segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

À BEIRA DO ABISMO




Encruzilhada
Era o amanhecer dum dia que se anunciava solarengo, algo ventoso e anda com algum frio. Afinal era o final do Inverno e as andorinhas tinham começado a voltar.
Um carro parou no largo do Cabo da Roca, o motor foi desligado e as luzes apagadas. O condutor esteve algum tempo imóvel, como se hesitasse o que fazer, depois abriu a porta e começou a percorrer o carreiro que o levara para as imediações do Farol.
O andar era lento, por vezes até cambaleante. Tropeçando aqui e ali numa pedra deslocada, caiu mas levantou-se num instante e retomou o caminho.
Andando, cada vez mais descontrolado, parou longe do Farol, num pequeno promontório. Sentou-se no chão sentia as pernas penduradas no vazio. Ouvia o bater das ondas nas escarpas rochosas, ameaçando subir e engolir os obstáculos.
O barulho era forte, o vento soprava ampliando o ruído das ondas, na sua porfiada investida contra as rochas.
O desconhecido continuava imóvel, alheado de tudo o que o rodeava. Olhava o mar mas ouvia apenas a tempestade que sentia na cabeça. Ele tinha um propósito, sabia o que queria fazer, o que o levara ali, mas estava perante uma encruzilhada. Passaram horas, o sol despontou o mar recuou e o vendaval que o desconhecido sentira dominar-lhe os sentidos, também lhe deu tréguas. E à medida que o sol nascente lhe aquecia o coração, a luz do dia lhe mostrava o azul do mar, o verde das plantas, os voos das gaivotas e o chilrear dos pardais, viu um malmequer a abrir, e também ele despertou para a vida. A coragem foi desaparecendo.
Estivera à beira do abismo, o caminho que escolhera para sepultar as suas mágoas e as suas desilusões. Faltara-lhe a coragem para o salto.
Regressou ao carro, ligou o motor, arrancou pela estrada semeada de curvas e regressou a casa.
Ao abrir a porta, voltou a sentir a angústia que o tinha levado à beira do abismo. Era uma casa vazia de vida, uma prisão da qual quisera sair, para não mais voltar. Deitou-se na cama e olhando o tecto, como se estivesse frente ao ecrã de uma televisão, assistindo ao desenrolar do filme, do seu passado.

(Continua)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

ANOS SESSENTA - III

Regressei da guerra no final de 1966. Regressei sem feridas físicas ou morais e com a alegria de, como tinha prometido, trazer vivos os soldados que me acompanharam na jornada.
Cresci muito nesses anos. Porque foi naquele tempo, no meio daquela incerteza, compartilhando com os meus bravos soldados, os perigos, a fome e a sede, o desânimo e a saudade, que aprendi a liderar, procurando fazê-lo com justiça e pelo exemplo. A eles devo a estima e a amizade.
Só por isso, não foram anos perdidos.
Os restantes anos da década, foram de uma turbulência que quase não nos deixava tempo para pensar. E eu fui apanhado por essa avalanche.
É a guerra do Vietname. São as manifestações contra a guerra, que envolveram milhares e milhares de jovens de todo o mundo;
Começávamos a ouvir os sinais do Maio de 1968. Este acontecimento, que assumiu proporções históricas, fez tremer o regime Gaullista, fez a maior greve geral que se conhece e tudo pôs em causa, e apesar de uma situação económica favorável, os estudantes de Nanterre, gritavam o slogan “É Proibido Proibir”. Fim da Utopia.
Em Portugal deu-se o milagre da queda da cadeira. Salazar, finalmente caiu.
Mas, depois tudo voltou à normalidade.
Porém, e este é o meu lado romântico que não tem cura, o acontecimento que mais fundo me tocou, foi o assassínio de “Che Guevara”. Imortalizado na célebre fotografia de Alberto Korda, mesmo que ela tenha sido encenada, o poster ainda o guardo, no meu baú de recordações.
E depois do pouco que escrevi, e pela rama, deixo-vos o “Hasta Siempre Commandante”.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

