quinta-feira, 10 de março de 2011

CORAÇÃO ATEU

Ontem ao arrumar algumas caixas esquecidas, foi encontrar muito filmes, em Super 8, nos quais o meu falecido sogro gravou,o momentos mais importantes que se seguiram à Revolução dos Cravos.
Muitos dos filmes precisam de ser objecto de uma nova montagem, pois há partes estragadas que é preciso eliminar. A mesa de montagem para visionar e assim poder fazer o corte e cola das películas, também existe.
Na realidade apenas fica a faltar paciência e algum jeito para a tarefa, mas também uma dor e uma saudade pelos anos loucos, vividos na primeira metade dos anos 70.
E tanto se viveu, tantas alegrias, tantos sonhos, tantos desenganos!
Relembro, 11 de Março de 1973 e o sangrento golpe de Pinochet e assassínio de Salvador Allende; E quantas vezes fiz coro, gritando “ El pueblo Unido Jamas será vencido”;
Lembro também a renuncia como chefe de governo, do ditador Francisco Franco, e em 1973 o atentado que vitimou o seu sucessor “Carrero Blanco”.
Em Abril de 1974 quando o povo de Lisboa saiu à rua e transformou um golpe militar, numa revolução popular, é o zénite daqueles tempos.
E depois abriram-se as prisões e o Povo quis tomar nas suas mãos o seu destino.
Ingénuo que eles foram, ingénuo que eu fui. Ninguém sabia qual era o caminho, cada um tomou o seu e por isso, depressa se chegou ao beco sem saída.
O 11 de Março de 1975 foi um aviso, mas a euforia de uma vitória fácil, tudo fez esquecer.
As manifestações a favor disto e contra aquilo e vice-versa, ocupavam o espaço informativo. Na Assembleia da Republica a luta e cedências para a elaboração de uma Constituição eram importantes. Mas algo aconteceu, que resistiu ao fervor das manifestações, deu descanso aos Deputados e deu muito prazer ao povo, do mais iletrado ao mais conhecedor.
Esse fenómeno, foi a transmissão de uma telenovela, realizada pela Globo, que passava em horário nobre da Televisão, desde o dia 14 de Abril a 24 de Outubro de 1975. O seu nome é, claro quem não se lembra? «Gabriela Cravo e Canela”.
O pouco que se disse e o muito que ficou por dizer, cabe à história escrever daqui por muitos anos, quando as ideias preconcebidas tiverem amainado, os ódios e paixões enterrados. Então só nessa altura será verdade.
Mas hoje o que eu retenho e quero partilhar é a mais bonita canção, da trilha musical da telenovela. CORAÇÃO ATEU.

quarta-feira, 9 de março de 2011

ANTE MEMÓRIAS

site: bonsinvestimentos.economico.sapo.pt



Dia 9 de Março, o ano de todos os perigos.
Hoje é um dia que não posso deixar em claro. Tenho de escrevinhar qualquer coisa, pois o Homem que tudo sabe e raramente se engana, (recordo ter ouvido este auto elogio já há muitos anos, mas são sei de quem), pode sentir-se discriminado. E quando ele se sente assim é capaz de encomendar a um dos seus escritores fantasmas, (agora está na moda este trabalho), uma intervenção a publicar no sítio, (não sei sequer o nome e o endereço), só para me desdizer. Por isso não digo nada e assim o Homem fica baralhado. O escritor fantasma de serviço, vai sugerir um texto a contradizer o meu não texto, numa linguagem cifrada, como é habitual, não vá alguém ter a veleidade de perder tempo a ler. E perder tempo é mau com tanto que há para fazer. O quê, não se sabe, mas alguma coisa haverá, nem que seja partir, mas por mar, como nos recomenda o Grande Timoneiro.
Bem, ou isto está muito confuso ou eu já me esqueci do que ia dizer. Também não faz mal, não devia ser nada de importante.
Bem vistas as coisas, dizer ou escrever coisas que não são importantes é o passatempo favorito dos meus concidadãos, pelo que mais um na lista, não vai fazer diferença.
Já sei, de repente lembrei-me. Eu só queria alertar que hoje há futebol de primeira e que devemos todos parar e torcer pelo Mourinho, pois que eu conheça, é um único Português, que malha nos Espanhóis, que ainda por cima lhe pagam para isso.
Que não lhe doam as mãos.

