida minha cara amiga, deixe os outros seguirem o caminho que, bem ou mal, escolheram.
- Leandro tudo o que disse pode ser verdade. A minha viajem até pode ser um rotundo fracasso, mas eu não ficaria bem comigo mesma se, pelo menos, não tentasse.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – X – MORRER DE AMOR

No dia seguinte, com a ferida ainda em aberto, mas preparada para tudo continuou a leitura.
Carta nº. 6, datada de 20 de Novembro de 1998
Traduzido o texto, dizia:


“Francisco
Não vou sequer comentar a tua última carta. Acredita, já não vale a pena.
O meu sonho de amor, foi destruído pelas razões que sabes.
Morreu, ficou a dor que me consome. Mas em breve o meu coração estará, outra vez, cheio de ternura e amor. Porque eu trago no ventre o fruto da nossa paixão.
O teu sonho, o meu sonho, vai realizar-se em breve.
Só soube que estava grávida, quando estava em Los Angeles. Fiquei tão feliz que só queria voltar para te dar a notícia e partilhar a alegria de trazer no ventre o fruto do nosso amor, viver e sentir a tua felicidade.
Mas tu já tinhas fugido e escolhido o teu caminho.
É verdade, acredita que trago dentro de mim uma nova vida. Quantas vezes tu me disseste que era o teu sonho ser Pai. Pois bem, vais sê-lo, mas no nascimento indicarei como sendo filho de Mãe solteira. Prometo que lhe darei o amor e o carinho que for capaz. Quando ele, mais tarde, vier a perguntar pelo Pai eu direi, simplesmente, morreu.
É um rapaz, sei agora, e quando nascer receberá o nome de Anthony, como o avô.
Não te dou esta notícia com a alegria que esperava. Sei que te vou fazer sofrer mas guardar este segredo era exigir mais de mim. Não fui capaz, e perdoa-me por isso.
Finalmente, quero dizer-te, que razões muito fortes, me levam a abandonar o nosso antigo apartamento. Ele continua vazio e frio, cada dia menos acolhedor. Ainda vejo sombras e fantasmas e não aguento mais.
Vou mudar-me, compartilhar um apartamento com uma colega de trabalho e assim, sempre me sinto menos só. A morada, bem a morada não ta vou dar.
Esquece que um dia me conheceste. Esquece as juras e promessas que fizeste. Esquece que eu existo, não me procures nunca mais. Eu vou tentar reconstituir a minha vida. Nos momentos de saudade, procurarei no rosto do meu filho os sinais de alguém que tanto amei e tanto me fez sofrer.
O destino prega-nos partidas. Vê bem, no final da nossa história fui eu, a abandonada, que ficou mais rica.
Adeus para sempre. Sê feliz.
Marjorie Berthier
New York, Novembro, 16, 1998.”

Maria da Glória já não reagiu a esta notícia. No fundo não tinha sido uma surpresa. O marido fora Pai, a maior alegria que lhe podia ser dada e ela, Glória, não conseguira. Mas pagou por isso um preço muito alto. Ver desabar uma vida, nunca é fácil.
Apesar de muito abalada com toda a história de mentiras e traição que tinha desvendado, não obstante o profundo desgosto e desilusão que sofrera, lamentava, do fundo do coração, a dor silenciosa que Francisco carregara até à morte.
Agora, teria de acabar a leitura, pois compreendeu que o dinheiro que Francisco enviava mensalmente para os Estados Unidos, era para o filho. Que situação mais absurda a vida lhe reservara. Sentia pena, muita pena pela criança que não tinha culpa de ser filha de um Pai cobarde e sem coragem de o assumir.
Carta nº. 7 datada de 30 de Novembro de 1998.
Abriu e como de certa maneira já calculava, era uma carta do marido, que tinha sido devolvida ao remetente, com a observação de que o apartamento não estava habitado. Mas leu.