ANOS SESSENTA - II

Aproveitando uma oportunidade de trabalho, não era grande coisa, mas era o que se podia arranjar, vim para Lisboa nos primeiros dias do ano de 1961.
Pouco tempo depois eclodiu a guerra colonial. Alguns dos meus amigos fizeram as malas e foram a salto para França.
Eu decidi ficar, não por razões de patriotismo, mas porque sempre sonhara viver uma guerra, aquela era a oportunidade, e não lamento a decisão.
O vencimento que recebia, dava à tangente para comer e pagar o espaço de uma camarata colectiva, ali para os lados da Bica, muito cómoda e espaçosa, (espero que não acreditem). Éramos dez em dois quartos, todos a trabalhávamos na mesma companhia porque, verdade se diga, foi a Única que aceitou receber tantos jovens, cujo destino já estava traçado, a tropa e a ida para a guerra.
O apartamento não tinha aquecimento nem água quente. Por isso, no sábado, íamos de eléctrico até Santa Apolónia, porque ali perto, tínhamos descoberto um balneário público, limpo de com água bem quente. Nos outros dias da semana era só passar por água os olhos e as mãos.
Éramos um grupo muito heterogéneo e as diferenças levaram que eu e mais três companheiros saíssemos da camarata, para uma pensão da Calçada do Sacramento. Éramos quatro num quarto, mas como o dono também servia refeições, acabamos por ter a vida mais facilitada em termos financeiros. Além do mais tínhamos escolhido uma zona nobre da cidade, isso era subir na vida.
Viver na grande cidade, para jovens do interior, era um constante desafio. O dinheiro era pouco mas a sede de viver era grande. E não enjeitamos o que a cidade nos tinha para oferecer.
E não lamento nada.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ANOS 60 - ANOS REBELDES

Hoje decidi dar a mim, e aos que fazem o favor de ler os meus escritos, uma pausa.
Não fiquem a esfregar as mãos de contentamento, porque eu ameaço voltar em breve.
Preciso de consolidar algumas ideias, para ver se sou capaz de escrever novas histórias, com conteúdos diferentes, ainda que isso não signifique menosprezar o que, bem ou mal, tenho escrito e publicado.
Também não ficarei parado durante a pausa a que me impus, pois sempre hei-de arranjar maneira de publicar temas leves, que não me doam.
Exemplo, porque não falar de música? Não, numa perspectiva crítica, para isso não estou habilitado, mas de gosto pessoal.
No início dos anos sessenta, tinha eu dezoito anos, comecei a guardar os sonhos que sonhara, muitos ainda hoje guardo, e olhar para o mundo real. Eram os anos rebeldes que tanto prometiam e que,tão pouco restou. A minha entrada na década de sessenta, deu-me para beber e saborear a música que se fazia, por razões culturais a de expressão francesa. E a verdade, hoje ainda gosto de muitas canções desse tempo.
A primeira que vou referir, ouvi em 1962, foi mais do que uma canção, foi um belo poema de amor, e como a poesia, não tem idade.
“Ne Me Quitte Pas”. O seu autor, Jacques Brel.
Ora oiçam, digam se não tenho razão!



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

OS CRIMES DO X






Epílogo

Alguém que tem por hábito ler o que eu publico neste blog, chamou a atenção para o último capítulo da história, pretensamente policial, a que chamei os Crimes do X.
“Dizia, e passo a citar, “Consegue surpreender porque eu esperava que fossem encontrados os culpados e afinal não, isto é, fica em aberto.”
Devo explicações.
-Começo por lembrar que, neste nosso País, encontrar culpados vai sendo cada vez mais raro;
- Depois, porque pensei todo o texto a pensar na consumação de um crime perfeito, e queria que o Inspector terminasse a sua carreira, vergado ao peso do insucesso, ele que aprendera, “não haver crimes perfeitos mas sim investigadores incompetentes”.
- De qualquer modo deixei no último parágrafo, a promessa que a mulher que ele conhecera e por quem se sentia atraído, lhe contaria o resto da história.
Eu quis deixar em aberto a dúvida. Pensava na mulher misteriosa e o seu encontro com o homem vencido, para protagonizarem um final diferente. Porém, decidi ficar por ali, continuar seria como copiar a técnica de uma telenovela, e isso eu não queria fazer.
Afinal, sempre podem existir e existem crimes perfeitos, mesmo quando, como neste caso, o Polícia julgava conhecer os responsáveis. Mas com planeamento cuidado e a inteligência dos executores, dificilmente seriam constituídos suspeitos, a não ser que tivesse cometido um erro.
O final prometido no telefonema e convite que a mulher que se apresentou como Mariana, depois Luciana e finalmente Clara, iria contar a Inspector, seria, apenas, a confirmação de que os alvos dos caçadores tinham sido abatidos. Um à entrada em casa, o terceiro crime, o outro desaparecido misteriosamente, talvez enterrado num qualquer local. Os dois primeiros crimes tinham sido cometidos, premeditadamente e só, para fazerem parte do cenário.
O Inspector, fascinado pela mulher misteriosa, facilmente aceitaria a explicação. Tudo era compreensível e o prometedor olhar da mulher, era agora mais importante para ele.
Pronto, espero ter clarificado os “Crimes do X”.
Ou será que não?
Esta agora, fui eu que fiquei na dúvida! Não podia ter havido outros envolvidos? Como é que a mulher misteriosa sabia de tudo?
Querem ver, também eu fui enganado!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