segunda-feira, 7 de março de 2011

DESASSOSSEGO

Como percebi que as histórias que ia inventando estava cada vez mais iguais, optei por parar, repensar e aguardar uma ideia que valesse a pena trabalhar. A ideia chegou, mas apenas o título.
Depois foi um contínuo remendo de frases, tentando não perder de vista o tema. Como era previsível, o que nasce mal, tarde ou nunca se endireita. E degrau a degrau a história baralhou-se, transformou-se numa conversa chata e desinteressante e escrever, acabou por ser um martírio.
Perdi o rumo, perdi o caminho e fiquei parado na estrada sem saber que fazer. A ideia inicial, se alguma vez me apareceu pela cabeça, sem nem sei a que seria.
Há dias assim, ou melhor, há alturas é que nos apetece parar, rasgar, esquecer. E devia-o tê-lo feito logo no segundo episódio, mas não consegui arranjar sequer, um final por mais simples que pudesse ter sido. Só no último capítulo tive coragem para acabar a história e obviamente matar o protagonista
O sentimento de desengano, leva à desistência, quando damos conta de que se perdeu a fluidez das palavras e que as ideias, antes claras e cristalinas se transformaram em nada, exceptuando um ou outro raio de luz que dura uns instantes e logo se apaga.
Que fazer? Lutar é um caminho, mas cada batalha, é dia após dia mais difícil e no fim ficarão apenas as marcas das feridas que não sararam.
É a síndrome do desassossego, esta angústia vivida entre o desejo de resistir e a vontade de parar.
Pode ser que os laços que estrangulam os sentidos, se desatem para que se volte a sentir o prazer da escrita e se acalme este vício que nos tortura.
Então voltamos atrás, relembramos o que tempo é que éramos jovens, capazes de mudar o mundo, quando hoje nem a nós nos conseguimos mudar. E vem-me à memória, uma canção de Charles Aznavour, “Hier Encore”, celebrizada na versão em Inglês pelo próprio autor e por tantos dos mais admirados interpretes.
É do próprio autor que vos deixo a versão “Yesterday When I Was Young”.
Ao menos espero, que ao ouvirem esta linda canção, me perdoem pela sensaboria destes textos.
Porque é verdade, “ontem quando eu era jovem” … era diferente.

domingo, 6 de março de 2011

À BEIRA DO ABISMO





A Partida

Mas o homem que começara a ter consciência, que adormeceu sonhando com o amanhã, não acordou.
Afinal, o seu amanhã tinha sido ontem. Tinha relembrado os rostos familiares que havia esquecido e com aquelas imagens tinha partido, com um sorriso de tranquilidade a bailar-lhe nos lábios.
Estava no outro lugar, cheio de luz e livre do pesadelo. Não tinha mais dúvidas angústias nem dor.
Mas num canto pequeno do seu cérebro ainda havia um vislumbre de vida, mas que escondia. Nele guardava os segredos, as carícias, o amor, o riso de crianças, o rumor do mar, o brilho do sol a alegria da madrugada. Apagara a mágoa e a desilusão, a injustiça e a traição, o choro e os gritos, a noite sem estrelas.
À sua volta sentia murmúrios sussurrados. No seu subconsciente, naquele pedacinho que ainda sobrevivia, tentava encontrar e dizer uma palavra. Mas ninguém ouvia, estava só naquele mundo em que mergulhara. E era só que queria ficar, em paz.
Finalmente, alguém desligou uma máquina e o Engenheiro que havia sofrido a humilhação do despedimento e constatado a traição da pessoa em que sempre confiara, partiu. Sem censuras, apenas com o desgosto de uma vida perdida.
Em vão, tinha lutado consigo próprio. Á beira do abismo ainda encontrara um rasgo de vida e de esperança. Mas tinha sido apenas um lampejo. O destino fora mais forte.