“Meu amor,
Como eu gostaria de saber escrever cartas de amor. Mas não consigo, faltam as palavras.
Queria conseguir, passar ao papel, a emoção, a tristeza que me vão na alma. É, como se de repente, algo em mim se apagasse, e ficasse um enorme vazio, que nada nem ninguém poderá preencher.
Mas não , não consigo sequer pensar, o que te dizer.
Dizer que te amei como nunca pensei amar alguém, não chega.
Dizer que sinto a falta dos teus carinhos, da tua ternura, do teu corpo, provavelmente nem vais acreditar.
Dizer que me entreguei de corpo e alma, é pouco pois foi muito mais do que isso.
Dizer, que lembrar os momentos que passamos, duma paixão tão intensa, e que me levaram quase à loucura e que esse sentimento tão profundo, de desejo quase irracional, me assustou, é verdade.
Confessar, que fugi, por recear não ter coragem de partir, também é verdade.
Jurar, que não voltaria a fazê-lo, mentiria, pois não tenho a certeza.
Existem em mim, duas pessoas diferentes e em conflito. Uma, a que eu era antes de te conhecer e outra, a que me tornei depois. Este conflito acabará, por, mais tarde ou mais cedo, me destruir.
Errei, fui cobarde eu sei. Procederia de maneira diferente, não posso afirmar-te. Eu respeito a minha mulher, companheira de tantos anos. O receio de a fazer sofrer foi mais forte que o desejo de ficar contigo. Fiquei sempre dividido, entre duas mulheres maravilhosas, e reconheço que eu não as mereci.
Pode parecer estranho, mas eu compreendo que a tua decisão de me negares a paternidade do nosso filho, seja uma punição que o meu comportamento merece.
Eu sei que te feri, que te desiludi, mas nunca te enganei. Tu sabias da minha situação e quando me perguntaste, se deixaria tudo para trás para ficar contigo, eu disse-te, olhos nos olhos, que não sabia, se seria capaz.
Por tudo o que vivemos, pelos sonhos que sonhamos, pela dor que te causei, peço perdão.
Eu perdi-te a ti, e agora vou perder um filho.
Tens razão, afinal o grande perdedor, sou eu.
Mas lembra-te, é o que te peço, do futuro da criança que trazes no ventre. Eu posso não merecer ser o Pai, mas quero do coração, que ele partilhe, daquilo que eu posso dar e a que ele tem direito.
Eu quero constituir um fundo em nome dele, para garantir a sua educação. Deixa-me fazê-lo. Em nome do que fomos, não te peço mais nada.
Francisco
Lisboa, 23 de Novembro de 1998

Já não havia mais cartas, restavam as fotos para ver noutra altura. Agora não conseguiria. E pensou que, como médica sabia a razão clínica da morte do marido. Como mulher só agora compreendera que ele morrera de amor.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – IX - DESILUSÃO

É verdade, reconhecia que ela e Francisco eram muito diferentes. Ela amava a vida e cada dia era preenchido com alegria e ternura. Dava-se por inteiro, corpo e alma. Francisco era mais sóbrio e pouco expansivo, possivelmente teria entregue só o corpo e guardou a alma fechada, no recôndito do seu ser. O homem da sua vida, não era dado a grandes manifestações de paixão, reconhecia agora, mas sempre sentira, ou julgara sentir da parte dele, uma forma diferente de expressar o amor. Pura ilusão.
O que mais a feria não era a traição em si. Sabia que o amor não é eterno e que precisa de ser renovado momento a momento. O pior que podia acontecer num casamento era tornar-se um costume que não questiona. Ela sabia que em determinados momentos, quase sem se dar por isso, deixamos esfriar a paixão e ficamos vulneráveis a qualquer desafio, que nos permita fugir da monotonia do dia a dia. Mas sempre acreditou, que entre duas pessoas a conviverem durante tanto tempo, teria de existir confiança para discutir a situação.
Há sentimentos que a razão desconhece, reconhecia, mas o que mais a magoara nesta história , foi ele ter dito e escrito à amante, que não podia separar-se da mulher porque tinha pena dela. Pena, que desculpa mais horrível. Até lhe custava a crer que Francisco tivesse sentido pena de uma pessoa, que ele mesmo sempre reconhecera como sendo mais firme e determinada do que ele.
Para desculpar a sua cobardia, Francisco não havia hesitado em ignorar tantos anos de vida em comum.
Na hora em que a morte o levou, procurara na mão da mulher, o perdão da companheira que sabia ter traído e enganado, e que estava, como sempre estivera a seu lado.
Agora, a lágrima que vira no seu rosto, a ansiedade no seu olhar, o gesto final, pareciam-lhe uma hipocrisia sem sentido ou algo mais que nem se atrevia a pensar.
Não sentia raiva da mulher por quem Francisco se apaixonara, sentia sim uma enorme mágoa e um desgosto profundo por ver ruir um grande amor. Pelos vistos não era assim tão grande.
Mas resolveu continuar. Quanto mais tempo pensava no assunto, mais se convencia que ainda faltava alguma coisa.
Retirou a carta nº.5 com recebimento datado de 12 de Novembro de 1998.
Voltou a traduzir:

“ Francisco,
Fiquei realmente surpreendida com a tua carta. Se bem a entendi, vens oferecer-me ajuda financeira para manter o nosso apartamento, cujo contrato termina no final do ano.
Eu não te pedi nada e dinheiro nunca aceitarei. Tens de reconhecer que com a ajuda financeira o tu queres é comprar a tua consciência. Eu não fui um encontro fortuito de uma noite. Não sou uma prostituta que possas comprar.
Eu paguei o meu preço, mas paguei em lágrimas e dor. Isso nunca vou esquecer.
Adeus
Marjorie
New York, Novembro 4, 1998

Maria da Glória, que pensara nada mais a surpreender, não foi capaz de evitar um rictus amargo.
Francisco, o seu companheiro de tantos anos, era uma homem amoral, oferecendo dinheiro à mulher que também enganara?
Não, havia qualquer coisa que não entendia, mas Francisco não fora assim. Também reconhecia que a mulher com quem o marido a traíra, e que mostrara tanto sentimento nas cartas que escrevera, não fora uma armadilha para um homem solitário. Não, Francisco não tinha sido uma vítima.
Tivesse ele sido sincero e contado tudo e não seria ela a dificultar a separação, pois sempre entendera que o casamento não é um contrato para a vida. Preferiria ter-se divorciado, com dor mas sem azedume, seguindo cada um o seu próprio caminho.
Doí-lhe muito o comportamento do marido. Enganar, mentir fugir às responsabilidades eram defeitos que não admitia. Talvez só na hora da morte ele se tivesse arrependido e buscado o perdão. Mas tarde, demasiado tarde.
Refugiou-se no seu trabalho junto das crianças que acompanhava. Passava a maior parte do dia na Instituição, ajudando, por forma a esquecer a dor que sentia.
Mas a noite era um suplício. Só, sem uma pessoa em quem confiasse para desabafar o que lhe ia na alma, começou a perder a alegria de viver.
A transformação era tão evidente que deixou de convidar as amigas para o chá, não tinha paciência para conversas de salão e também negligenciou o que ela sempre tivera muito cuidado em manter, a sua aparência, o seu bom gosto. Até a Empregada, com uma lágrima ao canto do olho, se manifestou preocupada, oferecendo-se mesmo para ficar mais tempo como companhia.
-Glória, recusou agradecida, atribuindo o seu estado, à vivência do luto e à solidão, garantindo que era apenas uma fase e tudo iria passar.
Passar? Mas se nem ela realmente acreditava fosse assim simples...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES


CAPÍTULO – VIII – A FUGA

Deixou passar alguns dias. Esteve tentada a rasgar as cartas, mas o ciúme e o despeito já estavam profundamente entranhados no seu ser. Decidiu continuar até ao fim, como se tivesse de beber, a última gota, de um copo cheio de fel. Tinha o pressentimento que a história não iria ter um fim feliz.
Voltou a abrir o envelope e retirou a carta marcada com o nº 3, assinalada como recebida a 14 de Setembro de 1998.
Traduziu, com mais dificuldade porque havia palavras manchadas. Terão sido lágrimas de quem escreveu ou de quem leu, pensou?
O texto, com uma ou outra falha, dizia:

“ My sweet Francisco,
Como sabias fui a Los Angeles fazer um desfile de moda, para o costureiro do costume. Foram só três dias, durante os quais, tentei por diversas vezes ligar-te, mas fui sempre enviada para a caixa de mensagens.
Liguei para a June e o Bill W....., nossos amigos e vizinhos, mas eles não sabiam nada. Tentei falar com a tua secretária na UN, já não era a mesma , e a substituta não sabia ou não quis dizer-me onde estavas. Por fim lá me foi dizendo que tinhas sido chamado com urgência ao teu País, para consultas diplomáticas.
Quando entrei no nosso apartamento, tremia como se um vento gélido fustigasse o meu corpo. Era uma premonição do que me esperava. O teu armário estava vazio e os teus objectos pessoais tinham sido levados. Ao ver que, até as nossas fotografias, tinham sido retiradas das molduras, fiquei sem nada que pudesse lembrar-me de ti.
Senti-me só, tão só, que tudo me parecia ter sido um sonho, e que este acabara. Chorei muito, sofri de mais.
De ti, do tempo que partilhamos o nosso ninho, apenas ficaram o teu odor e as recordações.
O que eu no fundo receava, tinha acontecido. Tinhas partido, sem uma palavra, como se eu tivesse sido um encontro ocasional. Mas nós partilhamos, o nosso amor durante dois anos. Eu dei-me, como nunca pensei pudesse acontecer. Tu deves ter fingido amar-me durante todo o tempo. Isso dói, dói muito e eu não merecia esta dor.
Mas o meu pesadelo ainda aumentou. Na caixa de correio, com data 2 de Setembro, tinha uma curta mensagem, onde me dizias ir partir, para não mais voltar e o pedido “ esquece-me”. Assim, friamente.
Diz-me, porque partiste? Diz que já não me amas e que eu fui apenas uma aventura. Talvez assim eu consiga refazer a minha vida. Mas tens de me dizer que nunca me amaste.
Tu foste o grande amor da minha vida. As juras de amor eterno que me fizeste, não podiam ser mentira. Ou foram e eu acreditei?
Tua Marjorie”
New York, Setembro,5, 1998

Maria da Glória respirou fundo. Já nada a surpreendia. A dor tão profunda estava a ficar adormecida. Ler as cartas era para ela como ler um romance, do qual não queria ser protagonista.
Estava fria, distante, ausente. Só o olhar não conseguia esconder a profunda tristeza que lhe ia na alma. Aquele não era o Francisco que ela conhecera. Ou era e ela nunca se tinha apercebido?
Abriu nova carta.
Carta nº. 4, recebida a 19 de Outubro de 1988.

“ Francis
Não sei, se ter recebido a tua carta foi bom para mim, porque não a percebi. Nela juras que nunca fingiste e juras que a paixão que sentiste, era verdadeira e se mantém ainda hoje.
Mas que regressaste a casa, definitivamente. Tinhas o propósito de falar com a tua mulher, mas não tiveste coragem para o fazer. Dizes, que ela não merecia sofrer, com a tua imprudência.
Imprudência, foi assim que classificaste as nossas longas noites de amor, a ternura nos nossos gestos, a alegria e a felicidade dos momentos, tantos, que vivemos.
Se isso é uma imprudência, o que é então o amor? Fizeste uma opção clara entre mim e o dever de respeito para com a tua mulher. Não foi uma opção entre uma e outra, foi uma escolha entre o amor por mim e respeito pela tua mulher.
Não percebo, nem compreendo, e creio que ela também não compreenderia, tão estranha opção.
Por ti, eu enfrentei a minha família. Pelo amor que sentia, lutaria contra tudo e contra todos, se fosse necessário. Porque para mim o amor é a vida, não é, nem nunca será, uma imprudência. Eu disse-te, quando passamos a viver juntos, que para mim, não há meio termo. Quando amo e me entrego faço-o com todos os sentidos e que sempre pensei receber o mesmo.
Não posso perdoar a tua cobardia, mas digo com o coração despedaçado, continuo a amar-te...
Marjorie
New York, Outubro, 10, 1998

Releu a carta e voltou a sofrer, imaginando o que o Francisco dissera de si. Provávelmente, que o casamento fora, também, uma imprudência ou um equívoco, e que só por hábito e comodidade se mantivera. Cada vez mais detroçada decidiu parar de ler as cartas. Só lhe estavam a fazer mal.