EM BRUXELAS

Há pouco tempo vi na Televisão o filme “Em Bruges” e lembrei-me que, tendo estado na Bélgica por mais de uma vez, nunca visitei Bruges, apesar de que todos os meus amigos me diziam ser, visita obrigatória.
Pronto, tive oportunidade, mas não aproveitei.
Uma das vezes que estive em Bruxelas, aconteceu quando, para regressar de Luanda, utilizei o voo da Sabena, com escala em Kinshasa.
Durante esta escala, assisti à entrada no aparelho, de militares fortemente armados, escoltando dois funcionários, cada um transportando uma caixa negra, que era guardada num cofre existente perto da cabina de pilotagem. Depois os dois funcionários saíram, os militares também, o avião descolou para o seu destino.
Ingenuamente, perguntei a um comissário de bordo, a razão naquela escala, porque nem tinha saído nem entrado um só passageiro. O Comissário riu e perguntou se eu não tinha reparado nas caixas negras, porque elas eram a razão da paragem do avião. Sabe, lá dentro vão as economias mensais do Presidente Mobutu.
Eu sabia o que toda a gente sabia, mas que o descaramento fosse tanto, nem dava para acreditar.
Cheguei bem cedo à cidade e escolhi um pequeno mas agradável hotel, bem no centro da cidade. Tinha combinado com a minha Mulher que ela iria a Bruxelas, onde eu a esperaria, para podermos passar um bom fim-de-semana. Tivemos assim oportunidade de experimentar a comida tradicional, mexilhões com batata frita, e reservamos o dia para admirar o que a cidade tem para nos oferecer, designadamente a Grand Place, que impressiona pela sua arquitectura e monumentalidade. Contudo, os nossos amigos Belgas salientaram que a Praça só existia com aquela grandiosidade, porque tinha sido construída pelos Espanhóis.
Na Segunda-feira, tinha um encontro de trabalho na cidade de Malines. O motorista de táxi, não conhecia a cidade e quanto perguntava o caminho para o endereço que eu pretendia, falava em Flamengo. Eu, um pouco desconfiado, disse-lhe que deveria fazer as perguntas em Francês, para eu entender e poder ajudar. A resposta dela foi a melhor prova da impossibilidade de um dia haver um Europa Comum. Ele disse que, a Cidade em que estávamos se chamava Mechelen, zona Flamenga, e que se perguntasse em Francês, ninguém se dignaria responder.
Regressei a Bruxelas por comboio. Ao deixar-mos o hotel com destino ao Aeroporto, reparamos que no átrio do hotel, entre outras personalidades que o tinham frequentado, havia uma placa, bem destacada, dedicada a Astor Piazzolla.
Confessamos que não conhecíamos. Hoje, muitos anos depois, podemos dizer que sim, conhecemos, e que é com grande prazer que ouvimos um Tango diferente, porque é tocado por Piazzolla no seu Bandoneon.
Querem ouvir?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O CINEMA E A VIDA OU O FILME DUMA VIDA

Que raio que título havia de encontrar. Nem sei o que me deu, e agora ou apago ou vou ter de inventar qualquer coisa.
Bem vistas as coisas o título até fará algum sentido. Sou e fui sempre um amante de cinema, só não posso dizer de bom cinema, se é que essa classificação faz algum sentido. Agora que os filmes que vi, e tantos foram, preencheram um espaço importante da minha vida, alguns me meteram medo, outros me ensinaram o lugar de cada um, ainda aqueles que mostraram que o mundo não resumia ao meu canto e, finalmente os que me fizerem sonhar, isso eu reconheço.
Por exemplo, recordo o pavor que tive, ao fazer o caminho para casa, noite cerrada, percorrendo uma razoável distância, sem ver vivalma nos pinhais ou olivais que teria de passar, vendo em todo o canto a figura do Conde Drácula, cujo filme acabara de ver. Se ganhei coragem para enfrentar os medos, foi porque escolhi armas para defender, duas pedras de bom tamanho, com as quais pensava poder partir os dentes do Christopher Lee, a-propósito, um excelente actor.
Em contrapartida, alguns anos antes, vira o filme, Melodia Fascinante, no original “The Eddy Duchin Story”, a estrela Kim Novak era a minha musa de então. Adorei a história e acabei apreciando a música de piano, ainda hoje o meu instrumento favorito. O actor, podia não ser grande coisa, mas para as mulheres, era um belo Homem.
Finalmente quando me perguntam qual o filme da minha vida, há um que digo de imediato, e sem sequer pensar duas vezes. O filme é “O Verão de 42” de “Robert Mulligan. Porquê, se não é sequer um filme que marque a história do cinema?
Talvez respondo, porque O Verão de 42 foi quando nasci e o jovem personagem era tal qual o que sonhara ser.
Sem não tiverem paciência para ler este amontoado de palavras, esqueçam, mas ouçam a música do piano de Carmen Cavallaro e vejam o trailer do filme da minha vida.