O FIM

sexta-feira, 4 de março de 2011

À BEIRA DO ABISMO

(Julio Pomar)



Insónia
O porquê da sua ausência, o receio de que o conhecimento da verdade lhe fosse doloroso não lhe saía da cabeça. Andava pela sala, em círculos cada vez mais apertados. Sentia como num carrocel. As tonturas eram fortes, foi obrigado a deixar-se cair no sofá e levando as mãos à cabeça, começou a bater com os punhos, em sinal de raiva e desespero. Nada parecia dar certo, nem conseguia articular uma ideia, gritava com amargura o desencanto.
Apeteceu-lhe sair, pegar no carro, passar pelo endereço que havia encontrado no BI, tinha a esperança de que o lugar, a casa, as pessoas, lhe desbloqueassem as memórias perdidas.
Mas qualquer lhe dizia para não o fazer, talvez porque ele no seu íntimo reconhecesse que não estaria ainda preparado para um despertar, eventualmente, doloroso. Seria um pressentimento, mas a dor que sentia e lhe esmagava o peito era um aviso.
Voltava a sentir o desejo de pôr fim a tudo. Qualquer coisa seria melhor do que aquela agonia que o golpeava.
O sono não ajudava e voltava a ver sombras, pareciam de um rio de lama viscosa a deslizar lentamente, engolindo tudo e todos e se aproximava de si. E ele esperava como se fosse a libertação.
Levantou-se, fez mais um esforço para afastar os pensamentos negros. Acendeu a luz, pegou nas fotografias que encontrara na carteira e esteve a olhar para elas, desejando que um raio de razão lhe explicasse o seu martírio.
Demorou horas, tantas, que já nem sabia se era dia ou ainda noite.
Saiu para a rua, precisava de encontrar alívio para calmar o fogo que o destruía. Cambaleando rua a baixo, noite escura, ouviu um automóvel accionando os travões com estrondo e de lá saírem dois homens que o pegaram por um braço, arrancando a toda a velocidade ao som estridente de uma sirene.
E depois a calma. A dor que lhe esmaga o peito atenuou-se e até as lembranças, pareciam ter voltado. Olhava a sua volta, agora procurava os rostos conhecidos, o da mulher Ana, da filha Carolina e do filho André. Eram as imagens que esquecera, por isso sentia que estava a recuperar. Amanhã vou acordar deste pesadelo, e perceberei tudo. Finalmente, amanhã, …. adormeceu.

quinta-feira, 3 de março de 2011

À BEIRA DO ABISMO

(Amadeu de Sousa Cardoso)



O mistério

Gostou da refeição, o peixe era mesmo fresco e bem grelhado e o vinho branco seco estava delicioso. Declinou a sobremesa, pedindo o café.
O empregado que, pelos vistos o conhecia, levou o café, uma garrafa de whisky e o copo adequado. Posso servir o whisky, perguntou?
-Não obrigado, deixe que eu mesmo me sirvo, respondeu.
Bebeu, lentamente, enquanto a cabeça não parava. As pessoas conhecem-me, bom princípio.
Sem dar conta e de forma mecânica, levou a mão ao bolso do casaco, tirou a carteira e dela o dinheiro para pagar a conta. Antes de a guardar, olhou espantado ao ver fotografias, cartões de crédito, cartões de apresentação profissional, e mais documentos em que não mexeu. Afinal, tinha no bolso tudo o que o identificava.
Andou um pouco, cruzou-se com pessoas que lhe eram indiferentes, reconheceu o automóvel estacionado perto, pegou nas chaves, abriu a porta do prédio, subiu ao sexto andar e sem hesitar, abriu a porta do apartamento A e entrou.
Suava como se tivesse feito uma longa caminhada e, de certo modo, fizera. Tinha percorrido o caminho da escuridão, até à luz que vislumbrara ao abrir a carteira.
Sentou-se num sofá, olhou em redor e deu-se conta de estar numa sala aparentemente confortável, mas sem sinais de vida.
Apenas reparou numa mala de viajem, aberta sobre uma pequena mesa. Nas paredes apenas quadros tendo o mar como tema principal.
Mesmo para uma mente perturbada, conseguiu entender que estava a viver num aparthotel. Não sabiam era desde quando e porquê.
Abriu a carteira e espalhou o seu conteúdo sobre a mesa. Uma foto de uma mulher sorridente, duas crianças. Será a minha mulher e os meus filhos, adquiriu como tal. E ficou feliz. O BI e a carta de condução identificaram-no como Fernando Manuel Gomes de Castro, nascido em Lisboa a 15 de Abril de 1966, filho de Albano Freitas Castro e de Maria Aldina Gomes, residente na Avenida das Forças Armadas, nº. 36 –4º. Esquerdo, Nova Oeiras.
Nos cartões de apresentação da Empresa, indicava ser Engenheiro Electrotécnico, Chefe Das Operações Internacionais, de uma Empresa de Telecomunicações.No verso do cartão fazia a apresentação em Inglês e em outro em Francês.
Tinha o endereço completo, número de telefones e e-mail.
Telemóvel, lembrou-se de repente que o teria visto na mala de viagem. E estava, mas sem carga, não encontrou o carregador e também não sabia o código. Não lhe ia servir de muito. Amanhã é segunda-feira, isso sabia, e poderia esclarecer tudo ligando ou indo ao escritório da Empresa.
Ao fechar a mala fez uma descoberta que o encheu de júbilo. Descobriu o computador portátil. Finalmente iria esclarecer tudo. Mais uma vez sem resultado,o computador estava desligado e nem sabia a palavra-chave.
Ficou absorto a olhar tudo o que o podia ter ajudado mas nada dera certo. Guardou o computador na mala e da bolsa, retirou com espanto, cartões de embarque aéreo, mas com as viagens realizadas. Teria voado de Lisboa para São Paulo e regressado a Lisboa uma semana depois. A surpresa maior, era que a viagem de retorno teria acontecido há mais de dois meses. Dois meses, como pode ser, eu estou aqui há tanto tempo, porquê?