domingo, 28 de novembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES



CAPÍTULO – VII – A SEGUNDA CARTA

Abriu o segundo envelope. Também tinha anotada a data da recepção, 13 de Agosto de 1997. Francisco, gozava o período de férias de verão. Pela primeira vez, não se mostrara entusiasmado, quando lhe sugerira que fossem passear, como era costume. Dissera que fora, já ele tinha estado mais de seis meses e que, agora, o que precisava era de ficar em casa, conversando, lendo e matando saudades.
À medida que ia lendo e traduzindo o texto, da carta nº. 2, Glória sentia um maior aperto no coração, um desmoronar da esperança, ténue, que ainda teimava em manter viva.
“ Meu amor,
Não sou capaz de te explicar a sensação, que sinto ao acordar, procurar o teu corpo e encontrar o vazio.
Desperto a pensar em ti, no que fazes, e sinto a picada do ciúme, por te saber com outra.
Tenho a certeza de que ao fazeres amor com a tua mulher, fechas os olhos e é em mim que estás pensando. Quero muito acreditar.
Amo-te e desejo-te tanto. O meu corpo reclama e está sedento das tuas carícias.
Tenta vir o mais cedo possível, arranjarás com facilidade uma justificação.
A cidade do nosso amor, está muito quente, vazia, não tenho desfiles para este período e portanto nada me distrai.
Olho a tua fotografia, que me faz companhia, nas preciso de ti para apagar esta chama ardente, que me consome.
Vem depressa, eu espero-te.
A tua, sempre tua, Marjorie.
New York, Agosto, 5, 1997”

Acabou de ler, e com lágrimas nos olhos, dobrou a pequena carta e voltou a colocá-la no envelope correspondente.
Não teve coragem para continuar a ler as outras. Sentia-se vítima de um terramoto, com o mundo a cair sobre a sua cabeça. Precisava de recuperar o auto domínio. O coração estava demasiado ferido e sangrando.Não podia deixar, que fosse ele a comandar os sentidos. Era preciso parar, pensar e colocar em ordem tudo o que lera. Embora tarde, reconhecia que certos indícios de uma alteração comportamental, que notara no marido, no período em que ele vivera em Nova York e mesmo após o seu regresso, deviam ter uma origem.
No primeiro Natal, e nas férias do verão seguinte, recordava agora, viu-o mais alegre e descontraído. Comentara até com as amigas, que a grande cidade lhe estava a fazer bem. Como elas iriam rir nas suas costas, se soubessem o porquê.
Quando regressou, definitivamente, no princípio de Setembro de 1998, voltou a ser o homem calado e reservado que ela sempre conhecera. Estava com ar abatido e teve problemas com os colegas do Ministèrio. De tal forma que decidiu não ter disposição para continuar a fazer o trabalho que lhe tinha sido destinado, pediu uma licença sem vencimento e mais tarde a reforma.
Ela deveria ter sabido interpretar aqueles sinais. Não o soube, e agora como se arrependia. Percebera o cuidado do marido em alugar uma caixa postal e esconder os documentos, num local a que ela não teria acesso fácil. O Francisco, pensara em tudo para lhe esconder a traição. A mentira tem mesmo um sabor amargo, que vai sendo destilado e envenenando o nosso sangue.
Para quê continuar a mortificar-me? O que se passou tem mais de dez anos! Dez anos é muito tempo. Esteve quase decidida a não continuar a leitura. Algo porém a impelia a seguir em frente, masoquismo talvez, mas principalmente a sua personalidade forte que a impediam de deixar as coisa a meio.
Esperava, oh como esperava, que tudo tivesse sido uma aventura sem consequências, nascida pelo fascínio de uma mulher mais jovem e certamente bonita e a fraqueza de alguém que está só, numa terra estranha. Na realidade ainda se recusava a acreditar, que toda a sua vida de casada tivesse sido uma encenação.
Como era, Francisco, dizia para a fotografia:
- Estavas comigo a pensar nela ou estavas com ela a pensar em mim?

sábado, 27 de novembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES









CAPÍTULO 6 – A PRIMEIRA CARTA

Arrumou as recordações temporais, que só lhe serviam para entender sinais, decidiu-se a abrir e ler a primeira carta.
Esta era de uma 1 folha apenas, manuscrita por mão feminina, numa letra elegante mas pouco legível e escrita em língua Inglesa. Teve alguma dificuldade na leitura, por isso resolveu traduzir o texto , deixando o espaço em branco, para uma palavra ou outra que não conseguisse perceber, e que completaria, mais tarde, interpretando-a pelo sentido da frase.
A carta era uma declaração, uma afirmação de amor.