quarta-feira, 2 de março de 2011

À BEIRA DO ABISMO

(M.H.Vieira da Siva)




O Despertar

As imagens que o subconsciente projectava no tecto, eram sombras, figuras de contornos difusos, mar revolto e ondas ameaçadoras. Cerrou os olhos, não queria ver.
Esteve assim calmo e a respirar compassadamente, até se deixar cair num estado de semi-torpor, todavia mais perto do sono. E sonhou.
As sombras e figuras que vira, começaram a assumir rostos que, todavia não reconhecia. Viu uma mulher num dos momentos mais felizes da vida. Estava deitada, sorria de felicidade e estendia nos braços uma criança acabada de nascer.
Alguém, que não viu o rosto, recebeu com as mãos trémulas, o recém-nascido, acariciou-o e chorou de alegria.
Aquele momento trouxe-lhe a paz que precisava. E com um sorriso nos lábios, deixou-se adormecer.
Acordou sem sobressalto. A tempestade já partira. Levantou-se, fez correr o estore da janela do quarto e espreitou a rua. O sol mergulhava no oceano, envolto em nuvens coloridas. Tinha perdido a noção do tempo em que estivera a dormir, mas o estômago funcionou como relógio, reclamando o alimento que há bastante tempo lhe tinha sido negado. Tomou um banho de chuveiro rápido, a água estava fria tinha-se esquecido de ligar o esquentador. Ao trocar de roupa, olhou-se no espelho e ainda viu marcas dos maus momentos.
Não pode ser, disse para si ao ver a barba crescida de dois dias. Dois dias, como é que ele, sempre tão cuidadoso com a aparência, deixara que tal acontecesse? Mesmo com fome e sendo quase noite, não vou sair neste estado. Desfez a barba, vestiu uma roupa confortável e foi jantar.
Na rua que percorrera, encontrou o restaurante e entrou. Pareceu-lhe algo familiar mas não tinha a certeza. Já havia pessoas a jantar, um empregado mais idoso chamou dizendo:
- Senhor Engenheiro a sua mesa está reservada, apontando uma mesa perto da vitrina.
O empregado conheceu-me, mas eu nem de lembro de algum vez aqui ter comido, pensou para consigo. Esboçou um sorriso de agradecimento, ocupou a cadeira que lhe indicaram e estudou a ementa. Não sabia o que escolher, olhou para o empregado pedindo ajuda. Foi aconselhado a comer um robalo grelado, robalo do mar, como o senhor Engenheiro tanto aprecia.
Enquanto aguardava a refeição, reconheceu que, para além das imagens duma mulher e duma criança acabada de nascer, a sua memória perdera, nalgum canto, a suas referências. Aquelas imagens, podiam ser, tinham de ser, o começo do caminho que teria de percorrer até se encontrar. Mas teria de começar devagar. Primeiro sabendo quem era, para depois poder entender o que se passou, que quase o levara ao fim.