“ Meu grande, grande amor,
Para não estar sozinha durante o período do Natal, tirei uns dias de férias e vim passá-los a casa dos meus Pais em Montreal. É daqui que te escrevo.
Gosto de estar com os meus Pais e irmãos mas a minha Mãe, já se apercebeu que eu estou inquieta e ausente.
Perguntou-me se o meu comportamento se devia a aborrecimentos com o trabalho ou se era um mal do coração.
Não consegui e não quis esconder e confessei que estava perdidamente apaixonada.
A Mãe disse-me que estar apaixonada é maravilhoso mas que pode causar dores e sofrimento se a paixão não for correspondida, ou algo correr mal. Nisso estou à vontade pois sei o quanto me amas.
Tenho muitas saudades tuas. Vivo a contar os dias que faltam, para te envolver nos meus braços, beijar-te, e gritar o meu amor.
Ainda te lembras do nosso primeiro encontro? Foi casual e fortuito num sábado de manhã, a passear no Central Park. Estava um dia cheio de sol, mas as árvores tinham começado e perder as folhas, atapetando os passeios com um manto doirado. Conversamos, deste-me o teu cartão e eu dei-te o meu número de telefone.
Confesso, que tinha a esperança de te encontrar de novo. Mas tão depressa não. Foi nesse mesmo dia, que recebi o teu convite para jantar. Aceitei com alegria, porque acreditei que o nosso encontro, tinha sido, uma partida do destino.
Eu sinto e acredito que o nosso encontro foi talhado no céu. Nós fomos feitos um para o outro e mais tarde ou mais cedo, a chama que se acendeu naquela manhã no parque, iria, teria de ir, iluminar os nossos caminhos.
Depois, bem depois, começou o nosso romance, tão forte e intensamente vivido.
Também tens saudades minhas? Sei que sim, pois a paixão que nos une, vai muito para além da razão.
Volta depressa. Preciso da volúpia dos teus carinhos, sinto falta do calor do teu corpo.
Tu és a razão do meu viver e eu sem ti, sinto-me perdida.
Aí nesse teu mundo, onde me disseste faltar-te algo, não te esqueças que o meu coração, o meu corpo fremente, são teus.
Feliz Natal.
Amo-te mais do que à vida.
A tua Marjorie.
Montreal, Dezembro, 20, 1996


Meu Deus, exclamou Maria da Glória. O suor escorria-lhe pelas fontes, o corpo tremia como árvore açoitada pelo vento bravio. As lágrimas caíram-lhe pela face e sentiu-se desamparada. Olhava à sua volta e tudo o que a rodeava lhe parecia irreal. Os quadros que haviam comprado, as fotografias do casal, o maple onde ele se sentava a ler enquanto ela cuidava da casa, tudo aparecia agora encoberto pelo nevoeiro da tristeza. Parecia que mergulhara num mundo que não era o dela, como se de um pesadelo se tratasse. Queria gritar que o que lera não era a verdade, mas os gritos não passavam de gemidos de dor, porque as palavras que lera nada escondiam. Francisco traíra e vivera mais de dez anos na sombra da traição. Como é que ela nunca se apercebera, não conseguia entender. Custava-lhe muito ter de reconhecer que, quem sabe, também ela tivesse contribuído para o que acontecera. Talvez se tivesse acomodado e deixado que a vida dos dois fosse um hábito.
Releu de novo a carta, como se procurasse, com angústia, um sinal de engano.
Mas não havia dúvidas, era uma carta escrita por uma mulher apaixonada, para alguém que lhe retibuia a paixão. Toda a vida, construída com base na confiança, na partilha, no amor, ruía agora como um frágil castelo de cartas. E o estrondo da verdade, feria-lhe os ouvidos e teimava em permaner, entranhado, no fundo do peito.
Lamentou não ter seguido o conselho do Advogado. Mas, para além da dúvida que a devorava, alimentara sempre, a esperança, de que tudo não passasse de um erro ou de uma confusão. Agora é tarde, para recriminações. O mal está feito e a dúvida deixou de o ser. Precisava de seguir em frente. Desistir agora, não era capaz. O grande choque já tinha acontecido. Tudo o resto que vier, não a iria ferir mais. Afinal, ganhar a confiança numa pessoa não é fácil, é preciso quase uma vida, mas para perdê-la, basta um instante. E ela deixara de acreditar.
Magoava-a reconhecer que Francisco, quando cá estivera no primeiro Natal, e lhe falou na hipótese de o acompanhar, não fora mais do que um acto de hipocrisia. Nessa altura, ele já vivia com outra mulher.